Elias e Sara sabem-se de um modo que ninguém pode entender; vivem uma relação intensa, testada, como um jogo a fazer vibrar o corpo inteiro. Dessa vibração incomum surge Pedro. A vida é em pleno.
Até que se descobre que, apenas com um instante de dor e a despedida de um mundo, é possível acordar num outro mundo, o paraíso, repleto de perfeição e moldado ao mais profundo desejo de cada um dos que “passam”.
Ao percebê-lo, a Humanidade embarca numa série de suicídios em massa, permanecendo na Terra apenas dois tipos de humanos: os que recusam “passar”; e os que exigem que o “paraíso” seja para todos… ainda que não voluntariamente. Elias é um dos que se recusa, apesar de perder a mulher e o filho. Até quando conseguirá manter-se fiel à sua decisão? E porquê? Sucumbirá à solidão e à desumanização?
A escrita do Nuno envolve-nos logo na primeira página. O que mais nos poderia deliciar do que uma estrada vazia e silenciosa? Uma jornada de um homem solitário que nos mostra que as escolhas que fazemos ao longo da nossa passagem (ou da sua ausência) não são boas nem más, mas são as nossas escolhas. Adoro a escrita do Nuno, que já conheço pelos seus contos, e este livro está fantástico! Para mim é um livro de terror. O terror da solidão, o terror de não saber se as escolhas que fazemos são boas ou más, o terror do vazio externo e interno. Um livro maravilhoso que recomendo muito!
Com uma escrita absolutamente sublime, o Nuno mostra-nos um mundo simultaneamente solitário e carregado de sentimento, que nos envolve do princípio ao fim. Um grande exemplo de ficção especulativa em português!
Esta narrativa transporta-nos por espaços e memórias com uma cadência quase hipnótica. É um livro de travessias: raro e belo, deixa mais perguntas do que respostas
Há, por todo o lado, ecos de McCarthy, mas não se deixem enganar, esta história é igualmente introspectiva. A simbologia dos elementos que nos são apresentados faz-nos compreender as circunstâncias daquele mundo e deixa para trás o esboço daquilo que já não se pode materializar.
Responde-nos àquilo que não perguntámos e faz-nos questionar coisas que nunca antes considerámos perguntar.
No final do ano passado, tive o privilégio de fazer parte do projeto que é hoje A Passagem, e não acredito que vos fique indiferente, caso decidam emaranhar-se nele.
Algumas semanas depois de o ler, ainda tive a oportunidade de conhecer o autor e trocar três dedos de conversa sobre aquilo que o inspirou a escrever esta história.
Esta visão tão crua do mundo causa um desconforto dilacerante na mente de quem a lê, e não acredito que seja possível demorar-se no enredo. Quem o começa tem de o acabar. Sem qualquer atraso. E quando o termina, fica a querer mais. Mas há boas notícias: o autor tem mais histórias.
Estou sem palavras para descrever o quão lindo e necessário é A Passagem, de Nuno Amaral Jorge. O autor apresenta-nos um mundo tão assustador quanto reconfortante, com uma escrita brilhante que nos dilacera a alma. A jornada de Elias leva-nos a refletir sobre a maior questão de todas: o que significa estar vivo. Recomendo a qualquer leitor, é um livro que fica connosco muito depois de terminar.
Quando não nos entregamos à morte o que sobra? Uma vida de solidão, ou uma vida de esperança? " A Passagem " é uma obra que nos faz pensar que morrer pode ser tão compensador quanto estar vivo, mas há quem nunca se entregue à morte, porque viver é um ato de coragem.
Percebi que ia gostar deste livro apenas pelo primeiro parágrafo. Talvez porque a solidão e o silêncio me acompanharam neste último ano, e assim consegui compreender e sentir cada pedacinho do livro. A certeza de um possível caminho para o futuro não é suficiente para calar tantas questões da personagem principal e para mim, como toda a razão. Embora compreenda a passagem como uma distúpia, todas as decisões são tão lógicas que me puxaram para dentro da narrativa, ao ponto de pensar o que eu faria naquela situação.
" O silêncio era a apoteose de todos os silêncios. Era completo, baço, imenso, invencível. O silêncio parecia tudo, mesmo quando algum ruído se aventurava pela imensidão de tudo o que permanecia calado. Aquele silêncio era maior que a morte, porque até a morte precisava de uma palavra para ser identificada (...)"
Esta foi a minha primeira viagem de longo curso pela escrita do Nuno. A premissa, um mundo deserto de humanos, salvo um punhado de resistentes, fazia adivinhar (bem, na verdade, eu desejava muito que assim fosse) o mesmo ambiente melancólico, crepuscular e introspetivo que pautam os contos da sua autoria que já tinha lido. E o Nuno não só cumpriu como superou as expetativas. A escrita é escorreita, sem arabescos desnecessários, mas composta de camadas, como se fosse um planeta. Núcleo, manto, crosta, atmosfera. Senti, a cada passagem (passe a redundância), que me fintavam metáforas, vultos e sombras. Senti que havia muito mais do que aquilo que me estava a ser contado. Senti que podia ser o reflexo do Nuno antes e enquanto escrevia este livro. E senti as inquietações da história que construí, nascida do manancial de todas as interpretações hipotéticas que poderão acontecer a cada leitor. Fiz questão de mandar uma mensagem ao Nuno, quando virei a última página. “Este livro é um caso sério”, disse-lhe. O que não lhe disse ainda foi que ficou ao meu lado, mesmo depois de arrumado na estante, que ficou a sussurrar-me muito para lá do término da leitura. E isto é o que distingue os grandes livros de todos os outros.