O livro “Fascistas” de Michael Mann é uma das melhores análises dos fascismos europeus entreguerras. Mann inicia sua obra com o objetivo de analisar a chegada ao poder dos fascistas no período entreguerras. Quais foram as causas, as características, os elementos, os tipos dos vários fascismos existentes na Europa após a I GM?
A obra tem dez capítulos, sendo os dois primeiros uma análise sociológica dos movimentos fascistas, e o último, uma revisão dos principais pontos que configuraram os fascismos históricos europeus. Do capítulo três ao nove, o autor analisa os fascismos da Itália, Alemanha, Áustria, Hungria, Romênia e Espanha.
Primeiramente, Mann considera que os fascismos precisam ser levados a sério. Não se pode tratá-los por meio de rótulos desqualificadores que impedem a investigação séria. Há muitas definições de fascismo, até porque o movimento não era coeso. O autor conceitua o fascismo como “a tentativa de construção de um Estado-nação transcendente e expurgado por meio do paramilitarismo” p. 26. Cinco são os termos-chave que caracterizam o fascismo:
a) nacionalismo: defesa de uma nação orgânica e coesa, não plural.
b) estatismo: defesa de um Estado corporativo autoritário que pode resolver crises e gerar desenvolvimento social, econômico e moral.
c) transcendência: o fascismo como transcendente a conflitos, a diferenças de classe, às ideologias e aos antagonismos.
d) expurgos: necessidade de eliminar os adversários, expurgando a nação da presença dos inimigos.
e) paramilitarismo: organizações militares para a defesa da ordem, surgidas de forma espontânea, de baixo para cima, e perpetradas de violência e discricionariedade arbitrária.
Em geral, as crises que possibilitaram o avanço dos fascismos europeus foram: econômica, militar, política e ideológica. Porém, cada fascismo de determinado país destacava uma ou duas dessas crises como as mais fundamentais e que justificavam o autoritarismo fascista.
Já no segundo capítulo, Mann considera que no entreguerras do século XX surgiram vários Estados-nação orgânicos com a promessa de findar as crises nacionais. Devido à crise econômica, os fascistas diziam que poderiam trazer ordem e a defesa da propriedade privada. Devido à crise militar, os fascistas diziam que poderiam recuperar a honra das nações perdedoras da I GM através da força paramilitar. Devido à crise política, os fascistas prometiam mais ordem e segurança. Devido à crise ideológica, os fascistas prometiam uma ideologia total e orgânica para consolidação do nacionalismo.
No capítulo três, o autor trata do fascismo italiano. O primeiro fascismo foi o italiano que surgiu após a I GM. A palavra fascista indicava um feixe de varas para se referir a um grupo político pequeno e coeso. Suas características foram: estatismo, poder de cima para baixo, apoio das elites, violência, ênfase na prática, apoio amplo de jovens e homens, sinergia entre partidos e entidades paramilitares. Não tinha o elemento racista do Nazismo.
Nos capítulos quatro e cinco, Mann trata do Nazismo. As causas, em geral, que ensejaram esse fascismo foram: alta inflação, depressão, reparações pesadas da I GM. As peculiaridades distintivas desse fascismo foram: ódio aos judeus (que só foi ficando claro ao longo dos anos), autoritarismo racista, anti-pluralismo, personalismo carismático do líder, nacionalismo apaixonado, apoio de membros de todas as classes (com destaque para as mulheres que votaram majoritariamente no partido nazista enquanto havia eleições), sociedade civil forte e malévola, mensagem clara, coerente e salvacionista, ajuda das elites após 1932. Destaca-se que com o projeto econômico autoritário-nacionalista-keynesianista de Hitler, a Alemanha começou a se recuperar, o que contribuiu ainda mais para a difusão da retórica fascista.
Já no sexto capítulo, o autor trata do autoritarismo e nazismo na Áustria. Haviam dois grupos: austro-fascistas (austríacos autoritários) e os nazistas austríacos (austríacos simpatizantes de Hitler). O primeiro foi suprimido pelo segundo. Mann destaca que o fascismo austríaco era radical e generalizado por toda a sociedade, com um forte traço antissemita.
No sétimo capítulo, o autor trata do autoritarismo húngaro. Derrotada na I GM, a Hungria deixou sua tolerância aos judeus e partiu para um ódio sistemático a eles. Características: nacionalismo orgânico, antissemitismo, corporativismo estatal, populismo, não paramilitarismo, amplo apoio dos jovens militares e da massa proletária.
No caso da Romênia, capítulo oito, o autor lembra que esse país fora um grande vencedor da I GM, mas que também tinha a cultura antissemita mais forte na Europa. Características: antissemitismo doméstico, nacionalismo proletário, adoção do fascismo como uma doutrina moderna e do futuro.
O último caso trazido pelo autor é o do autoritarismo espanhol. Nesse capítulo, Mann demonstra que não houve um fascismo espanhol, mas sim um autoritarismo por meio do poder personalista, corporativista e semi-reacionário do ditador Franco.
Na conclusão, Mann considera que os fascismos foram possíveis por conta que os antigos regimes europeus estavam debilitados após a I GM e os parlamentos fragilizados e não consolidados institucionalmente (os partidos não conseguiam chegar a pontos em comum para fazer frente ao fascismo). O fascismo foi, então, a soma de reacionarismo, paramilitarismo, nacionalismo e salvacionismo das crises elevado a mais alta potência política. Apesar dessa ameaça ter sido contida após a II GM, é sempre bom estar alerta.