"O velho detém o vídeo. Pousa o controle remoto nos braços do sofá, olha nos seus olhos outra vez e diz, o que houve aqui, Neto, foi simples: Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila. Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele não fez não é só o maior momento da história do Pelé, é também o maior momento da história do futebol. Você entende isso?"
O trecho acima é sobre o famoso embate entre Pelé e o goleiro Mazurkiewicz, no jogo Brasil x Uruguai, nas semifinais da Copa de 70, é este trecho que abre o livro. Nunca tinha ouvido falar desse jogo e nem desse famoso "gol que Pelé não fez". Então eu confiei no autor, enquanto o mesmo, escrevia e narrava de forma escrita esse lance. É impressionante como o autor consegue passar toda a emoção da partida nas palavras, e conseguindo me fazer imaginar todo o lance. Só depois eu fui atrás para ver o vídeo do lance.
O livro conta a história de Murilo, um aposentado cronista esportivo; e seu filho Neto, que leva a vida de revisor de livros de auto ajuda. Ambos se reúnem nas tardes de domingo para conversar, em uma tentativa de reaproximação de Murilo com o filho, agora que o pai já se encontra nos anos finais de sua vida. Juntos eles, relembram o passado dos anos dourados do futebol, como ambos andam se virando atualmente e também tentar consertar desavenças do passado entre pai e filho.
Ainda surge uma terceira narrativa, sobre um jogador chamado Peralvo "maior que Pelé". É durante essa história que corre solto o "realismo mágico" e o autor conta as histórias das partidas de Peralvo de modo mágico e fantástico.
"Flutuava a três metros do chão, pisando gramados em terceira, quarta e quinta dimensões onde tabelavam com ele os maiores jogadores do passado e do presente, Friedenreich, Lêonidas, Zizinho, Puskás, Didi, Di Stéfano, Garrincha, e também os que ainda estavam por vir: Tostão, Rivelino, Cruyff, Zico, Falcão, Maradona, Romário, Ronaldo. Estava no nirvana do futebol."
Um livro que é sobre futebol, mas também fala sobre as relações de pai e filho, traições, o fantástico, o Brasil, a morte e sobre os porões da ditadura militar.
"'Estou falando de dor futura' disse o pai. 'Uma coisa que aprendi com uma pessoa que via coisas que a gente não consegue ver. Tem dores guardadas no futuro que, de tão grandes que são, de tão portentosas, ecoam no presente. Como se já tivessem acontecido, só que ao contrário.'"