Poesia construída em fragmentos, pensamentos, aforismos, numa intencionalidade experimental, desobediente de géneros e fronteiras. Desde logo, na questão linguística: há textos em português, em inglês, expressões em francês e em espanhol, numa heterolíngua que atravessa todo o livro. Sob as figuras tutelares de Fernando Pessoa e de Cesariny, "CONSTELAÇÃO" é um mapa onde se traçam questões da identidade e do ser, incluindo do ser poético.
Sónia Balacó nasceu em Peniche em 1984. Trabalha como actriz desde 1999, tendo feito parte de projectos como "Vikings: Valhalla" (Netflix) e "Último a Sair". Em 2015, publicou o seu primeiro livro de poemas, CONSTELAÇÃO, pela Mariposa Azual e um print homónimo com a Galeria Underdogs, numa edição de 30 exemplares numerados e assinados. A sua performance THE POET IS PRESENT fez parte do Festival Iminente em 2019. É argumentista, realizadora e produtora da série PRISMA (RTP Play), que também protagoniza. Em 2024, publicou o seu segundo livro, ROSA, pela Mercúrio Ondulado, bem como uma nova edição de CONSTELAÇÃO, com uma nova capa.
Como primeiro livro, Constelação consegue apresentar-nos a escrita da Sónia, entre poesia e alguma prosa, brincando com a língua portuguesa e não só, criando vários pontos que, ao unirem-se, hão de criar a imagem que o livro reflete, a da busca pela identidade. Gostei muito de o ler, certa de que quero ler o segundo livro da autora em breve.
Quando comecei a ler os poemas soltos que a Sónia Balacó ia deixando algures nas redes, percebi que precisava de lê-los todos. E sorte a minha, apareceu-me o Constelação como presente de aniversário. A Sónia é hoje, juntamente com a Filipa Leal, a minha poeta (sim, poeta) favorita. Segue as linhas com liberdade, sem versos contados, sem rimas e sem métricas. E este Constelação reúne alguns dos poemas mais bonitos que já li. Fica apenas um ilustrado mas não posso deixar de vos pedir que leiam o Faz mais sentido que as coisas desaparecam à noite, o poema da página 32 e o poema da página 90. + review no www.ophelia.blogs.sapo.pt
O livro é recheado de breves momentos em que uma palavra - que pensavas que conhecias bem e estavas farto de a ter na língua - ganha de repente outro significado que tu antes não vias e que agora não consegues não ver. Esta agilidade com que a Sónia brinca com as palavras é invejável, dá leveza a obra e torna-a especial. Não sabia o que esperar...mas rapidamente me rendi.
Sou apreciadora assumida de poemas que nos incluem, que nos agregam como se a voz do sujeito fosse a nossa - ou uma sobreposição muito idêntica; sou apreciadora de poemas que partem de detalhes quotidianos, por vezes triviais, mas que nos inquietam com a mesma intensidade de questões maiores. E sinto que a poetisa fez uma gestão equilibrada, intimista e audaz dessas perspetivas. Ademais, houve alturas em que uma linha era suficiente para que as suas palavras ficassem presas aos meus pensamentos.