Prólogo:
A ficção cientifica pede crença à realidade através da ciência para validar as suas fantasias, um facto que a caracteriza desde sempre.
Lembro-me que quando era miúdo adorava fantasias, era completamente levado pelo lado sensorial de uma imagem e todas as suas implicações físicas. Aliás para mim nunca ouve ficção cientifica, existia apenas ficção, fosse um drama de sábado à tarde entre dois amantes num quarto como a aterragem de uma nave espacial chamada 'nostromo' num país com um número e um sigla como nome. Para uma criança tudo é igual, não existe identificação existe apenas sensação, ou se quiserem assim o ver, existe apenas identificação através da sensação superficial. Algo que felizmente guardo na minha memória e separo do meu contacto com o presente.
Claro que esta qualidade da ficção cientifica acaba por se tornar num defeito imenso com o passar do tempo. Porque crescemos e entendemos que todos os objectos criados com este propósito só podem ser algo porque pedem crença. Se não dermos crença a validade escoa para uma vala comum onde pairam devaneios sem lugar.
David Cronenberg fez bons filmes de ficção e ficção cientifica, o mais conhecido sendo o grande filme "A Mosca", um filme que supera o teste do tempo e superará para sempre, a meu ver, porque tem como base uma emoção humana que está aliada à surrealidade da ficção cientifica que serve sempre como um pórtico para o Homem lidar com o que é desconhecido.
Mas estamos a falar de "Estados Alterados", um filme que vi há anos atrás e que é bastante mau. Teatro filmado como plano de fundo para imagens pomposas psicadélicas que aludem à imensa infantilidade que caracteriza o trabalho de Ken Russell (um espectador impressionado com o filme 2001 odisseia no espaço, que bebia ao mesmo do trabalho de Kenneth Anger, mas sem o talento apenas a masturbação). Primeira coisa que gostaria de salientar é a seguinte, esqueçam o filme. Palhaçada pré-hipster americana, é como eu lhe chamo (com bons actores e um bom director de fotografia, é verdade).
Onde está Paddy Chayefsky nisto ? Em apuros, porque escreveu o seu único romance com o intento de o tornar num filme. Há que relembrar que Chayefsky é muito conhecido por ter escrito um guião fantástico chamado Network(realizado pelo operático Sidney Lumet).
O Romance em si:
Chayefsky usa a separação para causticar um encontro entre o Homem e a Consciência. Esta separação dá-se no tempo e no espaço através de uma droga que afecta o sistema límbico, localizado no cérebro, que leva um homem, Eddie Jessup, a alucinar uma viagem ao primeiro "eu", colmatando uma regressão genética que o leva a materializar-se durante quatro horas num hominídeo. Claro que isto tudo ganha espaço para respirar entre uma relação amorosa intensa entre Eddie Jessup e Emily. Eddie é o clássico génio obcecado pela Verdade, tendo em criança começado por projectar os seus desejos em ir ao encontro da mesma através de uma crença religiosa que terminou abruptamente na sua adolescência após a morte do seu Pai. E Emily é a clássica mulher inteligente que se sente hipnotizada pela paixão que Eddie tem pela vida, uma paixão que desafia a própria racionalidade.
Isto é tudo muito engraçado. E Chayefsky até tem um romance com uma substância que Ken Russell pura e simplesmente não entendeu (natural, estava com ambas as mãos dentro das calças a masturbar-se e a pensar nas imagens psicadélico-religiosas que iria criar para o seu filme usando o romance como um álibi narrativo). A verdadeira substância do romance é literalmente amorosa, onde Chayefsky utiliza o contacto que cada ser humano tem com o seu trabalho, a construção social da sua identidade que o mesmo edificou através da paixão, para trilhar o seu encontro com o desconhecido e, claro, para entender o que é o amor. Algo que foi erradicado quase por completo do filme. E este aspecto é sem dúvida alguma interessante - não é a abordagem mais comovente que encontrei, mas existe aqui alguma plausibilidade.
Aliás Chayefsky procurou imensos álibis tanto na ciência como na psicologia para dar substância à sua história. Não acredito que Chayefsky estivesse interessado no desconhecido, acredito até que Chayefsky achasse a relação entre os seres humanos verdadeiramente misteriosa. Não de um ponto de vista místico, algo que o romance utiliza apenas para dar credibilidade à droga descoberta no México, mas de um ponto de vista mental, da relação do Homem consigo, como individuo, e a noção insegura que ele tem ao se deparar perante um espaço desconhecido que o mesmo conhece como realidade. É aqui que as coisas também perdem a sua profundidade. Chayefsky leu uns livros sobre budismo e hinduísmo e sentou-se numa cadeira a escrever devaneios com base num principio, que eu considero, infantil, que supostamente caracteriza o que é a consciência.
Vamos lá ver se eu consigo explicar-me como deve ser.
Conclusão:
No romance Chayefsky alega que a consciência tem um impacto profundo na matéria e levou a mesma, desde o principio dos tempos, ao seu desenvolvimento histórico. Daí a relação entre o Homem e o Hominídeo(a regressão feita através da droga). Algo que é factual, sabemos disto e Darwin, em 1980 já estava morto há quase 100 anos. No entanto Chayefsky ignorou algo muito, muito importante. Algo que está tanto presente no budismo como no hinduísmo. Algo que não se intelectualiza, mas sim consciencializa-se. Consciência é tudo o que existe. Tudo é consciência. Numa mesa existe consciência, como numa árvore, como num solo, como nas estrelas, como em cada coisa que é uma coisa. Porque isso é o que a mente humana é capaz, de consciencializar. Algo que aliás todos os seres vivos fazem, mas claramente a uma profundidade diferente, incomparável até. Nós gostamos de dizer que somos animais racionais, e é um facto, mas esta dita racionalidade tem lugar porque consciencializamos o que é real. Claro que aqui existe um paradoxo inacreditável. Porque como não somos iluminados, tomamos muitas ilusões como realidades. Aliás a principal ilusão do ser humano é considerar-se um individuo. Esta confusão nasce através de um efeito de pensamentos que têm lugar no nosso desenvolvimento, desde muito cedo. Este efeito chama-se "eu" (conhecido como o ego), e torna-se numa causa sem o Homem dar por isso. Daí a tamanha distorção durante toda a sua vida, ou na grande maioria dos seres humanos. (Leiam sff, livros de Jiddu Krishnamurti, não os usem como uma fonte de autoridade, mas sim como um amigos distantes que vos levam a questionar a vossa noção de presente)
Chayefsky não entendeu isto. No entanto tinha todas as provas mesmo à sua frente, a frieza que Eddie Jessup sentia perante as necessidades do casamento e da sua responsabilidade biológica para com os seus filhos. E porque é que Eddie achava/sentia isto? Porque estava apaixonado pela sua noção de Verdade, que era o destino de todas as suas procuras. Claro que a possibilidade de em sociedade Eddie conseguir manifestar os seus desejos alimentaram a sua ilusão e como tal todas as necessidades do seu ego, daí a distância para com os outros conceitos sociais a que a sua mulher Emily era devota.
Chayefsky no entanto quase que choca com esta verdade, ao levar Emily a confrontar as necessidades do seu ego, em estar próxima de Eddie para se sentir completa, levando-a a ir para África estudar o comportamento dos macacos (tinha a ver com a sua profissão, ela ainda não sabia das consequências do trabalho de Eddie).
Emily teve uma oportunidade incrível, criar tensão perante a suas necessidades artificiais e até tinha a companhia dos seus filhos para ir ao encontro desta verdade. Mas só aqui existiria outro romance, porque levar uma mãe a ver os seus filhos como uma materialização fria de uma necessidade criada por um rio de pensamentos chamado o "eu", é algo difícil de engolir, seria do dia para a noite uma mulher louca sem qualquer contacto com a realidade. Todas as mães do mundo iriam dizer que era uma mulher doente. Porque todas as mães do mundo vivem da fisicalidade do seu parto e existe uma relação psicológica inacreditável com as suas crias(a triste verdade é que em muitos casos são apenas frutos biológicos de uma construção de pensamentos que incutiu necessidades).
Claro que Chayefsky nem cheirou esta possibilidade, porque o facto de que brota a mesma, é utilizado como um artificio para Emily vir a dar credibilidade às consciencializações que Eddie tem das suas regressões. Aqui está a falha de Chayefsky, a velha técnica bidimensional do teatro que se baseia na superficialidade para dar uma superfície palpável às suas arenas.
Portanto, resumindo, Chayefsky foi ao encontro da verdadeira plasticidade da ficção-cientifica em ser tão plausível como um desenho animado da Walt Disney. Claro que se tudo é consciência, nada existe para além da consciência. Não a consciência que o ser humano tem de si, algo que é moldável com a experiência e extremamente frágil perante as acusações da realidade, que se manifestam em todos os presentes, sempre imprevisíveis. Mas sim a consciência que está em cada coisa que é uma coisa, e sim, a mesma tem várias dimensões.
No entanto no fim do romance, quando existe a dita lamechice pseudo-existêncial, em que Jessup ao entender que depois desta realidade existe um vasto Nada que é caracterizado pela sua noção de solidão e frieza universal, e o mesmo escolhe viver da superfície, da materialidade, o contacto que ele tem com o que é tangível: Relações, casamento, filhos, e etc... - Eddie Jessup acaba por se tornar mesmo muito humano e com esta decisão Chayefsky salva-se, tanto a si como a nós, de um espetáculo de devaneios que não merecem ser lembrados (algo que o filme acabou por se tornar em). Esta decisão é maravilhosa, porque é mesmo o que se passa com o Homem. O Homem não quer abdicar do seu sofrimento pessoal, porque teme o seu sofrimento perante o que é desconhecido. Um paradoxo muito engraçado e que eu considero mais que plausível. Leia-se, o Homem odeia sofrer, abomina o sofrimento, quando entende que para além de si existe ainda mais sofrimento ele fica em casa a viver do passado. Aliás é tudo isso o que o Homem faz há mais de 2 mil anos, julgar o presente com memória. Tornar o novo em velho, para que tudo fique algo estável, seguro, conhecido para a mente.
No entanto a verdadeira gargalhada, para mim, foi entender que ambas as situações com Jessup não eram nada mais, nada menos, que imagens do seu próprio ego. O que o ego achava que era a Verdade, e o que o ego achava que era simplesmente um mantimento superficial. Não interessa na realidade. Toda esta viagem foi ego, ego de Jessup, ego de Emily, e claro, ego de Chayefsky. Quando digo ego, não estou a atacar uma necessidade pretensiosa que é manipulada pela vaidade. Porque isso não é a verdade. Estou mesmo a falar da necessidade que o ego tem de utilizar os seus pensamentos para criar hipóteses e desenvolver soluções que vão cair no mesmo erro que a primeira criação de um pensamento encontrou(o ego). Leia-se, ego gera ego. É assim tão simples. Algo que é hermético irá sofrer constantemente da consciencialização da sua hermeticidade. O que muitos chamam de subconsciente.
Portanto mesmo que este cenário Walt Disney para adultos fosse minimamente plausível, Jessup teria voltado à consciência que teve em criança, que o levou a catalogar de verdade uma simples interpretação que o seu ego teve dos seus sentidos(a sua noção do que é Deus, e toda a sua génese). Claro que isto é o que Eddie está a fazer com Emily, a dizer que estar em contacto com Deus é criar familias, amar o outro e etc... Coisas que são idílicas, e não são mais que distorções fractais de um desejo - o do ego em ser. (Leiam sff o livro de Byung-Chul Han, "A Agonia de Eros", quando o mesmo fala na negação da alteridade).
É aqui também que eu acabo por simpatizar com Chayefsky, aceito a sua ingenuidade e não a quero julgar. Respeito quem escreve o que sente, por mais errado que esteja. É assim que se enfrentam páginas em branco, com o coração.
Aprendamos com Chayefsky a acordar, não porque ele acordou, mas porque ele acabou por criar para saciar a necessidade que o seu ego teve em resolver-se, após ter ido ao encontro violento com a sua experiência em definir o que era real.
PS: A tradução de Paula Reis é engraçada e competente, mas eu por natureza odeio ler traduções dos originais ingleses/americanos. Existem mesmo poucas excepções perante este facto (lembro-me rapidamente dos romances de Beckett). Não acredito que tenha afectado a leitura e não sinto necessidade de , neste caso, ler o original. Às vezes ria-me com a necessidade que Paula Reis encontrou em traduzir certos maneirismos ignorando a plausibilidade da personagem em falar assim usando a língua portuguesa. Problemas que encontro porque tenho um cérebro que pensa em inglês e português. Traduzir o discurso coloquial americano para português é pior que assistir a uma peça de revista - Mas em sua defesa admito que poderia ter sido pior e compreendo a necessidade que os tradutores têm em serem assim tão impessoais na tradução.
No entanto achei engraçado comparar com as traduções do espanhol (discurso em alguns momentos no México). Paula Reis não teve problemas nenhuns em dizer "Eh caralho!" (como se diz em espanhol "Eh carago"), no entanto a sua tradução literal de "Jesus Christ Emily!" para algo como "Deus do Céu Emily!", levaram-me a soltar umas ligeiras gargalhadas. Porque raio não podemos dizer "Porra Emily!" ou "Santa paciência Emily" (estou a escrever de memória). Eu admito ter um grave problema com isto, não suporto ver filmes americanos/ingleses com legendas há mais de 15 anos.
PS 2: Peço desculpa pela falta de algumas virgulas.