Uma onça mata um homem no meio da floresta. Enquanto a família se organiza para enterrar o patriarca, Stefano Volp costura entre os personagens uma colcha de memórias, desprazeres e suspeitas, interseccionando o luto com temas urgentes como as masculinidades negras, a violência doméstica e a dominação masculina.
Três irmãos, Alan, Alex e Betina, se reúnem para organizar o velório do pai, Zé Maria, após sua morte trágica. Enquanto a cidade realiza uma procissão para se despedir de um morador benquisto, Rute, a mãe, e os três filhos atravessam as complexidades do apesar da saudade, o patriarca deixou na família marcas de violência e opressão.
Com alternância de vozes e perspectivas, a construção narrativa explora o terreno das masculinidades negras e revela as facetas da violência de gênero em suas múltiplas formas, investigando as dores provocadas pela sociedade machista.
Volp faz aqui uma incursão ousada em um gênero novo, estreando no romance contemporâneo e experimentando uma linguagem distinta das que já explorou em suas obras anteriores. Santo de casa toca em feridas profundas e exemplifica o quanto o sistema patriarcal, além de rebaixar qualquer outro gênero que não o masculino, precariza a subjetividade dos próprios homens.
“O livro nasce da escuta de histórias que me cercaram pelas cidades da Baixada Fluminense por onde cresci. Histórias vividas entre quatro paredes por lares que lutaram para sobreviver contra o feminicídio, os horrores do machismo e as violências do patriarcado” – Stefano Volp.
Autor de Homens Pretos (Não) Choram, O Segredo das Larvas e Nunca Vi a Chuva. Idealizador do Clube da Caixa Preta, organizador da antologia Mundo Invertido e roteirista formado pela Academia Internacional de Cinema.
esse livro tocou em lugares muito específicos que, depois de anos, eu não achei q existissem mais. apesar de não ter gostado do final (o que sempre influencia mutio na minha experiência geral/final com um livro), é de longe um dos maiores acertos do Volp! ADOREI a estrutura narrativa e amo quando os meus autores favoritos saem da sua zona de conforto e testam outras formas de contar histórias!
Santo de Casa é um romance familiar intenso e tipicamente brasileiro, que nos coloca diante do luto e das cicatrizes deixadas por relações violentas. A história acompanha uma família reunida após a morte do patriarca, Zé Maria, um homem considerado exemplar pela cidade, mas cuja verdadeira face dentro de casa era marcada pelo medo e pela violência. Agora, mãe e filhos precisam lidar com a despedida daquele que os aterrorizou, cada um processando essa perda de forma particular.
Narrado pelo filho mais novo, o livro transita entre presente e passado, explorando memórias, segredos e ressentimentos familiares. Acompanhamos como cada um dos irmãos e a mãe foram moldados por essa convivência opressiva: há quem tenha fugido para ser quem realmente é, quem tenha aprendido a replicar a violência e quem tenha passado anos escondendo verdades. O que mais me marcou foi como o livro mostra que luto e sentimentos são subjetivos, principalmente quando se trata de relações tóxicas e violentas. Os filhos sentem falta, mas não queriam estar perto, e a mãe, apesar de tudo, também tem sua forma de viver essa perda.
A escrita do Volp está ainda mais afiada, e a maneira como os mistérios familiares se revelam aos poucos torna a leitura envolvente e real. No entanto, algo que me incomodou foi a repetição do nome morto da irmã ao longo do livro. Entendo a escolha narrativa e como os irmãos lidam com isso, mas ainda assim, foi algo que me pegou. Tirando isso, amei o livro e como Volp evoluiu sua escrita.
a narrativa usada pelo volp foi a grande chave para esssa obra, a forma que ele entrelaçou toda questões em volta do Zé Maria enquanto desenvolvia os filhos e a mãe separadamente de tudo o pai significou é extremamente incrível.
só o final que me fez perder o encanto mas no geral é um livro incrível
de cara a escrita em segunda pessoa chama bastante atenção e por vezes causa um desconforto. em uma entrevista o escritor fala que a intenção era que o livro simulasse várias cartas que o narrador faz para seus familiares e para si mesmo. coisas que não são ditas mas a escrita permite. um risco e que neste caso valeu muito a pena pois somos trazidos para dentro de uma dinamica familiar bastante intima. um livro que foge da ortografia padrão o que casa muito com todas as transgressões que o livro nos apresenta. leitura contemporânea deliciosa. com certeza um nome para ficarmos de olho na literatura brasileira.
gostei do enredo apesar de não ter tido nada muito surpreendente, mas a escrita não conseguiu me cativar. consigo entender pq o volp decidiu escrever dessa forma mas não funcionou comigo e acabei sentindo um distanciamento dos personagens por conta disso. e acho que o problema continua o mesmo do que em o beijo do rio: muito foco no suspense enquanto o autor joga vários assuntos na cara do leitor sem dar profundidade a eles
O livro traz uma estranheza inicial que vai além da ausência de letras maiúsculas. Não saquei de início o motivo, mas minha esposa logo me falou: narração em segunda pessoa.
Há também algumas ausências de vírgulas, lembra um pouco Saramago, porém a leitura é bem mais fluída e fácil.
A história é envolvente e te deixa curioso do início ao fim, com inúmeras pitadas ao longo do livro sobre o as verdades escondidas e as mentiras camufladas.
Um aspecto marcante é o quão bem descritos são os sentimentos no livro, as descrições das sensações parecem vir de alguém que realmente as sofreu e soube colocá-las com muita precisão no papel. São palavras muito melancólicas e que me trouxeram fortes emoções, eu quase me sentia vivendo aquelas histórias tão cruéis.
Eu não fiquei convencido que dona Rute e Gilberto não tiverem nenhum envolvimento. Como que ela manteria uma relação platônica por tantos anos? Talvez para fugir da realidade dela? Talvez, mas ainda fiquei com uma pulga atrás da orelha dessa relação.
Um questão marcante é que você fica com tanto ódio de Zé Maria que se torna cúmplice da ideia de que dona Rute o matou. Porém, no final não foi nada disso: o que aconteceu é que Zé Maria tinha um câncer avançado e pediu para seu amigo Luisinho matá-lo e fingir que foi ataque de onça. Não ficou claro se dona Rute sabia desse plano, mas Zé Maria fez-lhe prometer não contar a ninguém a respeito do câncer.
O livro é muito bom, iniciei a leitura sem expectativas, só sabia que o livro estava sendo bem comentado e ele tinha sido recém lançado.
8/10
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As relações tão falsas com quem tanto convivemos são extremamente reais. O santo na rua e o diabo em casa que permeia traumas e infecta gerações. uma brasilidade que alcança qualquer um. bom demais, apesar de difícil.
Esse ano me propus a ler livros de autores de lugares especiais pra mim, esse foi o escolhido para o ES. É um livro interessante, o final foi arrebatador, mas o início um pouco arrastado.
Santo de Casa é um romance que implode a arquitetura tradicional da família brasileira e desnuda, com dolorosa precisão, os efeitos da violência patriarcal no íntimo de seus membros. Stefano Volp recorre a uma escrita em fluxo de consciência para dar corpo a uma narrativa que não quer ser linear, tampouco confortável. Ao contrário: tudo aqui é ruptura - de tempo, de afeto, de linguagem.
Cada personagem tem sua própria seção narrativa, mergulhando no trauma como quem pisa em cacos. A alternância entre as vozes de Rute (a mãe), Alex, Alan e Betina (os filhos) permite ao autor construir um polifônico e desconcertante retrato da herança de um lar opressor. A técnica do fluxo de consciência é mais do que escolha estética, é a forma possível de narrar o indizível, o que foi empurrado para o porão da memória e do corpo.
A figura do pai, José Maria, encarna uma contradição brutal: aos olhos da comunidade, é respeitado, quase mitificado; dentro de casa, é agressor, manipulador, presença onipresente até mesmo após a morte. O título da obra já sinaliza esse paradoxo: o “santo de casa” que nunca fez milagre algum dentro das quatro paredes onde mais se exigia milagre, o espaço doméstico. O processo de luto, portanto, é conturbado, ambivalente: chora-se o pai, mas também se respira alívio; sente-se culpa, mas também desejo de libertação. O livro propõe, assim, uma ética do ressentimento lúcido, que rejeita a romantização do perdão e confronta o mito da “família sagrada”.
A complexidade emocional se articula também nos atravessamentos de raça, gênero e sexualidade. Betina, filha trans, é o símbolo da desobediência aos papeis impostos e por isso, rejeitada, silenciada, estigmatizada, mas também afirmada como uma das poucas capazes de lidar com a burocracia da morte e os escombros da família. Volp constrói Betina como uma presença magnética, mas ferida: ela transita entre o cuidado e o desdém, a revolta e a ternura, sempre à beira do abismo.
Santo de Casa é um livro sobre a falência dos afetos convencionais, mas também sobre a possibilidade de reconfigurá-los. Ao escancarar o que acontece entre paredes silenciosas, Volp escreve com a raiva de quem quer vingança e com a delicadeza de quem ainda deseja cura. Um romance necessário, feroz e corajoso.
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Três irmãos se reúnem para organizar o enterro do pai. Cada um guarda segredos a respeito do morto, inclusive a mãe, sendo esta a personagem com mais segredos acumulados. Muito triste a história de dona Rute, e muito comum também. Casou nova e no começo eram só flores, aí logo o Zé Maria mostrou os espinhos. O capítulo onde Alan, irmão caçula que narra o livro, relata que as irmãs da Igreja viviam a mesma coisa e denunciavam as violências sofridas através de pedidos de oração é um espetáculo. Tão bem escrito que deu vontade de chorar pensando em todas as pessoas que eu conheço que passam ou passaram por algum tipo de violência. E é muito engraçado o título, santo de casa... Que atire a primeira pedra aquele que não conhece alguém que ama performar um comportamento fictício na rua, enquanto dentro de casa esfola a alegria de viver por puro sadismo.
Santo de casa, de Stefano Volp A perda de um pai é, normalmente, um momento de tristeza e muita dor. Mas o que acontece quando as memórias do passado são carregadas de mágoa e conflitos? É isso que descobrimos ao acompanhar os rastros que a morte trágica de Zé Maria deixa para sua esposa, Rute, e seus três filhos. Todos retornam à cidade natal, onde ainda moravam os pais, para viver o luto e organizar o velório. Esse encontro, no entanto, vai reabrir feridas, permitir descobertas e despertar uma confusão de sentimentos. É possível amar e sofrer pela perda de quem nos fez mal?
Zé Maria foi por muito tempo uma presença que assombrava a família, exercida por um comportamento patriarcal e autoritário. A violência sofrida por Rute, e testemunhada pelos filhos, foi destruindo o amor heróico que se espera sentir pelo pai. A diferença dos tratamentos e a carência de afetos foi afastando os filhos daquela realidade, que deveria ser conhecida como lar. A mãe sofre com a falta, mas os filhos precisam viver suas vidas, cada um guiado por suas próprias motivações. E todos esse abismo criado nas relações envolve muito o leitor ao longo das páginas.
E apesar de tudo isso, a perda de Zé Maria representa a morte do pai. Isso mexe com os quatro que ainda escavam as memórias, e encontram poucas boas, enquanto preparam o velório. Por outro lado, os moradores da cidade, que conhecem um Zé Maria diferente, prestam homenagens diante de uma morte tão trágica, cometida por um assassino feroz. Porque o santo fora de casa não passava pela porta de entrada?
E todo esse enredado familiar é construído por Volp em uma estrutura peculiar, com múltiplas vozes.
Os capítulos alternam entre as visões dos filhos e da viúva, mas sempre a partir da voz do Alan, o caçula, que dialoga com os demais personagens. E apesar poder causar um certo estranhamento nos leitores, é um estilo interessantíssimo. Com uma escrita mais madura e carregada de um teor poético, o jovem autor toca em temas sensíveis e que são extremamente comuns: relacionamentos violentos, a falta do afeto, a fuga do seio familiar, o necessidade de guardar segredos e a dificuldade de lidar com o diferente. Recomendo!
A história é um drama familiar que explora a complexidade das relações dentro de uma família marcada por segredos e abusos. A narrativa é contada em terceira pessoa por um dos três irmãos, Alex, Alan e Betina, e gira em torno da figura do pai, Zé Maria, que, embora fosse visto como um homem bom e carismático pela sociedade, escondia uma face violenta e controladora dentro de casa. A história se desenrola após a morte de Zé Maria, revelando as feridas e traumas que ele deixou na esposa Rute e nos filhos. A escrita de Volp é envolvente e sensível, permitindo que o leitor se sinta parte da casa e das emoções intensas que permeiam a narrativa. Rute, como o coração da história, representa a luta contra o abuso psicológico e a busca por quebrar ciclos de violência. O livro provoca reflexões profundas sobre a dualidade das aparências e a realidade do abuso, utilizando uma linguagem sutil e poderosa que toca em temas delicados. A leitura é descrita como complexa e densa, mas ao mesmo tempo cativante, fazendo com que o leitor se conecte intimamente com os personagens e suas experiências. O livro aprofunda a dinâmica do abuso psicológico, mostrando como o homem, ao longo do tempo, transforma a mulher em uma marionete, perdendo sua voz e identidade. Os filhos, que testemunharam os abusos, carregam o peso do silêncio e da anulação da mãe, resultando em traumas que persistem mesmo após deixarem o lar. A morte do pai traz à tona um turbilhão de emoções contraditórias; apesar de suas falhas, ele ainda era uma figura paterna, e a perda gera um luto complexo, onde os filhos se debatem entre a raiva e a saudade. O autor explora a ideia de que ninguém é completamente bom ou ruim, refletindo sobre a vida e as relações humanas, que são repletas de nuances. A narrativa é um retrato sensível das dores e amores que permeiam a vida familiar, destacando a importância do perdão e da compreensão do que acontece dentro de casa, longe dos olhares externos.
“teu pai morreu soava como um ponto final. acabou, alan. o que você conseguiu contar para ele está feito, o que não conseguiu não vai contar mais, não vai conseguir abraçar mais, é tarde para declarar um amor, um sentimento, o que seja, a partir de agora é você falando para um corpo vazio para uma memória e fingindo que o homem desalmado é capaz de ouvir e sentir todas as coisas que você não teve coragem de lhe entregar em vida.”
3,5/5
Esse é meu terceiro livro do Volp e aqui temos um drama familiar que acompanha uma família em luto pela perda do seu patriarca, Zé Maria, morto por uma onça. Um homem adorado pela vizinhança, mas um verdadeiro monstro para a esposa e filhos.
A estrutura textual dessa história é diferente de tudo o que já li, narrado em segunda pessoa pelo filho mais novo, nós conhecemos essa família e as marcas que a presença de Zé Maria deixou na vida de cada um e as formas que encontram para lidar com o luto, a saudade e até mesmo o alívio.
Apesar da história muito boa e importante, o final deixa um pouco a desejar. Além disso, algumas escolhas de enredo me deixaram meio ???? spoilers a seguir:
OSCILANDO ENTRE UM ESTILO TRADICIONAL E A LIBERDADE CRIATIVA, a escrita até tenta, mas não consegue aplacar a carga emocional que as páginas desse livro carregam.
Mantendo como fio condutor os acontecimentos finais da vida do patriarca Zé Maria, abatido por uma onça na pequena cidade onde morava, o autor escancara com poucas palavras as marcas da opressão (machista, racista, conservadora) na nossa sociedade, sob a visão dos irmãos Betina, Alan e Alex, e da mãe deles, dona Rute. É impossível sair dessa história sem ter se identificado pelo menos um acontecimento narrado nela, principalmente se você for parte de grupos minoritários — grupos esses que estão sempre nos holofotes da arte tão necessária produzida por Volp.
A passagem da palavra entre os irmãos e a matriarca, junto à narração em segunda pessoa (que se posicionam como experimentos, artifícios distintos das obras anteriores do autor), pode ser um empecilho inicial de percepção do enredo, embora o mote seja simples: um pai morre e a família se reúne para velá-lo. Ao conhecermos o passado de cada um, no entanto, percebemos que aquele homem, tão querido e respeitado na cidade, não é o mesmo que maltratava, oprimia e violentava os seus em casa.
O livro tem muitas cenas e passagens de tirar o fôlego — às vezes literalmente, em trechos saramaguianos. É dolorido, é real e é o retrato da nossa literatura contemporânea brasileira, preocupada não só com a proeza da escrita, mas com os temas assombrosos que assolam a sociedade.
O livro é muito sensível e é um exemplo de literatura atual escrita por jovens negros.
Eu acho que o autor utiliza da sua vivência e coloca de forma muito precisa nesse livro (relembrando o conceito de escrevivência de Conceição…)
Os assuntos abordados são muito reais e talvez muitos achem vago por não aprofundar determinadas coisas, mas, na minha visão, não me incomodou… eu não senti que tinham espaços que precisavam ser preenchidos sabe? Tem coisas que não precisam ser necessariamente escritas para gente compreender (eu acho).
Mas o que há de mais interessante são as discussões interessantíssimas possíveis de se levantar… misóginia e como esse ciclo não deve continuar (mas muitas vezes de forma inconsciente ele continua), minorias que são ainda mais minorizadas, as expectativas familiares, violência contra a mulher e a sensação de impotência, as vivências de crianças e jovens negros e como elas impactam… e outras coisas que só lendo o livro pra perceber.
E como o assunto do luto é abordado quando temos uma figura que não era bem um exemplo de pessoa que consideraríamos “boa”… mas que ainda se tem de alguma forma um afeto e como esses sentimentos aparecem nesse momento do luto, eu achei muito bom.
E o final é muito REAL. Não sei ainda como definir, mas a situação em que o pai morreu é muito real mesmo e eu não estava esperando por isso. Mas quando soube também não me surpreendi, porque sei quantas situações do tipo de fato acontecem.
Preciso ler mais obras do autor! E tem muitos itens interessantes para desenvolver a partir dessa história :)
Tem alguma coisa que soa desajustada nesse livro pra mim.
A leitura não é fluida, até aí tudo bem, mas não é um fluxo de consciência, é uma outra forma que torna a leitura muito confusa e a escolha pela forma escrita pra mim foi bem incômoda e desproposital.
A carga emocional, o fator “memória”, a identificação com certeza é o trunfo do livro. A grande maioria de brasileiros conhece um Zé, de perto ou de longe. Esse apelo é o que acredito salvar a experiência literária com essa obra.
O autor não se propõe a desenvolver todos os dramas e desembolar todos as histórias que vão sendo apresentadas, mas existem buracos que me incomodaram, parecem jogados.
O fim é o ponto baixo, infelizmente pareceu que o autor perdeu a linha e caiu no clichê do clichê do clichê, que é fazer com que personagens queiram escrever um livro contando a história que estamos lendo.
Fiquei matutando sobre qual seria a minha nota para o livro e refletindo em como ele tinha ressoado em mim. De fato, foi uma leitura proveitosa — eu ia desenrolando as páginas e querendo devorar mais e mais sobre essa família. Mas a escrita demora a pegar ritmo, e os pontos de vista dos irmãos não ficam tão claros no começo.
Ainda assim, Santo de Casa me lembrou um bocado de coisas: das histórias de família que a gente coleciona por aí, da barreira que pode se criar entre irmãos, das tantas mulheres fortes que aguentam mais do que deviam em nome da família. Há um tom familiar durante todo o livro, um tom familiar em toda a história.
O final esbarra em um lugar meio clichê, mas, quando os diferentes pontos de vista se alinham, fica claro o caminho que vai se construindo. Ou seja: é clichê, mas não inesperado.
Terminei a leitura com várias marcações no livro, o que destaca o quanto Volp tem familiaridade com as palavras e transforma sua escrita em uma espécie de poema narrativo.
[..] a culpa é sua e mais outros fios e mais fios que os homens vão tecendo lentamente pelos membros e pela cabeça de uma mulher até finalmente transformá-la em marionete […] não sabia mais sonhar. esqueceu suas preferências seus gostos seus padrões as músicas que gostava o molejo do corpo o olhar travesso até mesmo sua voz mudou. o cabelo ressecou, as roupas escondiam as curvas, os esmaltes e batom desapareceram junto com o brilho do seu rosto. rutinha virou dona rute. zezinho, zé maria. só teria liberdade de novo quem sabe se um dia ele morresse, porque mesmo nos últimos anos, quando ele desistiu de feri-la, já não adiantava mais. seus desalentos todos calcificados dentro de você pioravam as coisas. quando se viu livre dele, a senhora não sabia o que fazer com aquela liberdade toda, nem sabia se queria tanto assim. quando o manipulador vai embora e as cordas cortadas, uma marionete não sabe ficar em pé.
“Santo de Casa” me atravessou como quem abre uma porta antiga e dá de cara com um espelho — desses que não aliviam, mas acolhem. Stefano Volp constrói uma história que pulsa entre a dor e a coragem, costurando violência de gênero, machismo e silêncio familiar com uma sensibilidade que não faz concessões. A leitura me fez respirar fundo mais de uma vez, não só pela crueza, mas pela forma amorosa com que ele devolve dignidade às personagens, puxando a gente para dentro de conversas difíceis, necessárias e profundamente humanas. É um livro que mexe, que cutuca, que abraça depois do baque — e que fica, como toda narrativa que toca feridas para lembrar que a cura também faz parte da nossa história.
já conhecia o stefano volp por 'nunca vi a chuva', mas aqui a sua escrita está bem mais madura e ainda melhor!
santo de casa é um livro que vai muito além do luto sentido por uma família. vemos aqui muitos traumas geracionais e vulnerabilidades carregadas durante anos por todos esses membros que só esperavam um pouco de afeto ou zelo. mas no final de tudo, esse luto também foi sobre liberdade.
o autor entrega aqui uma escrita muito sensível e lírica, com muitas camadas grandes e até difíceis de serem lidas. um livro bem marcante! é difícil acabar essa leitura e não continuar pensando nela durante muito tempo.
Em Santo de Casa, três irmãos voltam à cidade natal para o velório do pai. Enquanto todos prestam homenagens ao “bom homem”, a família enfrenta um luto cheio de marcas, silêncios e memórias dolorosas. Tudo começa com a notícia de que ele teria sido morto por uma onça, mas logo percebemos que tem muito mais por trás dessa história. Com uma narrativa potente, o livro fala sobre masculinidades negras, violência doméstica e o peso do patriarcado dentro de casa. Gostei muito de uma revelação no final que foi inesperada, mas que fez tudo se encaixar. E amei saber que o autor estudou na UERJ, como eu!
“é assim que as pessoas negras se descobrem quando decidem refletir sobre suas identidades e se dão conta do grande rombo em suas histórias, a árvore genealógica cortada, arrancada pelas raízes, pelada e agrupada numa carroça transformando-se em um produto, sem vida, igualizadas. os antecessores das nossas famílias são uma floresta de árvores genealógicas em chamas; as seivas carbonizadas os pássaros expulsos das copas e no alto um sopro de fumaça e cinzas.”
Gosto de história e do que o Volp escreve mas não amo a forma como escreve. Não gostei do final, achei meio jogado às pressas para resolver o “mistério”.
Não consegui me conectar com esse livro da forma como fiz com o outro do Volp. Não sei se é a forma como foi escrito que não foi tão fluida pra mim (sem maiúsculas, sem tantas pontuações) ou se realmente eu não estava na vibe do livro. Eu gostei, basicamente, só dá Betina. Os outros personagens não me prenderam tanto como ela. Me dava até uma certa raiva quando os outros começavam a falar bem do pai.
Muita sensibilidade ao desenvolver os personagens, sem em nenhum momento ser arrastado, é daqueles livros em que cada capítulo conta detalhes importantes pra história mas de maneira sutil e criativa, isso tudo ao mesmo tempo em que desafia as normas de estrutura da escrita. Que livro incrível!
Uma onça matou um homem na floresta. Seria motivo de luto ou de libertação para sua família? Esse livro mexeu comigo em lugares que sequer imaginei. Fala sobre conflitos e dualidades do luto de uma família na morte do patriarca, que de santo, não tinha nada.