Cenas da vida na aldeia. É basicamente isso que define esta obra de Natalia Ginzburg, que segue um leque de personagens ligadas a quatro famílias, antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial.
- Como pode pesar, uma aldeia! –disse. – Tem um peso de chumbo, com todos os seus mortos! Como me pesa esta nossa aldeia, tão pequena, um punhado de casas! Nunca posso libertar-me dela, não posso esquecer-me dela!
É mau sinal quando termino um livro, por mais pequeno que seja, sem uma única frase marcada, mas foi precisamente isso que aconteceu em “As Palavras da Noite”, onde a tradução ridiculamente colada ao original e a revisão displicente (a desenvolver posteriormente, só para quem quiser mais do mesmo), só veio tornar mais atabalhoada uma escrita já por si baça, com frases curtas e abruptas que raramente aprecio.
Na primeira parte de “As Palavras da Noite”, as várias personagens que são apresentadas alternadamente por uma das moradoras, Elsa, crescem, casam, têm filhos, divorciam-se, morrem e, enfim, isso é a lei da vida e não me dá propriamente tempo para criar ligação com nenhuma delas. Numa fase mais adiantada do livro, percebe-se que todas essas cenas descritas são um preâmbulo para o vínculo que Elsa criou com um dos rapazes da aldeia e o peso que isso tem na ideação e na concretização do seu relacionamento, o que salva o livro do descalabro.
- Tinha imaginado tudo, com demasiada clareza. Tinha-nos imaginado, a ti e a mim, aqui, nesta sala, nesta casa. Tinha imaginado tudo, com uma tal precisão, até ao mais ínfimo pormenor. E quando se vêem as coisas futuras com tanta clareza, como se já estivessem a suceder, então, é sinal de que não devem suceder nunca. Porque já sucederam, num certo sentido, na nossa cabeça e não nos é mais consentido experimentá-las a sério.
É o quarto livro de Natalia Ginzburg que leio e só “Foi Assim” me impressionou verdadeiramente.
[Há pouco tempo, o responsável da editora Relógio d’Água veio a público insurgiu-se, com toda a razão, contra a utilização de inteligência artificial na tradução literária, mas, ainda que reconheça que alguém tem de pôr um travão nisso, o que de momento me preocupa mesmo é a inteligência humana. Se ninguém em editoras de renome quer saber como chega uma tradução às livrarias, pergunto: é preferível pagar 5 euros por um livro traduzido às três pancadas por IA ou 15 euros por um traduzido e revisto por duas alminhas sem brio, que nem notas de rodapé se dão ao trabalho de incluir? Se os leitores portugueses não se interessam pela qualidade da transposição para português, apenas com a história, e digo-o porque vejo pouca gente a barafustar, a resposta, num país onde comprar livros é um luxo e as pessoas não têm dinheiro para casa e comida, parece-me óbvia. Como disse o outro já nos idos anos 90: “It’s the economy, stupid!”]