"Eles querem o minério para se matarem melhor uns aos outros, concluiu certa vez, ao perceber a razão que levava os ingleses e alemães a esburacar o chão.''
O ponto de partida é a procura desenfreada pelo volfrâmio, tanto da parte dos aliados como dos alemães em Portugal, durante a segunda guerra mundial, algo que acho que está um pouco apagado da história, ficou esquecido juntamente com as aldeias nas serras, de onde eram extraídas as pedras tão procuradas para fabricar artilharia nessa guerra.
O autor, quanto a mim conseguiu de forma sublime entrelaçar a componente histórica com ficcional, dando-lhe vida e fazendo com que tudo o que li me parecesse verdade, fiquei imersa nas gentes de Arouca, na aldeia de Cabreiros e na família dos "do Aido". Fiquei fascinada com estas personagens e com o quanto me pareceram reais. Ao longo da narrativa vi-me envolvida nas intrigas, nas lendas, nas rotinas, na pobreza, na loucura que foi o volfrâmio e o quanto mexeu com as aldeias.
A portugalidade, os costumes e maneirismos estão perfeitamente descritos, bem como a fé inabalável e o amparo que muitos viam no cristianismo, na igreja, nos santos e obviamente na figura do Padre! Ainda a fome, a falta de bens essenciais e tudo aquilo que caracterizou o período da ditadura Salazarista, e o impacto que a exploração do volfrâmio teve na pequena economia destas aldeias, cegando alguns com sonhos de riqueza que acabaram feitos em pó.
Diria até que o melhor do livro são as personagens, gostei muito e achei-as todas tão bem exploradas nas suas particularidades e emoções. Desde o pai, o Sr. Domingos, aos irmãos do tasco, em especial o Custódio e o Manel, à família dos compadres do lado, os "do Pedro", com o patriarca que conta histórias, a Maria e a Margarida, o Nestor dos vinhos, o Zé da Arada, o pequeno Zé e até o alemão louco e o inglês simpático.
Toda a história é ainda embalada pelo doce néctar das uvas numa bela malga de vinho ou pela aguardente com mel, não fossem tantos negócios fechados na tasca dos "do Aido".
E não terá sido este elixir a ajudar a ganhar, nos bastidores, esta guerra maligna? Sabe-se lá... ;)
Que bela viagem me proporcionou este livro! Recomendo para todos os que gostam de uma boa ficção histórica.