Ambientado no começo do século XX, Cantagalo narra a trajetória de uma família marcada por um casamento arranjado incomum entre a herdeira de uma fazenda de café e o filho de uma escravizada com um homem branco. A partir dessa união se desdobra a história de suas descendentes, empregadas e moradoras dos arredores. Vencedor do Prémio Revelação Literária UCCLA, o livro costura a vida das mulheres que vivem no cafezal à realidade de um lugar e um momento histórico bem delimitados — a Minas Gerais do pós-abolição.
Fernanda Teixeira Ribeiro nasceu em Uberaba (MG), em 1984. Atua como pesquisadora no campo da neurobiologia das emoções e como jornalista e editora de ciência.
Com CANTAGALO, seu livro de estreia, venceu o Prémio Revelação Literária UCCLA-CM Lisboa. Vive em São Paulo.
Cantagalo, de Fernanda Teixeira Ribeiro, venceu o Prémio Revelação Literária UCCLA–CM Lisboa, distinção que despertou a minha curiosidade.
A autora, nascida em 1984, em Uberaba, Minas Gerais - Brasil, é bacharel em Comunicação Social, doutorada em Ciências do Desenvolvimento Humano, investigadora na área da neurobiologia das emoções, jornalista e editora de ciência. Integra ainda o colectivo artístico In-Fâmia e é co-autora da antologia Somos Todos Perigosos.
A sinopse prometia um romance histórico ambientado na região de Minas Gerais do pós-abolição, centrado num casamento arranjado improvável entre a herdeira de uma fazenda de café e o filho de uma mulher escravizada com um homem branco. A partir dessa união, desenrola-se a história das mulheres da família e das que vivem à sombra do cafezal.
A premissa é forte e o enquadramento histórico pertinente. No entanto, a execução não me convenceu. A escrita, fragmentada e excessivamente descritiva, cria uma atmosfera densa que, em vez de aprofundar a complexidade das personagens, acaba por se tornar arrastada.
O que mais me afastou da leitura foi a forma como surge a pedofilia incestuosa. Não se trata apenas de um tema difícil, até porque a literatura não tem de evitar assuntos incómodos, mas da sensação de gratuitidade com que é trabalhado. As descrições não acrescentam densidade moral nem reflexão estrutural suficiente; antes contribuem para uma impressão de sujidade e normalização perturbadora que me levou a pôr a leitura de lado demasiadas vezes. Digamos que foram vários períodos de nojo num livro de apenas 288 páginas!
Não gostei do estilo de escrita da autora, mas reconheço que há passagens bem construídas e percebe-se uma intenção simbólica consistente.
As gavetas de uma cômoda são como os vãos da memória, atira-se de um tudo dentro, na impossibilidade de se jogar fora. Em uma gaveta, encontrou o camafeu de ouro da mãe, hoje no seu pescoço; em outra, escondeu a pulseira de marfim. As duas joias, o mesmo homem, mas para isso as gavetas: uma para as colchas de se mostrar às visitas, outra para os paninhos higiênicos, toalhas e outros tecidos carregados dos humores e aflições do corpo. O camafeu fica na gaveta do pai, guarda-se com o cafezal e o livro de contas, aquela harmonia dos armários organizados, bonita de ver; a pulseira, na gaveta do barão Honório, emperrada; há ali um lobo-guará, fedor de estábulo, não abra.
Ainda assim, para mim, o romance ficou muito aquém do impacto prometido. Mais pesado do que profundo, mais desconfortável do que revelador.
Normalmente, eu pego birra quando apresentam uma autoria como ‘das vozes mais marcantes da literatura contemporânea brasileira’. Não há vozes mais ou vozes menos. Há a voz que precisa ser ouvida, e isso depende do ouvido e do que se quer ouvir. No caso de Fernanda, todavia, sou toda acordo. Meu Deus, que potência. Que romance necessário, bonito, arrebatador. Íntima de todos os seus personagens, o enredo não lhe escapa, não evapora, não esvazia. Ela bebeu, entornou, embriagou-se, farta e puro torpor, do melhor da nossa literatura pra contar essa história tão sua, nossa, tão de um jeito próprio. Tem Graciliano Ramos no uso justo da palavra. Tem Jorge Amado no humor cortante feito bisturi. Tem Guimarães Rosa na doçurinha dos neologismos e invenções dos impossíveis da linguagem. Tem Machado de Assis no ridículo das relações dos ‘homens de bem’. Tem Ana Miranda na perdição de ser uma mulher falando de história nos ritmos (im)precisos da prosa poética, que tanto diz e ecoa. E tem Fernanda, grande, dona de si, apreendendo mundos criados por ela e apresentando-os a nós. Que ficção deliciosa, tão cheia de tudo que precisamos ouvir, de entrelinhas ricas e temperamento cirúrgico pra falar de tanto. Fernanda contou, não canso de me perder nela, habilidosa de tudo, histórias da maneira que só uma mulher poderia tê-lo feito. Só ela, mais ninguém, numa enorme casa de espelhos.
estava precisando engatar em um bom romance histórico e Cantagalo veio em boa hora. história muito bem amarrada - adorei como os pontos de vista vão mudando de maneira muito suave e coerente entre as diferentes partes do livro e como os temas de gênero e raça são abordados de maneira muito contemporânea, ainda que em um contexto passado. destaque para as alusões à culinária e ao artesanato, que serviam inclusive como metáfora e composição descritiva da história, achei muito interessante!
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOKO DEMAIS! BENEDITO RUY BARBOSA APROVOU. NOVELÃO BÃO, CASAMENTO ARRANJADO, CAFÉ, MUITA TRETA E CONFUSÃO COM UMA TURMINHA DA PESADA.
Cantagalo é uma fazenda de café em Minas Gerais, na passagem do século 19 pro 20, aquele miolo da história em que tudo parecia estar acontecendo: pós abolição, pós Proclamação da República, um rabicho do ciclo do ouro, o ciclo do café torando. Desse fervo histórico sai a história de três gerações de uma família, com seus agregados e seus segredos, seus suspenses e suas surpresas. E é uma dessas histórias em que parece ter o Brasil inteiro: terra, família, costumes, escravidão, miscigenação, religião, poder. Eu levei um susto de ver um livro tão consistente, tão bem amarrado, tão bem escrito e com tanta coisa importante sobre costumes, organização social, economia, tudo de um jeito orgânico e sem aquela cara de livro que faz um esforço maior do que o talento do autor para ticar todos os temas que precisam ser discutidos hoje em dia. Entre a subjetividade encantatória de cada uma das preciosíssimas personagens e a estrutura histórica — violenta, desigual, de um país que é cordial até a página dois —, surge uma escritora iniciante bem impressionante, capaz de incorporar, mais que um sotaque do século 19, uma gama delícia de sotaques mineiros, e toda uma modelação dessas vozes, quando muda, por exemplo, de classe, de raça, de situação social. Nisso, Fernanda olha para o passado projetando o presente (ou vice-versa?), porque a história diz muito sobre o que nós somos, como país, como sociedade. Pra quem gosta de um romanção histórico, com tensão, aventura, surpresa e reviravolta, esse é totalmente o livro do ano.
“A autora se esquiva de lições fáceis e do ímpeto tão frequente de reescrever o passado neste novelão familiar que atravessa três gerações em uma fazenda mineira no período pós-abolição. A história de Praxedes e suas filhas, cheia de aventuras e twists, revela violências físicas e simbólicas, acordos tortos e estratégias de sobrevivência carregadas de ambivalência. Estreando com segurança, Ribeiro constrói um mundo palpável, por meio de uma dicção própria que nos transporta a um período a um só tempo próximo e distante” (Lígia Gonçalves Diniz, professora da federal de MG, indicando o livro para a Folha de SP, 16/12/2025).
A jornalista Maria Fernanda Vomero também indica este “livraço… para a lista de favoritos/melhores leituras do ano” (2025).
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O livro explora temas pesados, como a pedofilia incestuosa, que considerei a abordagem desnecessária e perturbadora. Não gostei da forma como esses temas são abordados na narrativa. Apesar de reconhecer a força da protagonista e a complexidade das relações familiares, acredito que a inclusão de tais elementos foi feita de maneira gratuita, sem necessidade para o desenvolvimento da trama. Vale mencionar a formação da autora em neurociências e, embora a intenção possa ter sido provocar desconforto, a mensagem não foi clara para mim. A narrativa apresenta personagens como Frederico e sua mãe, Ambrosina, explorando suas dinâmicas familiares e os desafios enfrentados, incluindo outro caso de pedofilia que gera indignação. A história se desenrola em um contexto de traumas e relações complicadas, levando a uma análise crítica sobre a representação de temas sensíveis na literatura. 70% dos casos de pedofilia são cometidos por pais e 29% por padrastos, enfatizando a traição de confiança que ocorre quando a vítima é abusada por alguém próximo. No livro, dois casos de pedofilia são explorados, sendo um deles particularmente impactante, moldando a vida da protagonista de maneira negativa, levando a sentimentos de desprezo por sua figura. A narrativa aborda como cada personagem lida com seus traumas de forma única, refletindo revolta e abandono. Além disso, a história incorpora elementos de ciência, como os benzimentos, e a medicina, através de uma freira que se dedica à pesquisa de plantas e ervas, mas enfrenta barreiras por ser mulher, não recebendo a validação que merece. Apesar de reconhecer a relevância desses temas, expresso certa insatisfação com o final da obra, considerando-o inconsistente e não convincente.
É preciso ler mais de uma vez pra absorver todos os detalhes. E cada vez que lemos, percebemos as personagens diferentes. Como se estivéssemos vivendo com eles, num diferente momento da nossa vida.
Sou muito feliz por viver na mesma época que a aurora e lê-la viva e na esperança de ter continuidade.
A história se passar em Minas, no pos abolição foi o que me atraiu pra leitura, pelo fato da minha avo e bisavó terem vivido nessa época. Mais ate do que as historias da familia da fazenda Cantagalo, o livro me fez imaginar através dos personagens como poderia ter sido a vida de pessoas da minha familia.
É um romance histórico muito bem escrito, adorei a forma que a autora transita entre personagens, passado, presente (se há) e futuro. Uma história contada aos moldes das fofocas, que dão um gosto e te instigam à entender o que aconteceu com as personagens para terem tal desfecho. Muito bom.
Excelente livro! O estilo de escrita da autora é super original. O fato da história se passar em uma fazenda de café em Minas deixou a história mais próxima. Parecia que eu conhecia Dona Praxedes...