Estava sentada no alpendre da sua casa. Era um alpendre que se projetava para sul, para as montanhas da Samaria. Ao longe viam-se as montanhas da Judeia, segundo lhe tinha explicado o seu irmão José. A casa onde moravam era uma das melhores da aldeia, pelo que ela tinha percebido dos outros meninos da escola. Mas José estava a construir uma muito melhor em Séforis: teria vários pisos, com sítios para dormir no andar de cima e sítios para comer no andar de baixo. Ela tentava imaginar. Nunca tinha saído de Nazaré. Nascera ali, mas a sua família não era dali. Era de longe, da Judeia, daquelas montanhas que ela via quase azuladas, ao longe. A sua terra chamava-se Belém, mas nunca tinha estado lá. José é que lhe tinha contado isso. Contava-lhe muitas coisas, sobretudo quando ela ia para a cama: sentava-se aos seus pés, luz da candeia, e falava com ela. Era tão bom!
O autor introduz-se, e a nós com ele, na intimidade de uma família discretamente especial de Nazaré, pelos olhos de Diná, a irmã mais nova de José.
Fruto da combinação de um imaginação fértil e rezada, com os pormenores cuidados de uma historicidade estudada, crescemos com a criança Diná: vamos à escola, conhecemos a historia da família e dos seus vários personagens, e os costumes da sociedade, e as festas dos judeus... e principalmente vamo-nos cruzando com duas personagens discretamente especiais, Maria e José.
A imaginação do autor é original, e desafia a imaginação do leitor a recriar as cenas: personagens, trama, cenário. É um excelente acicate para nos relembrarmos que Maria e José, e Jesus!, foram de carne e osso como nós. Levantaram-se e deitaram-se, cozinharam e tomaram refeições, forjaram amizades e sofreram desgostos, sorriram e choraram... foram os maiores santos, e foram uma família real.
Seguimos a protagonista de 4 a.C a 4 d.C, nos altos e baixos de uma rapariga esperta e mimada, testemunha privilegiada, no combate quotidiano para se tornar uma mulher forte e piedosa ou coscuvilheira e cómoda.
Não posso agradecer o suficiente o quanto o livro me ajudou a falar com Maria e José neste tempo de Natal. Várias vezes me juntei a Diná quando adormece com a imagem de Maria e José, lado a lado, adentrada a noite, a conversar baixinho no alpendre da casa... que classe têm aqueles dois! E que sorte a minha ser seu amigo íntimo!
No antigo testamento há um personagem de nome José, filho de Jacob, das suas irmãs apenas conhecemos uma pelo nome: Diná.