É adequado que a edição destas cartas de Fernando Pessoa seja antecedida pelo famoso poema que diz “Todas as cartas de amor são /ridículas./ Não seriam cartas de amor se não fossem/ridículas”, datado de 1935, portanto, posterior à relação do autor com Ophélia Queiroz, e escrito por Álvaro de Campos. Não o digo apenas pela ironia, mas também porque este heterónimo não só é referência habitual na primeira fase da correspondência amorosa, como assume um papel activo na fase posterior.
Num namoro à antiga, em que Pessoa se limitava a pouco mais do que a acompanhar a jovem de 19 anos do emprego até casa, a passar pela sua janela a uma hora combinada e a trocar missivas com ela, Álvaro de Campos parece desempenhar o papel de pau-de-cabeleira ou daquele amigo intrometido que não é a favor da ligação.
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Exa. – considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo de obediência e disciplina) – que V. Exa. Está proibida de: 1)pesar menos gramas, 2)comer pouco, 3)não dormir nada, 4) ter febre, 5)pensar no indivíduo em questão.
Estas “Cartas de Amor” dividem-se em dois períodos: de Março a Novembro de 1929, que termina com uma despedida muito desencantada...
O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa desilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou. (...) Quanto a mim... O amor passou.
...e de Setembro de 1929 a Janeiro de 1930, em que o homem apaixonado, em que confesso não ver grande interesse, é substituído pelo escritor fascinante e genial tal como o conhecemos.
Se na primeira fase da correspondência, o poeta é menos fingidor e, na verdade, mais meloso, na segunda fase, a confissão dá lugar à criação e fazem do acesso a estes textos um enorme privilégio.
De resto, a minha vida gira em torno da minha obra literária – boa ou má, que seja, ou possa ser. Tudo o mais na vida tem para mim um interesse secundário: há coisas, naturalmente, que estimaria ter, outras que tanto faz que venham ou que não venham. É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam que sou assim, e que exigir-me os sentimentos, aliás muito dignos, de um homem vulgar e banal, é como exigir-me que tenha olhos azuis e cabelo louro.