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AS COISAS COMO ELAS SÃO

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Quando o fervor de maior de 68 arrefeceu, um garoto alheio a tudo, depois de correr e vociferar, teve uma experiência de todo distinta daquelas que haviam feito e que ainda fariam parte da sua vida. Ele descobriu o budismo na sua essê nu, imóvel, vazio. Não sabia colocar em palavras aquilo que vivia, tampouco reconhecia o budismo. Como foi-lhe possível? Estava além do alcance da linguagem. Uma porta se entreabriu, um sopro passou, a porta se fechou. Mas ele já não era o mesmo. Hervé Clerc, que era tal jovem, nos apresenta ao budismo não mais por meio da exposição da Doutrina, senão pelo relato de uma experiência original. O budismo que ele encontrou não foi tomado de cultura alguma. Um objeto como este tem a vocação de perder seu nome, como um alimento bem digerido cuja substância se integra à nossa. Hervé Clerc chama-o de «budismo comum». Nessa antiga visão do mundo, encontram-se ainda hoje instrumentos e materiais para reconstruir uma casa coletiva.

Paperback

Published January 10, 2025

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Hervé Clerc

7 books8 followers

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Profile Image for Vinícius Gomes.
60 reviews1 follower
January 9, 2026
Sentimentos contraditórios.

Gostei do "budismo comum" que ele evoca, da percepção das banalidades cotidianas e do quanto alguns preceitos budistas podem ser incorporados a uma filosofia de vida, digamos assim.

Por outra via, o budismo é uma religião (por mais que o autor tente destacá-las de outras religiões), e isso pressupõe algumas crenças completamente anticientíficas - como as ideias de nirvana, karma e reencarnação. E isso incomoda, sou racional demais pra acreditar e aceitar essas coisas.

O Oliver Sacks tem um texto chamado "Ver deus no terceiro milênio", no qual explica cientificamente o que são essas experiências religiosas. É nisso que acredito. E esse texto me fez pensar que a experiência do Hervé Clerc, que levou ele ao budismo, comprovaria o argumento do Sacks, pois ocorreu após o uso de drogas psicodélicas. Mesmo alegando que o efeito havia passado, é provável que a química do cérebro continuasse alterada, e o que ele chamou de "iluminação"fosse apenas uma alteração sináptica decorrente do uso de substâncias psicoativas.

Não virei budista, portanto, depois da leitura desse livro - pelo contrário, reafirmei minha admiração pelo Sacks, mas também por outras figuras que contribuíram e contribuem para a formação do meu peculiar sistema de "crenças" (a delicadeza da tia Wislawa, a ironia e a aceitação do Roberto Bolaño, a rabugice do Thomas Bernhard, a experiência corredora do Drauzio Varella e do Haruki Murakami).

Não à toa, meus trechos preferidos são os que mais se aproximam da poesia, ou de uma certa visão poética do mundo:

p. 19: Quando aplicado às tarefas da vida cotidiana, o Meio é o ponto intermediário em que a vontade, nem rígida nem mansa, como as cordas de um alaúde ou de uma harpa, adquire eficiência máxima. Escrever? Cozinhar? Cuidar do jardim? Velejar? Falar? Ler? Andar? Correr? Amar (até mesmo)? Questão de meio. Nem muito, nem pouco. Nem depressa, nem lento. In medio stat virtus.

p. 83: O tempo passou. Já não me sinto surpreso, mas não encontrei a resposta à pergunta de Bruce Chatwin [o que estou fazendo aqui?]. Talvez outros tenham a resposta: os chamados sábios, ou os pássaros quando se reúnem ao cair da noite, soltando seus gritos agudos, alvoroçando céu e terra. Eles devem saber a resposta, senão se calariam. Eu, contudo, não a sei.

p. 130-131: Na varanda, as andorinhas pousam, os chapins vão e vêm, às vezes incomodando um grande gaio de asas azuladas. Escrevo estas linhas num chalé situado na intersecção de dois vales: o de Bagnes, à minha esquerda, é escarpado e sombreado; o de Entremont, à minha direita, é aberto e ensolarado. Lou, nosso Cocker spaniel preto, de gravata branca, dorme ao meu lado. Estou sentado a uma escrivaninha de madeira clara, sarapintada de números e letras góticas. Numa prateleira da biblioteca, uma reprodução de um busto de Rodin representa Pierre de Wissant, um dos burgueses de Calois. A cabeça pequena exprime uma profunda aflição – dukkha –, sob todos os ângulos, menos um. É preciso se posicionar um pouco abaixo da estatueta, a cerca de dois metros de distância, e levemente à direita dela. Então, o corpo ilumina-se com um sorriso. Pierre de Wissant sossega, recompõe-se. Ele volta para si mesmo e para nós. A aflição é substituída pela serenidade. Precisei de vários anos de familiaridade com a pequena escultura para descobrir, enquanto tomava meu café da manhã, esse ponto de vista, decerto marginal, mas bastante tranquilizador. Não sei se Rodin o introduziu deliberadamente no tormento desse rosto, ou se ele se situou ali por acaso ou por graça, como uma bela ave numa balaustrada. Compreendi de supetão, enquanto observava aquela cabeça, por que os antigos enxergavam na coexistência dos contrários a essência da sabedoria. A pequena escultura exprimia dois sentimentos contraditórios: aflição e serenidade. Nela, as duas vertentes da vida coincidiam. Não era possível dizer onde uma começava e a outra terminava. Era apenas uma questão de ponto de vista.

Profile Image for Rodrigo Morais.
3 reviews1 follower
October 5, 2025
O livro é carregado de densidade filosófica e sua leitura é uma travessia intelectual e espiritual, costurada por um autor erudito que dialoga com filosofia, literatura, artes e tradições religiosas diversas.

O texto é extremamente profundo e há uma vastidão de referências culturais.

A leitura é saborosa justamente por isso: a cada capítulo surgem pontes para outros pensadores, escritores e tradições, o que convida o leitor a complementar a experiência com pesquisas paralelas.

No fim, é um livro que funciona como uma verdadeira iniciação — não apenas ao budismo, mas também a um modo mais contemplativo e lúcido de olhar para a realidade.

É uma leitura deliciosa, de se ler aos pouquinhos, a conta-gotas e que faz da erudição uma porta de entrada para o comum, mas também para o sublime e o inefável.


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