Publicado em 1962, quando Carlos Drummond de Andrade completava 60 anos, A bolsa & a vida retraça, em sua escrita leve, fluente e bem-humorada, diversos aspectos da realidade brasileira e mundial ao longo dos anos 1950: a visita de um presidente italiano, casamentos reais na Inglaterra e a tentativa de remoção da população que ocupava o Morro da Catacumba, no Rio de Janeiro, entre outras notícias que, graças à verve drummondiana, ganham uma nova e luminosa existência nas páginas do livro. Mas nem só das notícias do jornal se sustentam os textos de A bolsa & a vida. Pequenos acontecimentos domésticos de um habitante de classe média da então capital federal são tão ou mais importantes diante da lente do cronista. A manutenção da casa, o imposto de renda, encontros e reencontros - aquela vida mais miúda, mas nunca desinteressante, serve de mote para inspiradíssimos textos. Como escreve o cronista Marcelo Coelho no posfácio dessa edição, “Procuras e achados se equilibram e se alternam, no vaivém das crônicas, mas a tudo o poeta prefere o recolhimento, como diz em ‘Ficar em Casa’, de quem permanece “divertido em seu canto umbroso”.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
Não é o meu livro preferido de crônicas do Drummond. Lembro ter devorado Boca de luar e O poder ultrajovem, achei esse menos incisivo (se isso é algo bom de se dizer de um livro, eu gosto de incisivos).