“Phenotypes” – Longlisted for the International Booker Prize 2022
“Marrom e Amarelo” transmitiu-me a energia, a raiva e a tensão que esperava de “O Avesso da Pele”. Mais, deu-me aquilo que espero num livro que denuncie injustiças e preconceitos: que o faça através de uma história credível com personagens que pareçam pessoas e não representantes de causas. Não é só de racismo e dos problemas sociais daí advindos que esta obra fala; aborda também a interessante questão do colorismo, num país que é muito mais do que verde e amarelo.
O livro abre com o protagonista, Federico, a chegar à primeira reunião de uma comissão onde se discute a introdução de um software capaz de decidir quem tem realmente direito a ingressar na universidade através do sistema de cotas dedicado às minorias, visto que, ao que parece, não basta que uma pessoa se identifique como negro ou indígena, é necessário haver critérios mais objectivos, que afaste todas as dúvidas e polémicas.
Aqueles oito faziam parte de uma comissão idealizada pelo novo governo pra achar uma solução adequada, candidata a ser uma das tantas soluções adequadas equivocadas do novo governo, pro caos que, de súbito, tinha se tornado a aplicação da política de cotas raciais pra estudantes no Brasil, país sonâmbulo, gigante ex-colônia da coroa portuguesa na América do Sul, rotulado mundo afora como o lugar da harmonia étnica, da miscigenação que tinha dado certo, lugar onde a prática de homens brancos estuprando mulheres negras e mulheres indígenas tinha corrido solta por séculos e, como em quase todas as terras baptizadas de O Novo Mundo, tinha sido assimilada, atenuada, esquecida.
Federico chefia uma ONG, é um activista e um estudioso do colorismo no Brasil, mas antes de mais, e talvez por esse motivo, é o irmão mais velho de Lourenço que, por ser mais escuro do que ele, cresceu a ser discriminado e ofendido, o que sempre feriu mais o seu orgulho de irmão protector do que o próprio Lourenço, mais descontraído e aparentemente em paz com a sua cor.
Mas se tu não tivesse tido um filho escuro e um filho desbotado e, no lugar, tivesse dois filhos desbotados ou dois filhos escuros, tu nunca ia ficar batendo nessa tecla de que a gente é uma família negra, provoco. Pode ser mais explícito, mocinho, ela diz. É esse negócio de ser negro, mãe, É que, às vezes as pessoas estranham isso d’eu me afirmar como negro, isso d’eu demarcar que sou negro, explico. Mas tu é negro, um negro pardo, ela observa, Qual é o drama, pergunta.
Instalado em Brasília, Federico tem de regressar a Porto Alegre, ao bairro do Partenon, onde cresceu, devido a um problema de família, a detenção da sobrinha numa manifestação.
Pois é, O bairro, Cara, Me conta, Que trabalho tu fez pra gurizada preta aqui do Partenon nos últimos 10 anos, nos últimos 15 anos, perguntou, Cara, tu não fez nada pelo teu bairro, acusou, Eu saí da merda porque me deram uma chance e me grudei nela, falou. Que bom, devolvi. E ter saído da merda é o que me autoriza a dizer pra otário-arigó, quando eu encontro um, que ele acha que tá abafando, mas não tá, ele disse. Agradeço a dia, eu disse. Tu é metidão, Federico, sempre foi, Olha tua cor, olha o teu cabelo, o jeito que tu usa esse teu cabelo lambido, Tu tem essa tua casca de branco, essa pele passe-livre do caralho, Tu nunca vai entender o que é ser preto, ser um fodido perseguido 24 horas na rua rua, no teu bairro, na tua cidade.
As palavras de Paulo Scott parecem projectadas de rajada no papel, sem pausas, sem espaços em branco, sem distinção entre narração e diálogos, mas paradoxalmente proporcionam uma leitura rápida, e a abundância de calão nunca foi um entrave, facilmente subentendido ou compreendido com uma pesquisa rápida na Internet.