Bom livro/ensaio, consegue incluir uma perspectiva histórica (carregada de discriminação do ponto de vista legal na Europa - em Portugal havia legislação que descriminação contra roma até o início do século XXI) e social sobre o anti-ciganismo ao enquadrar o "cigano" (aqui significando o estereótipo dos sinti e roma na Alemanha) como o homo sacer (como definido classicamente e trabalhado por Agamben quanto ao seu papel na definição da "vida boa" dentro do estado) por excelência. Assim, Scholz atinge a concepção moderna do "cigano" como uma entidade que é, em simultâneo, demonizada por simbolizar aquele que ninguém quer ser (tornando-o essencial no modelo capitalista pois permite a definição do normal através da definição do tabu, o estatuto que deve ser evitado a todo o custo), e romanticizada (por certos círculos dentro da esquerda) como uma entidade cuja resistência ao modelo capitalista é inata. Ambas prendem a população sinti e roma (ou simplesmente "cigana" em Portugal) aos estereótipos que prejudicam a sua existência, levando a que o anti-ciganismo seja o racismo non grato (o racismo sacer, por assim dizer) dentro do combate ao racismo (uma tendência que se reverte aos poucos mas que é ainda evidente), levando a que Scholz consiga também articular a diferença entre anti-ciganismo e outros tipos de racismo.
Scholz também discute a relação do "cigano" como homo sacer e a sua importância para a definição de dissociação-valor (como a sociedade capitalista não valoriza trabalho que não resulte numa produção capital e em como isto cria papéis de género distintos - inicialmente o conceito foi postulado pela própria Roswitha Scholz) sendo ele próprio alguém que ilude a produção capitalista e que, por isso, é visto pela sociedade como algo a evitar ou até mesmo abater. Há algumas partes (poucas) que usam conceitos de Heidegger, em particular o de transcendência, mas isso escapa-me por completo; de resto achei este um bom livro. Ajudou ler sobre a dissociação-valor para poder entender parte da análise que Scholz aqui oferece.
Homo Sacer e os Ciganos é um ensaio denso onde Roswitha Scholz desenvolve uma análise crítica do racismo e do patriarcado não como efeitos colaterais do capitalismo, mas como partes estruturais do seu funcionamento. A partir da sua teoria da dissociação-valor, Scholz sugere que a sociedade moderna, moldada pelo Iluminismo e pela lógica produtivista, se organiza por oposição: o sujeito racional, masculino e branco é colocado no centro, enquanto tudo o que escapa à racionalidade instrumental - o feminino, o racializado, o “cigano” - é empurrado para a margem, construído como o “outro” necessário (ao sistema capitalista e patriarcal).
Inspirando-se em Agamben, Scholz identifica o “cigano” como o homo sacer por excelência, aquele cuja exclusão define os limites da comunidade civilizada e produtiva. Essa figura é, ao mesmo tempo, demonizada como o símbolo do improdutivo e romantizada como quem resiste naturalmente ao capitalismo. Ambas as leituras, no entanto, acabam por manter o “cigano” preso a uma posição de exterioridade, como se estivesse fora da história e da sociedade.
Uma das grandes virtudes do ensaio é mostrar que o anticiganismo não é apenas um preconceito individual ou um “atraso” cultural, mas parte da própria forma como o capitalismo e o legado do Iluminismo produzem um “outro” necessário para se pensarem como racionais, civilizados e trabalhadores.
O livro é claramente mais teórico do que etnográfico e bastante focado no contexto alemão. A verdade é que parti para a leitura sem estar à espera disso e, por essa razão, por vezes achei o texto mais denso do que antecipava (o que diz mais sobre as minhas expectativas do que sobre o livro em si e daí a minha review de 3,5 ⭐️). Fiquei com vontade de ler algo que cruzasse este enquadramento com estudos mais empíricos, sobretudo em contexto português, de forma a ligar esta reflexão teórica aos dias de hoje e ao anticiganismo na contemporaneidade.
É, na realidade, um 3,5. Em termos históricos é um bom livro que contextualiza a discriminação sofrida pela população cigana no Ocidente e aborda a "história da ciganofobia". Desenvolve algumas ideias interessantes à volta da ideia da resistência cigana e suas dimensões. Ainda assim, comete algumas imprecisões significativas a nível das generalizações ou argumentos pouco aprofundados. Exemplo disso é o início da página 67, onde se escreve " a esquerda classificava tradicionalemente os ciganos como pertecendo ao lumpemproletariado, o que significa que sendo ciganos já lhe pertenciam desde sempre". Ora, o lumpemproletariado é, com precisão, um conceito desenvolvido por Marx no Capital e, portanto, "assimilado" pela marxismo ortodoxo. Associar este conceito à "esquerda" e à "esquerda tradicional" é, na minha opinião, problemático uma vez que cria uma série de sub-ideias no leitor como sejam as associações diretas da esquerda tradicional ao marxismo ortodoxo. Assim, clarificar isto teria valorizado este trabalho.
"No fundamental, o capitalismo baseia-se no medo de ser «declarado banido», de ser apenas «vida nua» - o que se sucedeu desde o início da sua existência. As instituições e os agentes do capitalismo, bem como os próprios indivíduos, fazem tudo sob a forma de «trabalho de disciplinamento» para evitar esse perigo. Em nenhuma circunstância alguém desejaria ser como o cigano, o fantasma, o pesadelo puro e simples da subjetividade burguesa. É necessário distanciar-se do cigano no fundamental, pois nele conjugam-se a mais profunda indecência, a delinquência, a associalidade e o ser uma raça estrangeria ociosa e hedonista, características que uma pessoa tem de renegar se não quiser pôr em perigo o seu modo de vida e a sua integração na sociedade. O estereótipo do cigano parece ser o mais apropriado de todos os estereótipos racistas para nos esclarecer a respeito da subjectividade capitalista burguesa. O sujeito burguês vê nele a um tempo, como o reflexo num espelho, os seus medos primordiais e os próprios anseios hedonistas. É precisamente esta combinação que mais o horroriza."
“Nunca será suficiente realçar o seguinte: “A natureza dupla do estereótipo do cigano tornou-se manifesta com a etnicização iniciada pelo Iluminismo e reforçada durante o século XIX. Ele demonstra a dialéctica da discriminação racista. Legitima a opressão e o paternalismo perante raças supostamente subdesenvolvidas, por parte de povos que atestam a si próprios uma origem nobre. Além disso, permite aos estratos sociais inferiores desses povos, eles próprios socialmente discriminados, o desenvolvimento ou reforço de ideias de superioridade e de pertença (…)” (Hund, 1996, p.32).” - p.62
Com tanto potencial e só desilude. Escrita pesada, com alusão a inúmeros teóricos e termos citados sem nenhum contexto prévio. Talvez não tenha ajudado ter as expectativas iniciais tão altas, mas nunca pensei que fosse ansiar (sempre que lia) que o livro acabasse o mais rápido possível. E é super pequeno, agora pensem…
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O livro abusa de citações demais, o que faz com que a leitura pareça dum artigo universitário e não dum livro realmente. Apesar disso, traz uma leitura muito interessante sobre o anticiganismo como algo essencial ao processo modernizador