"O homem sem mim", nova obra de ficção da autora portuguesa Rute Simões Ribeiro, ganhadora do Prémio Hugo Santos em 2023, retrata a vida pelos olhos de João, carpinteiro septuagenário português, acometido por Alzheimer. Com destreza lírica, Simões Ribeiro constrói ao longo de curtos capítulos um narrador-personagem perdido nos caminhos de sua memória, à mercê de lembranças e fluxos de consciência sem sincronia com o presente. João é conduzido pela vida por Carminho, sua esposa e alicerce, que é surpreendida por uma versão passada do marido a cada novo dia. A vida com filhos e netos e as relações com antigos amigos também fazem parte do tecido afetivo abalado pela consciência intermitente de João, cuja cisão entre sujeito e corpo é a pedra de toque de "O homem sem mim", história de um amor desafiado pelo tempo e pela memória.
Rute Simões Ribeiro was born in Coimbra, Portugal, on November 17, 1977. Her first book was short listed for the 2015 LeYa Prize, a Portuguese literary award. She has a Law degree and a PhD in Public Health. She is currently living in Lisbon.
Rute Simões Ribeiro nasceu em Coimbra, Portugal, a 17 de novembro de 1977. O seu primeiro livro foi finalista do Prémio LeYa 2015. É licenciada em Direito e Doutorada em Saúde Pública. Vive atualmente em Lisboa.
Não sei se padecer de Alzheimer é isto, não sei se algum doente deste mal devastador conseguiu alguma vez vocalizar esta despersonalização, mas "O Homem sem Mim" não pode estar longe do que é estar na cabeça de uma pessoa que tem esta doença. Tentarei escrever uma resenha quando alguma das passagens que quero transcrever deixar de me comover de forma tão assoberbante.
Amanhã, serei menos, seguirei do peso do homem à leveza da pena. Amanhã inexistirei.
Hoje, 21 de setembro, é Dia Mundial do Alzheimer, e por isso resolvi ler este livro sobre esta temática. Foi uma narrativa que não só me tocou mas feriu por situações próximas que tive.
Já li outros livros da Rute Simões Ribeiro, mas este é, sem dúvida, o mais comovente de todos.
Aqui acompanhamos João, um carpinteiro septuagenário diagnosticado com Alzheimer. Mas não o vemos de fora. Ouvimos a sua voz, caminhamos na sua mente, sentimos a confusão dos dias, o embaralhar da memória, a perda do sentido do corpo. A cada página, percebemos como a doença corrói a identidade, mas não apaga a humanidade.
“Fico em nódoa na minha cabeça e grito para o que vai cá dentro que me largue! Grito ao que há dentro e não compõe nada. E é ao corpo todo que despeço.” — assim fala João, mostrando o abismo em que se encontra. É poesia dura, que não romantiza a doença, mas dá-lhe palavras.
Mas não é só a voz de João que ecoa. Está sempre ali a presença de Carminho, a esposa, cuidadora, companheira de espera e de resistência. A doença não é apenas do doente — atinge quem ama, quem fica, quem segura a mão, quem relembra todos os dias o que já não é lembrado. Este livro dá também visibilidade a esse amor silencioso e pesado, que é cuidar.
“Carminho, é dia de ir à missa?” Ela gritou-me da cozinha, “Não!”. Fui para trás e sentei-me a ver televisão. Há dias em que me parece que ela sabe mais que eu, e não me dou ao trabalho de teimar. Pergunto-lhe e sei logo. A minha Carminho tem sempre a minha vida em dia."
Apesar da escrita poética, a autora não suaviza a dor. Pelo contrário: revela com delicadeza um tema cruel, mostrando a fragilidade de perder alguém em vida.
“Depois do portão, só sei saudade. Estes passos não se encontrarão com nada. Só cumprem distância e desencontro.”
Ao ler, lembrei-me do filme "O Pai", de Florian Zeller, onde Anthony Hopkins (Óscar de Melhor Actor, 2021) nos coloca dentro da desorientação de quem vive com demência. Tal como no cinema, também aqui somos arrastados para dentro da mente do doente. Vivemos o desencontro entre o homem que se lembra e o corpo que permanece — e também quem o acompanha até ao fim.
Há frases que ficam gravadas como cicatrizes: “Sou a névoa, ergo-me em grãos de poeira que foram pele. Sou a peça passada de um homem translúcido. Sou a poesia de um homem de pó.”
O Homem sem Mim é um livro curto, mas imenso naquilo que provoca. É sobre perda, mas também sobre amor. Sobre o que desaparece, mas também sobre o que resiste. É também sobre os cuidadores, esses pilares invisíveis que sustentam tanto quanto sofrem.
De todos os livros da Rute, este foi o que mais me comoveu. Uma leitura necessária, especialmente neste dia, porque nos lembra que o Alzheimer não é só estatística: é vida, é dor, é amor.
A demência é luto em vida — para quem a vive e para quem cuida.
O Homem sem Mim, de Rute Simões Ribeiro, uma autora portuguesa que se tornou uma das minhas preferidas foi uma leitura incrível que fiz neste início de ano.
Esta narrativa apresenta-nos João, que nos fala na primeira pessoa. Desde logo, percebemos que a névoa que o envolve é uma dessas doenças que nos aprisionam dentro do nosso corpo: a demência. Carpinteiro septuagenário, João, às vezes, tem apenas 47 anos. A sua esposa, Carminho, é o seu porto seguro, mesmo quando ele não se sente seguro para atracar.
Este pequeno livro leva-nos numa viagem ao abismo da consciência e da memória, que é tudo o que somos. Para mim, que perdi a minha mãe muito jovem para esta doença, este livro foi muito especial, e a Rute conseguiu pôr no papel sentimentos quase inexprimíveis.
Ver partir todos os dias quem queríamos que fosse eterno é uma brutalidade inexplicável, e, na personagem da Carminho, a autora consegue aproximar-nos desse sofrimento.
O olhar de João, o seu pensamento nebuloso, as suas reações e os seus medos lembraram-me muito a minha mãe e são um mote à reflexão sobre a nossa fragilidade e sobre o luto de nós mesmos.
Este livro veio-me parar às mãos por acaso (obrigada, amigas lindas), e prendeu-me pelo tema e pelo formato. Tem partes de tirar a respiração e lê-se num sopro, mas se calhar é daqueles livros que pode ficar na mesa de cabeceira para de vez em quando se ler sobre um dia aleatório no diário dum paciente de Alzheimer. Mesmo sendo pequeno, “O homem sem mim” tirou-me o chão quando o chão foi tirado ao protagonista