gosto que suas narrativas não perdem uma certa voltagem, uma coisa enérgica, que vai guiando os acontecimentos por construções de ambientes e de ciclos bem descritos, firmados e ligados uns nos outros, seja nas disparidades ou nas similaridades, sem perder um ritmo próprio. nesse seu novo romance, a sequência de acontecimentos é firmada, também, em alguns pressupostos por meio da manifestação da violência de gênero e de injustiças de classe, de origem. sabemos que algo vai acontecer; muito acontece aqui, e as causas são aparentes e explícitas. a misoginia, o corporativismo, a exploração do trabalho e das condições de classe, a homofobia, a miséria, o machismo, a subalternidade, tanto é manifesto aqui. uma das coisas que mais ficaram comigo ao terminar a leitura foi exatamente esse sentimento amargo de que tudo se perpetua. enfim.
algumas tantas coisas seguiram comigo durante essas páginas e após.
a percepção do espaço ao redor de Vanderson (uma fofura, inclusive) é um exemplo: "a impressão permanente de que havia muitos mundos, um a envolver o outro como as camadas de uma cebola"; também teve esse trecho que me atingiu num susto, diria: "um cheiro que durante muito tempo ele associaria à ideia de carinho, antes de aprender com o mundo que devia considerá-lo desagradável." esses dois exemplos por si só bastam pra que eu me lembre de algumas das coisas que esse livro causou em mim, seja na imaginação ou no sentimento.
aqui todos estão, de alguma forma, afetados ou formados pelo pensamento e pelo agir dos ideais de masculinidade adotados com poucas recusas e críticas. isso me afetou também, por exemplo, nessa impotência, no sentimento de vergonha e de desconforto que a homofobia e que o machismo são capazes de causar. senti bastante numa tentativa de fugir dali, empreitada de um dos personagens, é tão necessário que se fale e que se escreva nisso. não é muito diferente com Vera, com Carmem, com as filhas, mães, irmãs, avós e amigas. é muita coisa.
José Falero me faz rir junto com uma personagem bem-humorada como Fátima, pra depois me fazer segurar lágrimas ao ler algo como: "Ele tá querendo dizer que a gente merece respeito". um romance que denuncia sem abandonar o sentimento, o afeto, mas também o escárnio, e não evita em abordar questões presentes até mesmo na infância e na adolescência - isso tudo acompanhado de fortes comentários sobre disparidades sociais, identidades e pertencimento; um romance que se instaura no cotidiano. a força de expor tudo isso parece residir, também, nas próprias personagens e em onde elas estão. personagens cativantes, diga-se de passagem. e a escrita de Falero torna a leitura, eu diria, mais agradável.