Vicente percebe que está à beira do colapso. Sem emprego, sem uma família presente e com uma relação amorosa ainda por resolver, passa os dias em casa da sua recém-falecida avó cuja morte decidiu não enfrentar. Quando o pai anuncia que vai deixar de poder pagar-lhe as sessões de psicanálise, sente que está definitivamente entregue às fobias de sempre. Mas, à beira de mais um fim-de-semana de reclusão, algo de inesperado acontece... HAWK é uma história autêntica e emocionante que fala de prisão e de liberdade, onde uma pequena experiência pode significar grandes mudanças.
He once said he'd like to tell stories for a living but nobody was listening. He just hopes someone will read it instead. André was born in Lisbon and lives by the beach in Portugal's sunny Estoril. Writing comics is his game. Which has nothing to do with his name...
Eu adoro o André Oliveira, até porque além de escrever bem, ele é mesmo simpático e as histórias são imaginativas. Apesar do traço não ser o meu favorito, está uma novela gráfica bem construída e importante no que transmite. Não ganha pela simpatia, mas antes pela empatia.
Relido (em 2024), 7 anos após a primeira leitura. Já não tinha grande memória relativamente à história, mas lembrava-me de que tinha apreciado a leitura. Penso que este livro foi editado por volta de 2014 e, como tal, a história remete para os anos da presença da troika em Portugal, uma altura em que a geração à qual eu pertenço se sentia (e ainda hoje sente...) injustiçada por não ter grandes perpspectivas de futuro... A par dessa visão macro, temos depois a história mais focada em Vicente, na perda da avó e na sua derrocada existencial perante um mundo hostil... . A BD portuguesa também consegue surpreender pela positiva e este trio de autores é um bom exemplo disso.
A diferente experiência de vida ao longo de distintas gerações pode ser um factor fracturante numa família, sobretudo quando falta diálogo e falha a compreensão. Neste caso, o pai de Vicente, sobreviveu à guerra do Ultramar e enrijeceu com os danos psicológicos. Perante esta experiência de vida não consegue compreender a doença do filho, não percebendo que nem todas as doenças se expressam por sintomas como dores.
As fobias e medos de Vicente são encaradas, pelo pai como problemas que parecem inventados, coisa de quem tem pouco para fazer e para se entreter. Mas a agorafobia de Vicente não é fácil de enfrentar, e faltando o apoio necessário (quer de um psicólogo, quer da família) isola-se cada vez mais em casa, afasta-se dos amigos, da namorada e, até, da mãe. A morte da avó e a falha em reagir como esperado agravam o problema.
Vivendo sozinho em casa da avó, Vicente é obrigado a descentrar-se de si próprio quando um falcão ferido lhe entra em casa. Perto do fim-de-semana e sem nenhuma instituição que o possa ajudar com a ave, Vivente afeiçoa-se e adapta-se, preocupa-se e cuida do animal silencioso.
Ao tocar num tema sensível, socialmente controverso pelo desconhecimento comum que existe, e pela associação das doenças psicológicas a manias incompreensíveis, Hawk revela-se uma história envolvente e sentida, um relato que se instala lentamente no leitor.