Foi com Sophia que aprendi que a poesia se faz e se percebe no silêncio, na escuta do silêncio. Sou poeta e acho que passei a apreender mais o que é e como se incorpora a poesia com os livros dessa poeta portuguesa sem igual. Poeta da dúvida, das paredes brancas atentas, do mar reluzente, das noites que pesam o ombro, do passar do silêncio, dos gritos que causam insônia nas coisas, da mão que pousa, de repente, em cima da mesa.
Essa edição publicada pela Companhia das Letras traz dois livros da poeta, ambos publicados na década de 1960 e que são construidos sob influência direta da poesia brasileira, de poetas como João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira. Sim, os poemas são profundamente liricos e a um só tempo profundamente diretos, lapidar... quase como uma faca afiada. De uma forma ou de outra, a dúvida paira como ponto de partida de cada poema: "Escuto mas não sei/se o que oiço é silêncio/ou deus".
Os poemas de Sophia são um convite a um modo de estar no mundo; concentrados, atentos, espantados constantemente com tudo que vemos... como uma antena que capta as navegações das ondas, ainda que tardem.