Este segundo livro de poemas de Alexandre O'Neill, saído em 1958, é um objeto sui generis: Jorge de Sena considera-o «quase um livro de estreia», dado muitos poemas do livro anterior, mesmo dentre os mais emblemáticos como «Um Adeus Português», terem migrado para este. É então aqui que, de certo modo, se cristalizam as principais linhas desta poesia. Nas palavras de Joana Meirim, posfaciadora deste volume: «Regressar em 2024 a este No Reino da Dinamarca, apesar de algumas mudanças no diagnóstico, continua a ter efeitos terapêuticos inegáveis para quem o lê. Pode parecer estranho, sobretudo para um poeta que chegou a considerar a sua poesia de curto alcance, mas a verdade é que este livro continua hoje a dizer o que deve ser dito. É esta a sua lição maior de poesia: sigamos o cherne e derrotemos a solidão e a mágoa.»
Autodidacta, O’Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua acção à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar». Foi várias vezes preso pela polícia política, a PIDE.
Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz de ombros puros e a sombra de uma angústia já purificada Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver Não podias ficar nesta cama comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual Não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal Não tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giramos até à idiotia esta pequena morte e o seu minucioso e porco ritual esta nossa razão absurda de ser Não tu és da cidade aventureira da cidade onde o amor encontra as suas ruas e o cemitério ardente da sua morte tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso onde morres ou vives não de asfixia mas às mãos de uma aventura de um comércio puro sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti.
Agora escrevo “Ganhámos juntos o que perdemos separados.
Flechas velocíssimas, Nossos sonhos voavam Em direção à vida. E era na vida que queriam acertar, Era na vida que queriam morder, Era à vida que nos queriam ligar!
Nos nossos sonhos entrava gente viva, Entravam cartas, poemas, versos Tão cheios de sentido como ruas E ruas plenas de ritmo e sentido, Como os melhores versos. Entravam amigos, desejos, lutas E esperanças comuns, Recordações, amores antigos Como navios perdidos muito ao longe Ou já imóveis sob anos e anos de silêncio, Leituras discutidas, evocadas: sonhos E destinos próximos, tristezas e alegrias semelhantes, Vidas exemplares, Vidas fulgurantes de vida!”
Amigo “Mal nos conhecemos Inaugurámos a palavra “amigo”.
“Amigo” é um sorriso De boca em boca, Um olhar bem limpo, Uma casa, mesmo modesta, que se oferece, Um coração pronto a pulsar Na nossa mão!
“Amigo” (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?) “Amigo” é o contrário de inimigo!
“Amigo” é o erro corrigido, Não o erro perseguido, explorado, É a verdade partilhada, praticada.
“Amigo” é a solidão derrotada!
“Amigo” é uma grande tarefa, Um trabalho sem fim, Um espaço útil, um tempo fértil, “Amigo” vai ser, é já uma grande festa!”
Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança, De imenso amor, de esperança louca. Palavras nuas que beijas Quando a noite perde o rosto; Palavras que se recusam Aos muros do teu desgosto. De repente coloridas Entre palavras sem cor, Esperadas inesperadas Como a poesia ou o amor. (O nome de quem se ama Letra a letra revelado No mármore distraído No papel abandonado) Palavras que nos transportam Aonde a noite é mais forte, Ao silêncio dos amantes Abraçados contra a morte.
Um livro que marca pela oscilação entre a ironia mordaz e uma delicadeza extrema. Alguns poemas incomodam. Outros permanecem. “As palavras que nos beijam” fica a ressoar.