Astérix na Lusitânia: entre o humor, a história e a saudade
Cresci a ler Astérix. Aprendi expressões, história e humor com esta banda desenhada que, livro após livro, me levava a viajar sem sair do lugar. Tenho quase toda a coleção, t-shirts, meias, peluches — e um carinho especial por personagens que vão muito além do herói principal. Talvez por isso, quando soube que a nova aventura se passava na Lusitânia, senti muita curiosidade… e algum receio. Quando o nosso país entra no universo de uma obra tão icónica, o espelho pode ser generoso — ou exagerado.
Astérix na Lusitânia é especial desde logo pelo cenário. Portugal surge aqui através de referências facilmente reconhecíveis: o fado e Amália Rodrigues, os pastéis de nata, as lojas de azulejos, a calçada portuguesa e até um eléctrico puxado a cavalos. Há um olhar atento sobre símbolos culturais que fazem parte do imaginário português, ainda que filtrados pelo humor característico da série. A pedreira que o Obélix imagina servir para menires, mas afinal é para a calçada, é um desses momentos em que a piada funciona precisamente por cruzar o mundo gaulês com a identidade local.
As personagens continuam a ser o verdadeiro coração da história. Embora Astérix dê nome à série, é difícil não olhar para o Obélix como a figura mais humana e emocional. Grande, forte, sensível, acompanhado sempre pelo pequeno Ideafix, ele representa aquele contraste delicioso entre força e fragilidade. Na Lusitânia, esse contraste acentua-se: ao mudar de visual, o Obélix sente-se deslocado, incapaz de se reconhecer sem as suas tranças. A perda da aparência habitual torna-se quase uma perda de identidade.
Há também a fome — constante — que o acompanha nesta viagem. O bacalhau aparece vezes sem conta, mas não o satisfaz. Falta-lhe o javali, a comida que o liga à sua aldeia, ao conforto, à pertença. E aqui, a fome deixa de ser apenas física. É simbólica. O Obélix pode estar rodeado de boa comida, mas sente falta daquilo que o define. É uma leitura subtil, mas poderosa, sobre o que significa estar fora do nosso lugar.
Talvez não seja por acaso que o Obélix se apaixona por uma rapariga chamada Saudade. O nome não é inocente. É quase uma declaração de intenções dos autores: condensar numa personagem aquilo que tantas vezes se associa à identidade portuguesa. A Saudade, aqui, não é apenas romance — é melancolia, memória, ausência. É o tom que atravessa muitos dos lusitanos retratados, que falam frequentemente de forma triste ou derrotada em que até Obelix se queixa de estar a ficar deprimido.A explicação histórica surge associada à época de Viriato, como se a resistência e a perda tivessem deixado uma marca profunda no povo.
Asterix: Ó pá, somos os novos cozinheiros.
Obelix: E eu estou ó pá triste de tanta alegria.
O humor, como sempre, está presente — e nem sempre funciona da mesma forma. A repetição exagerada de certas expressões, como o “ó pá", soa forçada e quebra um pouco a naturalidade do texto. Lembra-nos que este é um olhar estrangeiro sobre Portugal: divertido, atento, mas por vezes excessivo. Ainda assim, há achados brilhantes, como quando o Obélix descreve os portugueses como “tristes de tanta alegria". A expressão, embora dita em tom de brincadeira, capta algo surpreendentemente verdadeiro: a capacidade de rir, de cantar, de celebrar, mesmo carregando um peso invisível.
Obelix: Peixe seco, vinho ácido... é impressão minha, ou eles têm um problema com a alimentação?
Vinhorrosês: Ó pá, na Tasca do Vasco da Gama descobrem-se novos mundos.
A dinâmica clássica da aldeia gaulesa mantém-se intacta.O ferreiro que não suporta ouvir o bardo cantar e ameaça espancá-lo, as discussões constantes que acabam sempre da mesma forma: à pancada — e, no fim, num grande festim. É esta repetição ritual que dá conforto ao leitor e reforça a sensação de regresso a casa, mesmo quando a história nos leva para longe.
E os Romanos que não podem faltar.
Como em todas as aventuras de Astérix, aprende-se sem sentir que se está a aprender. Entre trocadilhos, exageros e situações absurdas, há história, há cultura e há observação social. Astérix na Lusitânia não é apenas uma visita a Portugal; é um retrato humorístico — por vezes exagerado, por vezes certeiro — de como um povo é visto de fora.
No final, fica a sensação de um espelho ligeiramente torto, mas reconhecível. Vemo-nos ali: resistentes, irónicos, melancólicos, hospitaleiros. Talvez mesmo “alegres tristes”. E, como sempre no universo de Astérix, tudo termina à mesa, em celebração, lembrando-nos que, apesar das diferenças, há coisas que são universais: a amizade, a partilha e a capacidade de rir de nós próprios.