Poucos poetas terão feito da poesia o espaço amoroso e extremo de exercício da Liberdade como António Maria Lisboa. O ímpeto subversivo e sempre inconformado da sua obra anima todas as formas de expressão, com e sem palavras, do manifesto às homenagens, em prosa ou em verso. Lisboa foi, nas palavras de Mário Cesariny, «o maior poeta surrealista português», absolutamente revolucionário na vida e na arte. Nesta antologia, reúne-se o essencial da obra deste cometa, um dos mais extraordinários poetas portugueses do século XX. Seleção e introdução de Joana Matos Frias
António Maria Lisboa nasce em Lisboa e a Lisboa vem a morrer depois de duas estadias em Paris, em 1949 e 1951, onde em vão procurará fixar-se, sem recursos próprios e carente de qualquer auxílio. Sobretudo, a segunda estadia ser-lhe-á fatal, pois parte de Portugal já doente e regressa com um pulmão destruído e o outro seriamente afectado. Em qualquer país - e em qualquer época - a sua procura incessante «de um impossível realizado» «no acto mágico que somos», o «exceder-se de tal forma que não seja possível conceptuar-se», a recusa, quasi, ou como, de cátaro, em ingerir o alimento geral, seria propósito perigoso e difícil de manter. No entanto, o tempo vivido sob a Ditadura de Salazar, sob a qual «o ar era um vómito e nós seres abjectos» agravaria temivelmente os custos do seu propósito. Desaparecido em plena juventude, António Maria Lisboa deixou um obra escassa mas nem por isso menos fulgurante. Preocupado com uma verdadeira aproximação às culturas exteriores à tão celebrada civilização ocidental, há na sua poesia uma busca incessante de um futuro tão antigo como o passado. Pode, e decerto deve, ser considerado o mais importante poeta surrealista português, pela densidade da sua afirmação e na «direcção desconhecida» para que aponta. (Mário Cesariny)
Este livro deu-me a volta à cabeça, da melhor maneira. Sou uma novata na leitura de poesia. Para além dos habituais poemas que se estuda na escola por obrigatoriedade, este género não me tem gerado particular interesse - até encontrar uma colectânea de poemas irreverentes por Nicanor Parra, conhecido como o "Anti-Poeta".
António Maria Lisboa teve uma cida curta, morrendo de tuberculose aos 25 anos. Para além de poemas, este livro contém vários excertos que nos dão uma ideia das suas crenças e filosofia pessoal. Confesso que tudo isto foi complicado de ler e muitas das analogias eu pura e simplesmente não consegui compreender e que gabo a imaginação, que mesmo nesses momentos me prendeu ao texto. O que "entendi", no entanto, foram ideias que demonstram uma mente muito aberta para o seu tempo (anos 30 a 50 do séc. XX), e é uma pena que a sua família tenha destruído parte da sua obra.
"A diferenciação será uma exigência de convívio, assim como também a unificação dos contrários. A diferenciação artificial feita de fora, a diferenciação técnica não tem interesse nem vemos o seu valor quer como forma de convívio, quer como meio válido para um convívio futuro. E francamente não sabemos, ficamos sempre saber qual a moral da história, pois com uma regularidade invejável é não ser dada a história propriamente, mas certas ligações mais ou menos de superfície (...) dela com a realidade."