“O Turno” é uma sátira rocambolesca, muito bem conseguida, escrita no início do século XX, mas ainda a cheirar muito ao ambiente do século anterior, com casamentos combinados, mulheres trancadas em casa e o bom do duelo para resolver a mínima afronta.
A acção decorre na Sicília, de onde era natural Luigi Pirandello, e gira em torno de um pai, Ravì Marcantonio, que quer casar a sua jovem filha com um velhote abastado que, aos 72 anos, ficou viúvo pela quarta vez.
Se me dissessem: tu tens de levar uma vida igual à do mais oprimido dos miseráveis, escravo entre grilhões, dois anos cinco anos, e depois, como recompensa, terás riquezas, liberdade, não o faria eu porventura? E quem não o faria? Isto não é sacrifício! (...)Eu fiz o sacrifício, por exemplo, dando a minha filha a um velho, exclusivamente para o bem dela.
Mas não se pense que o noivo, Dom Diego, é um pervertido, afinal, ele fala latim e cita Horácio.
Fora dele, do seu poeta predilecto, que Dom Diego apreendera as normas epicuristas. Queria fruir até ao último momento da sua vida, odiava por isso a solidão, na qual se sentia frequentemente desassossegado por fantasmas assustadores [das falecidas], e amava a juventude, procurando a sua companhia e suportando-lhe filosoficamente as brincadeiras.
Mas Stellina está de olho no elegante Pepè, que não tem posses nem um emprego que lhe permita desposá-la.
Trabalhar não era o seu forte. Todas as manhãs passava pelo menos três horas frente ao espelho: um hábito! Que podia ele fazer? O banho, as longas unhas por tratar, depois pentear-se, aparar a barba, escovar-se.
A graça desta novela é o facto de o estratagema de Ravì e de Pepè sofrer várias reviravoltas: Dom Diego tem uma saúde de ferro, surge outro pretendente à futura viúva e, por fim, o poderoso e irascível advogado Ciro Coppa, cujo lema é “prepotências, nem de Deus”, pronuncia-se sobre a ilegalidade de um casamento forçado.
“O Turno” é uma história sobre homens prepotentes, manipuladores e fracos que se esquecem que a vida dá muitas voltas, sendo a derradeira, mesmo quando menos se espera, a morte. É, portanto, compreensível o epicurismo de Dom Diego.
O que faria do meu dinheirinho uma velha? E eu, além disso, como já disse, odeio a velhice. Com este meu projecto favoreço a juventude... Se calhar está a pensar na chacota que a cidade faria de mim, se me casasse pela sexta vez? Pois bem, hoje em dia as pessoas riem-se tão pouco, que conquistaria delas mais essoutro título de benemerência. Que toda a cidade me acompanhe até à Câmara Municipal numa enorme gargalhada.