O estudo e a análise da caça às bruxas atravessam toda a produção teórica e a reflexão política de Silvia Federici. Neste novo texto, retomando alguns dos temas-chave de Calibã e a bruxa — a origem do capitalismo nos processos de cercamento das terras comuns e do corpo das mulheres, a separação entre produção e reprodução e a organização do trabalho reprodutivo na longa transição capitalista —, Federici nos oferece, mais uma vez, um método de crítica e leitura do presente que questiona incessantemente as origens e transformações do capital. […] Qual a atualidade da caça às bruxas? Ni una mujer menos, ni una muerta más: com esse verso, escrito em um poema contra o aumento de feminicídios em Ciudad Juárez, México, Susana Chávez, que foi vítima de feminicídio nessa cidade, deu nome a um movimento de alcance global contra a violência de gênero, o qual, a partir da América Latina, está reposicionando o mundo. Nas marés — assim se definem as manifestações oceânicas desse movimento feminista e transfeminista — apareceram muitas vezes cartazes com a frase “somos as bruxas que vocês não conseguiram queimar”. Na prática do objetivo de Reencantando o mundo, esse movimento, para o qual a obra de Federici representa uma importante referência, tem construído um feminismo de novo tipo, que, ao mesmo tempo que luta contra a violência estrutural e sistêmica, imagina e constrói outros espaços, nos quais o trabalho produtivo possa ser socializado e o cuidado possa se converter em um princípio de construção da comunidade, de relações e alianças excluídas dos parâmetros de valorização do capital. Três temas essenciais da produção de Federici são retomados em Caça às bruxas e capital e lidos através de novas lentes, a fim de também falar aos feminismos contemporâneos, aos quais a autora se dirige para identificar seus limites e potencialidades. Três temas: os velhos e novos cercamentos (enclosures); a reedição da caça às bruxas nas novas formas assumidas pela violência de gênero; a imaginação e a construção de novos mundos, novas relações, novos comuns (commons).
Silvia Federici is an Italian and American scholar, teacher, and activist from the radical autonomist feminist Marxist and anarchist tradition. She is a professor emerita and Teaching Fellow at Hofstra University, where she was a social science professor. She worked as a teacher in Nigeria for many years, is also the co-founder of the Committee for Academic Freedom in Africa, and is a member of the Midnight Notes Collective.
Este é meu primeiro contato com a obra de Silvia Federici e foi um ótimo começo. Em uma revisitação ao tema de “Calibã e a bruxa”, Silvia faz uma breve análise sobre o papel central que o trabalho doméstico ocupa no capitalismo e como sua exploração deriva da caça às bruxas imposta nos primeiros momentos desse sistema. O cercamento de terras, o controle dos corpos e o apagamento de saberes das mulheres classificadas como feiticeiras foi apenas o ponto de partida para o encarceramento dentro de casa e pelo trabalho não remunerado das atividades dentro de casa . É a partir do sustento produzido em casa pelo trabalho feminino que é possível produzir mão de obra e, ao não reconhecer sua centralidade, o sistema consegue produzir uma hierarquização do assalariado e não assalariado.
Em suma, uma ótima leitura e com certeza buscarei mais sobre a obra da autora.