3,5*
Sendo argumentista, Pedro Almodóvar é obviamente um escritor, mas daí a ser um grande escritor literário vai uma grande distância, como ele mesmo, no fundo, reconhece, no texto que conclui esta obra, “”Um romance mau.”
Ninguém é tonto a ponto de pensar que, por escrever um bom guião, está destinado a escrever um bom romance, muito menos o grande romance. No entanto, é uma aspiração legítima e humana da qual temos de nos defender, e para isso é necessário não nos apaixonarmos pela nossa própria obra.
Em “O Último Sonho”, Almodóvar é competente, é reconhecível o seu universo de homoerotismo, travestis e mulheres à beira de um ataque de nervos e faz uma reinterpretação histórica interessante, mas onde se notabiliza é na vertente autobiográfica da qual eu queria ter visto muito mais.
“O último sonho”, sobre a morte da mãe, trouxe-me a mesma emoção que o sublime “Dor e Glória”.
Não tive a atenção de incluir o seu apelido no meu nome público, como ela teria gostado. “Tu chamas-te Pedro Almodóvar Caballero Que é isso de Almodóvar só?!” disse-me uma vez, quase zangada. As mães pisam sempre terra firme.
“Adeus, vulcão” é mais uma despedida sentida, desta vez da cantora Chavela Vargas, a quem deu um segundo fôlego na vida ao usar as suas canções na banda sonora dos filmes, como o célebre “Piensa en mi” de “Saltos Altos”.
Chavela Vargas fez do abandono e da desolação uma catedral onde cabíamos todos e de onde saíamos reconciliados com os nossos próprios erros, dispostos a continuar a cometê-los, a tentar novamente.
Em “Memória de um dia vazio”, Almodóvar fala do que fez numa Quinta-Feira Santa, ele que é um solitário e um viciado em trabalho e sente dificuldade em preencher os seus dias de ócio. Leu, obviamente. Começa por discorrer sobre Warhol e os seus diários e termina a falar de “O Perfume das Flores à Noite”, de Leïla Smilani.
E, pouco a pouco, as pessoas vão desaparecendo. Em dias como os de hoje, a minha solidão é um peso enorme, não interessa que já esteja habituado, que seja um solitário especialista. Não gosto, e muitas vezes, causa-me angústia.
Gostei desta experiência de leitura, mas sendo outro meio, falta-lhe realmente a parte visual, a exuberância e o dramatismo dos diálogos ditos pelos artistas míticos de que Almódovar se fez rodear, o que me deu uma vontade enorme de resgatar os seus filmes ao cesto de DVD que serve presentemente de base aos 50 livros que tenho na calha.