Na Contracapa Que África era aquela, quando Portugal era «só um – do Minho a Timor»? Manuela Gonzaga começa por nos levar de Lisboa a Nacala numa maravilhosa travessia oceânica a bordo do paquete Império. Dali, com a família, partiu para a mais remota província da então Província Ultramarina de Moçambique, Vila Cabral, actual Lichinga, onde viveram durante algum tempo. Através da descrição dos quotidianos do Niassa, depois do esbraseante calor de Tete, a seguir na Beira, e mais tarde em Lourenço Marques, Maputo, a autora revive, por dentro, toda uma época, num exercício que começou por ser um lenitivo para mitigar a solidão da mãe cujas memórias se têm vindo a dissolver inexoravelmente. Foi a própria mãe, a quem estas narrativas acordam reminiscências luminosas e felizes de tempos pretéritos no seu Moçambique adorado, que lhe pediu que as transformasse no livro que agora chega a público.
- Full time writer since 2000. - Historiadora com o grau de Mestre. - Activista (direitos dos animais, ambientalista, direitos humanos) - 14 títulos publicados nos seguintes géneros: - Biografia; - Romance; - Contos; - Juvenil (young adults) com a Colecção 'O Mundo de André', quatro títulos, os quais integraram o Plano Nacional de Leitura). - Três livros traduzidos e editados em francês - Imperatriz Isabel de Portugal (tradução Laure Collet, edição Le Poisson Volant) Isabelle de Portugal, l'Impératrice , Le pouvoir au féminin au XVIème siècle http://www.amazon.fr/Isabelle-Portuga... Mozambique: Pour que ma mère se souvienne [Format Kindle] http://www.amazon.fr/Mozambique-Pour-...
Foi candidata presidencial às últimas eleições apoiada pelo PAN - Pessoas, Animais, Natureza, tendo cumprido a agenda de uma pré-campanha que terminou em Dezembro de 2015.
Lourenço Marques, Princesa do Índico – a cidade das acácias e dos jacarandás, das palmeiras e das casuarinas, debruçada sobre a baía do Espírito Santo, enfeitada de luzes, geométrica e febril, a explodir de vitalidade e a crescer todos os dias, cuja visão quando o avião começava a sobrevoá-la, me enchia os olhos de lágrimas.
Não tenho por hábito ler registos autobiográficos, e muito sinceramente a vida de Manuela Gonzaga não me interessa para nada. Então qual a razão que me fez ler este livro? Porque tenho saudades de Lourenço Marques, e este livro fez com que viajasse no tempo, que recordasse tantas coisas, enfim que voltasse a um lugar em que fui muito feliz.
Uma memória, pessoal mas com o devido enquadramento histórico, de quase uma década de vida em Moçambique. Com a mais-valia de nos trazer, de modo muito fiel, o que eram as vivências quotidianas da classe média colonial ao longo dos anos 60 e inícios de 70, nomeadamente com o eclodir da guerra colonial. Esta mais-valia é particularmente significativa, porquanto a experiência pessoal da autora, na maior parte da sua estadia, fez-se fora dos grandes centros urbanos, pelo contrário, em lugares remotos, como Tete e Vila Cabral, onde a experiência da guerra conheceu dois dos seus epicentros. Um livro essencial para todos quantos se interessam pelo passado colonial português, nomeadamente para os que o viveram em Moçambique.
Uma vida no antigamente dos tempos. Uma vida. Esta. A dela. Uma entre muitas. Todas iguais. Todas diferentes. Uma vida. No antigamente dos tempos. Contada com leveza. Contada com graça. Contada com bom humor. Contada sem acrimónia. Acrimónia? Porquê acrimónia? Vendo bem, vendo bem, foi uma grande aventura! No antigamente dos tempos. Uma vida. Esta. A dela. Uma entre muitas. Todas iguais. Todas diferentes.
Opinião: Enquanto leitora, ler registos autobiográficos é algo que faço sempre com alguma cautela. Não que ache que este tipo de narrativa seja mau, mas porque não é um género que normalmente consiga apreciar devidamente. Ainda assim, e por todo o percurso de um ramo da minha família, achei que Moçambique - Para a mãe lembrar como foi devia ser um registo com o qual me fosse fácil ligar e que me suscitou muita curiosidade. Os vários percursos e destinos que muitas vezes a nossa vida toma, conseguem afectar não só a nossa existência como a de quem nos rodeia. Ao acompanhar Manuela Gonzaga ao longo daqueles anos todos e pelos diversos locais de Moçambique, senti que, de facto, já vivemos tempos muito difíceis, mas que a força de algumas pessoas foi, certamente, inspiradora, tal como este livro o é.
As várias recordações recolhidas para este livro chegam-nos muitas vezes em pequenos fragmentos e tanto parecem relatados com alguma indiferença como com imensa emoção. Achei extraordinária a forma como a autora conseguiu descrever a mentalidade das pessoas naquela altura, o quão os brancos eram facilmente questionáveis e todo o esforço de adaptação. A mãe da autora, uma mulher senhora de si e muito independente, é o exemplo de mulher progressista, mas que depois em relação à própria filha nem sempre conseguiu ser tão tolerante. Deste livro de memórias, o leitor pode retirar uns quantos excertos e romanceá-los, estendê-los na sua própria mente, sem nunca desvirtuar o quão real elas foram.
Com um enquadramento histórico preciso, a escrita de Manuela Gonzaga tem o poder de nos transportar para aqueles tempos, dando-nos a possibilidade de ver com os seus olhos toda uma evolução da sua posição na sociedade, da sua luta, de toda uma experiência num país que, apesar de na altura ser uma extensão do nosso, atravessou todo o tipo de fases - desde a prosperidade à guerra. O sonho de ser escritora começou de forma subtil, na voz de um soldado que partilhava as suas várias angústias. Como é que Manuela poderia saber e sentir tais coisas? Só mesmo tendo presenciado e vivido no meio de tal violência. A continuação, deixo-a para vocês a descobrirem.
Os últimos capítulos, confesso, deixaram-me muitas perguntas. O regresso a Portugal em 74, a forma agressiva como foi recebida, o espaço entre 70 e 74 passado em Luanda, do qual não sabemos nada, remete-nos à dúvida - ira a autora, algum dia, deixar estes registos também em obra escrita e publicada? No seu conjunto, Moçambique - Para a mãe lembrar o que foi, confronta-nos com uma obra autobiográfica, durante uma época de constantes mudanças, lutas e pequenos pormenores que transmitem, ainda assim, uma grande felicidade sentida pela autora. Lembro-me, particularmente, deste registo - de haver sempre um sentimento que tornasse positiva a experiência. Gostei.
'Moçambique' de Manuela Gonzaga corresponde a uma vaga muito recente de criadores que procuram lançar um novo olhar sobre o passado colonial português mais recente, e sobre o processo da descolonização que viveram. É um olhar novo porque não se trata apenas da realização de "memórias", vai muito além disso: é uma janela aberta sobre as contradições do autor que reflete no presente sobre uma época vivida em circunstancias sociais e ideológicas muito diferentes. É essa tensão que se revela em 'Moçambique' como algo de que a autora parece ter plena consciência, jogando tanto com as suas memórias como com a análise histórica do contexto que narra. Neste sentido, o livro não interessa apenas aos que viveram o 'Moçambique' do império tardio e da guerra colonial; é um livro que valerá a todos; desde historiadores que procuram trilhar formas de escrita mais fluida até ao leitor curioso pelo passado português mais recente e amante de páginas extraordinariamente bem escritas.
Um livro muito ao meu estilo, escrito na primeira pessoa, ao longo dos vários anos que Manuela Gonzaga passou em Moçambique, primeiro com a mãe e os irmãos e depois também o pai. É pois um livro pessoalíssimo, mas que nos mostra em narrativas muito bem estruturadas o viver dos metropolitanos no mundo colonial português, e neste caso particular vários locais moçambicanos, e não só a Lourenço Marques de então, mas também Vila Cabral (actual Lichinga), Tete e a Beira. E neste percurso de lugares variados, a autora vai-nos mostrando como se passou da paz à guerra, e vai expressando as suas opiniões, não se mostrando de forma alguma empenhada em tomar partido, mas sim mostrando o que achava bem e o que achava mal. Muito interessante, porque é um livro acima de tudo de gente normal a viver vidas normais, mas deslocadas do seu habitat natural, mas adaptando-se bastante bem aos circunstancialismos que iam surgindo. E há todo um mundo de personagens reais, algumas até do domínio público que contactaram de uma forma ou de outra esta família. Um testemunho precioso para a história da vida colonial portuguesa.
Moçambique era o lugar onde muitos portugueses se sentiam em casa. Numa época de prosperidade, muitos portugueses rumaram às, agora, antigas colónias portuguesas em busca de uma vida e de uma liberdade que não existia na Metrópole. Este livro conta a história da família de Manuela Gonzaga, a autora, com um adequado enquadramento histórico que nos permite situar a história desta família nos acontecimentos da época. Através do discurso de Manuela conseguimos perceber como era o quotidiano naquela terra para a classe média numa época em que a guerra colonial começava a tomar algumas proporções, não só na capital Lourenço Marques mas também em sítios tão recônditos como Niassa, Vila Cabral, Tete e outros. Este é um livro relevante apenas com factos veríditos para todos os que se interessam pelo que foi a vida em Moçambique nos anos 60 e início de 70.
Adoro a escrita de Manuela Gonzaga, flui de forma elegante, abordando temáticas historicamente bem fundamentadas, o que resulta de um árduo trabalho de pesquisa. Neste livro, que Manuela quis dedicar à mãe, para esta “se lembrar como foi”, aborda, de forma autobiográfica a viagem com a família para Moçambique, a estadia em vários pontos de Moçambique e mesmo, no fim, em Angola, os momentos de estudo, o convívio com as amigas, a emancipação, os lugares – sobretudo as cidades, já tão desenvolvidas para a época, como Lourenço Marques, explicando o motivo da atribuição desta toponímia à cidade, de uma forma que nos dá vontade de ir para lá, mas naqueles tempos, porque nenhum destes locais será o que já foi. Eu, que vim de Angola, compreendo o que a narradora nos conta, reconheço formas de vida, dificuldades e, sobretudo, os excelentes momentos de convívio. Mas, claro, nem tudo foram rosas e a guerra é também um tema que não poderia deixar de estar presente, se bem que não se lhe dê o destaque que tornaria a obra mais dura e dramática. Não foi um livro que li num ápice, pois, ao aflorarem-me memórias decorrentes da leitura, vi-me, muitas vezes, perdida nos meus próprios pensamentos, nas minhas memórias, a calcorrear a fazenda dos meus avós, com os meus amigos negros, a ir à praia com o meu pai, onde fazia uma pausa para beber uma Seven Up, os jantares em Luanda, com montes de família e amigos onde, no fim, fazíamos uma caminhada até à geladaria perto de uma rotunda, de que já não sei precisar o nome, que tinha todos os sabores de gelado inimagináveis. O cinema na praia, onde, por detrás do ecrã, o mar continuava a espreitar-nos, os banhos de mangueira no jardim, os fartos almoços de domingo em casa dos avós, a minha mãe a costurar calças para o meu pai poder prosseguir os estudos… Que momentos bons! Só pelo facto de me ter transportado a esses momentos que guardo no coração, já valeu a pena ter lido este livro, que recomendo. Muito bem escrito!