Querido António,
Lamento, mas vou abandonar-te antes do previsto. O início foi auspicioso, com o teu “Bilhete no meio do Mar”, que realmente me fez imaginar aquela ilha grega como se a estivesse a percorrer eu mesma. Depois, foste-me desapontando cada vez mais.
Escreves bem, sem dúvida, mas perdes-te com frequência em divagações nostálgicas e sombrias, e – embora aceite que já se trate de alguma má vontade da minha parte – até as alusões a outros autores me soaram um pouco a exibicionismo. Quanto às descrições anatómicas dos órgãos genitais da tua amada... francamente, António, nem vale a pena comentar. Tenho a impressão que escreveste essas cartas muito depois de ela te ter deixado, e ainda bem, porque se tivesse sido antes, julgo que só te teriam servido para antecipar a catástrofe.
Tenho por hábito não desistir das leituras e levo-as quase sempre até ao fim, mas a idade não perdoa, e entre outras coisas, tem-me tornado menos atreita a gastar tempo com livros que não me agradam, roubando-me tempo que poderia dedicar aos inúmeros outros volumes que se acumulam nas prateleiras. Tenho a certeza que me compreenderias, se ainda andasses por cá, e que não me levarias a mal este abandono.