Hoje, 21 de setembro, é Dia Mundial do Alzheimer, e por isso resolvi ler este livro sobre esta temática. Foi uma narrativa que não só me tocou mas feriu por situações próximas que tive.
Já li outros livros da Rute Simões Ribeiro, mas este é, sem dúvida, o mais comovente de todos.
Aqui acompanhamos João, um carpinteiro septuagenário diagnosticado com Alzheimer. Mas não o vemos de fora. Ouvimos a sua voz, caminhamos na sua mente, sentimos a confusão dos dias, o embaralhar da memória, a perda do sentido do corpo. A cada página, percebemos como a doença corrói a identidade, mas não apaga a humanidade.
“Fico em nódoa na minha cabeça e grito para o que vai cá dentro que me largue! Grito ao que há dentro e não compõe nada. E é ao corpo todo que despeço.” — assim fala João, mostrando o abismo em que se encontra. É poesia dura, que não romantiza a doença, mas dá-lhe palavras.
Mas não é só a voz de João que ecoa. Está sempre ali a presença de Carminho, a esposa, cuidadora, companheira de espera e de resistência. A doença não é apenas do doente — atinge quem ama, quem fica, quem segura a mão, quem relembra todos os dias o que já não é lembrado. Este livro dá também visibilidade a esse amor silencioso e pesado, que é cuidar.
“Carminho, é dia de ir à missa?” Ela gritou-me da cozinha, “Não!”. Fui para trás e sentei-me a ver televisão. Há dias em que me parece que ela sabe mais que eu, e não me dou ao trabalho de teimar. Pergunto-lhe e sei logo. A minha Carminho tem sempre a minha vida em dia."
Apesar da escrita poética, a autora não suaviza a dor. Pelo contrário: revela com delicadeza um tema cruel, mostrando a fragilidade de perder alguém em vida.
“Depois do portão, só sei saudade. Estes passos não se encontrarão com nada. Só cumprem distância e desencontro.”
Ao ler, lembrei-me do filme "O Pai", de Florian Zeller, onde Anthony Hopkins (Óscar de Melhor Actor, 2021) nos coloca dentro da desorientação de quem vive com demência. Tal como no cinema, também aqui somos arrastados para dentro da mente do doente. Vivemos o desencontro entre o homem que se lembra e o corpo que permanece — e também quem o acompanha até ao fim.
Há frases que ficam gravadas como cicatrizes:
“Sou a névoa, ergo-me em grãos de poeira que foram pele. Sou a peça passada de um homem translúcido. Sou a poesia de um homem de pó.”
O Homem sem Mim é um livro curto, mas imenso naquilo que provoca. É sobre perda, mas também sobre amor. Sobre o que desaparece, mas também sobre o que resiste. É também sobre os cuidadores, esses pilares invisíveis que sustentam tanto quanto sofrem.
De todos os livros da Rute, este foi o que mais me comoveu. Uma leitura necessária, especialmente neste dia, porque nos lembra que o Alzheimer não é só estatística: é vida, é dor, é amor.
A demência é luto em vida — para quem a vive e para quem cuida.