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Impunidade

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"Um homem caminha primeiro a pé, tacteando no escuro, depois de automóvel, conduz toda a noite, dorme na pressa de um hotel, retoma a viagem primeiro ainda em terras portuguesas, depois em Espanha.
Em Sevilha sobe ao último andar de um prédio. Tem a chave da porta, a casa está desarrumada e nela se encontram duas crianças adormecidas quase entre sinais de abandono. «Aproximei-me da cama maior. O rapaz tinha apenas as cuecas vestidas. Magro, as pernas esguias, o cabelo comprido. Ouvia-se a respiração. Rápida, regular, entrecortada por pausas de onde emergia com uma aspiração sufocada. Da outra cama, não se ouvia nada. A menina estava despida, com o cabelo espalhado pelo rosto e as pernas cobertas com a ponta do lençol. Apoiei-me nas grades, debrucei-me e afastei-lhe o cabelo. Não se mexeu. Respirava devagar, com os lábios entreabertos e um quase insensível movimento do peito. Parecia fria, apesar do calor, o corpo contraído, a cabeça colada aos joelhos. Tinha os lençóis húmidos em redor das coxas. Na penumbra, a sua pele esbatia-se contra o tecido branco.»

Este é o inicio de uma história inesperada, dura, com o «esplendor das coisas ameaçadas»."

222 pages, Paperback

First published June 20, 2014

138 people want to read

About the author

H.G. Cancela

11 books10 followers
Hélder Gomes Cancela (1967) é um escritor português. Venceu o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB pela obra As Pessoas do Drama em 2018.

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3 (6%)
1 star
1 (2%)
Displaying 1 - 15 of 15 reviews
Profile Image for Nelson Zagalo.
Author 15 books470 followers
Read
June 22, 2018
“Impunidade” recomenda-se pela excelência da escrita e da narrativa, mas com caução aos mais sensíveis. Já sobre o tema, tenho de dizer que surge bastante mal tratado, e no meu caso questiono mesmo se valeu a pena a leitura. Não posso desvelar muito já que a narrativa foi desenhada num modo minimal, requerendo o maior desconhecimento sobre os contornos da história. Como incentivo ou desincentivo, direi que é um livro sobre situações familiares limite, muito duro, violento e direi mesmo manipulador. E é por causa deste último ponto que não atribuo qualquer nota aqui no GoodReads.

Assim, o melhor de “Impunidade” assenta na sua forma e estrutura. A escrita de Cancela é económica, direta e muito centrada na ação, permitindo aqui e ali pequenos devaneios filosóficos mas quase sempre marcada por um ritmo regulado a metrónomo. O vocabulário é rico e o texto flui de forma bastante poética. No campo da estrutura, senti um bocadinho menos admiração pelo autor, não que não apresente uma enorme mestria no controlo da narrativa, mas talvez por isso mesmo, acabou soando excessivo, mecânico, com alguma falta de naturalidade. Ou seja, inicia-se o relato in media res, e agarra-se o leitor pela ausência de contextualizações e explicações sobre o que vai sendo descrito, manipulando-o por meio da libertação de informação aos bochechos, mantendo ainda assim o grosso para ser revelado apenas no último quarto do livro. Assim, se a estrutura nos mantém agarrados quase incapazes de pousar o livro, à la thriller, acaba por roubar protagonismo ao tema, uma vez que granjeia muita da nossa atenção por nos conduzir numa constante busca por informação, em vez de nos atrair para o tema e nos oferecer tempo e espaço reflexivo sobre o mesmo.


*** A partir daqui a trama é desvelada e discutida abertamente ***

Por outro lado, esta estrutura e modo de escrita, produziu em mim um efeito bastante interessante, capaz de questionar o modo como vemos a realidade sempre dentro de moldes tão predefinidos, acabando por esquecer ou tender a ignorar quaisquer outras possibilidades. Neste livro fui por várias vezes chamado a atenção para aquilo que ligava os personagens centrais, e no entanto só a 3/4 vi o que era, daí que o impacto que senti tenha sido talvez grotescamente superior àquele que o autor terá pensado criar. Quando, e apenas à terceira menção, compreendo que estamos perante um casal incestuoso, tive de pousar o livro e requestionar tudo o que tinha lido, pensado e imaginado. Se até esta altura imaginava Cancela como um cruzamento entre Elena Ferrante e Michael Haneke, tudo isso se desmoronou. Tinha sido manipulado, não deixava de admirar o controlo narrativo de Cancela, mas as peças estavam longe de apresentar uma visão, ou de quererem dizer mais do que aquilo que simplesmente diziam.

Assim, se o meu problema tivesse sido apenas para com a estrutura, provavelmente teria atribuído nota máxima, porque fiquei admirador do autor. O meu verdadeiro problema com “Impunidade” surge no tratamento dado ao tema, que era complexo e de difícil abordagem, não apenas por ser tabu, mas também pela quase ausência de tratamento na ficção, faltando bases comparativas. Ou seja, não está em causa a minha intransigência para com o incesto, consentido entre adultos ou não, mas antes o modo escolhido para apresentar essa aparente defesa, se é que se pode chamar tal a este livro.

Em "Impunidade" temos um casal de irmãos que inicia o incesto na idade adulta, descobertos pelos pais que tudo fazem para terminar tal relacionamento, mas que contra todos e tudo reatam e da qual acabam nascendo duas crianças, um filho e uma filha, que no momento em que a narrativa se inicia possuem respetivamente, 9 e 4 anos. Cancela parece querer defender a liberdade de amor entre irmãos, mas se o queria fazer talvez devesse ter escolhido irmãos mais saudáveis do ponto de vista social, cognitivo e afetivo. Tanto o homem como a mulher, são não só completamente anti-sociais, como parecem incapazes de ir além do desejo sexual entre eles. Não me parece que defender um modelo de relações humanas apenas assente no desejo físico seja suficiente. Não me parece que defender um modelo de relação a partir de um casal que é completamente incapaz de amar os próprios filhos seja algo minimamente defensável.

Cancela pode até dizer que o estado destes irmãos é originado pela pressão cultural, pela perseguição moral, ainda que a lei portuguesa nem sequer proíba tal, e por isso Cancela situa a ação em Espanha, onde é ainda proibido. Mas se era isso que queria dizer, foi bastante inábil a fazê-lo, pois em vez de filosofar sobre as perseguições aos judeus podia ter debatido-se mais com o mundo em que estes tinham crescido, já que desse ficamos sem nada saber além do momento em que o pai descobre e perde a cabeça. Para Cancela parece que a brutalidade do que o pai faz com a filha quando descobre é razão suficientemente traumática para justificar o comportamento anémico da filha para com o mundo. Se aceito, parece-me no mínimo estranho que tal evento apenas deteriorasse as suas capacidades para com o resto do mundo, já o sexo com o irmão parece manter-se igual até ao final, tal como as sucessivas gravidezes.

Fica a ideia de que Cancela quer vender-nos um Romeu e Julieta entre irmãos, que nada nem ninguém pode afastar, mas que a força de morais retrógradas tudo fez para destruir. E no entanto, nem a morte de uma filha, que não se pode definir por mera negligência como Cancela faz, mas é antes um claro homicídio por negligência, de ambos, irmão e irmã, parece suficiente para acender um alerta! Não se trata de consanguinidade, é algo muito mais brutal, é o desprezo total pelo outro, pelo humano, pelo inocente que de nós depende. Nada poderia nunca justificar tal. Nada. Nem as histórias das crianças enviadas para S. Tomé e Príncipe aqui valem nada, considero-as mesmo despropositadas.

Não posso contudo fechar esta crítica sem colocar o dedo na maior ferida do livro, o seu final. Completamente inaceitável. Repare-se que não está aqui em causa o incesto, o que está em causa é o autor considerar que dois adultos responsáveis pela morte de uma filha de 4 anos, acabados de abandonar um filho de 9 anos à sua mercê, já com duas tentativas de suicídio, merecem mais uma gravidez. Como se Cancela no fundo estivesse a dizer-nos que a gestação é irrelevante, porque os filhos são irrelevantes, e por isso a consanguinidade é também irrelevante. No final, ao fechar o livro, questionava-me sobre o que tinha aprendido com a sua leitura, não consegui encontrar nada de bom.

Muito honestamente, vou ainda ler o livro que Cancela publicou no ano passado, "As Pessoas do Drama" mas se as suas capacidades literárias não tiverem mais mundo para oferecer, com muita pena minha deixarei de o seguir.


Publicado no VI: https://virtual-illusion.blogspot.com...
Profile Image for João Carlos.
670 reviews316 followers
September 23, 2017
Primeiro , F@da-se...
Segundo , a sensação depois da leitura de "Impunidade" é a mesma que tenho quando alguém ao meu lado persiste em friccionar areia na superfície de um espelho de vidro...
Terceiro , este H. G. Cancela é um escritor perigoso e a manter debaixo de olho.
Quarto , este romance "Impunidade" é Altamente Não Recomendável.
Profile Image for Álvaro Curia.
Author 2 books553 followers
September 19, 2022
Não consigo dar uma classificação ao que acabei de ler.

Devo dizer que quis vomitar várias vezes ao longo da leitura e, perto do final, acabaria mesmo por acontecer, não fosse uma Rennie salvar-me. Não me considero um leitor particularmente sensível a temas (excetuando os maus tratos a animais) mas, no caso deste livro, não há pedra que não se desfaça.

Dois conselhos:
1) quem quer MESMO ler, deve ir sem saber absolutamente nada sobre o que vai encontrar. Se é para ter a experiência, que seja completa;
2) leitores sensíveis ou que estejam a passar por fases mais sensíveis, esqueçam.

Nunca, em toda a minha curiosa vida de leitor, tinha lido nada assim.

(vim cá mais tarde dar as 5 estrelas que esta leitura merece, pela escrita, pelas sensações, pelo poder da manipulação do leitor)
Profile Image for Célia | Estante de Livros.
1,192 reviews278 followers
September 1, 2016
Fazer parte da "Roda dos Livros" tem sido uma experiência enriquecedora a vários níveis, e posso afirmar já, com alguma dose de certeza, que me tornou numa leitora diferente. Não melhor, nem pior, simplesmente diferente; mais atenta a certos aspetos dos livros e mais desperta para o essencial e menos para o acessório. E, depois, tem-me proporcionado contacto com livros e escritores que não teria lido de outro modo. Impunidade, de H.G. Cancela, escritor português, pouco conhecido e pouco discutido, foi um dos livros que me chegou da Roda, catalogado como “difícil, perturbador, opressivo” pelos amigos que o leram e por isso tinha medo de o iniciar, apesar da enorme vontade.

Acho que é bom ler este livro sem saber quase nada do que trata, por vários motivos, mas em especial porque me parece ser daqueles livros que devemos ler sem ideias pré-concebidas e de mente aberta. São vidas de tal modo distantes da nossa (ou, pelo menos, da maioria das pessoas) que é preciso uma boa dose de aceitação (e não resignação) perante aquilo que o autor nos apresenta. Acho que devemos ler com um espírito crítico, mas tendo sempre presente a diversidade de vidas e crenças, bem como do limite ténue entre o que está certo e o que está errado.

Este livro pode tornar-se revoltante por diversas vezes, em especial porque mexe de forma perversa com algo que para mim é intocável, as crianças. O roubar da infância e da ingenuidade chocam-me e revoltam-me, mais do que tudo porque sou mãe. Mas eu sei que é uma realidade e, ainda que não seja propriamente algo sobre o qual deseje muito ler, não consigo deixar de me sentir enriquecida quando reflito sobre tudo aquilo em que acredito ao ler sobre vidas tão moralmente distantes da minha.

Digo sem grandes dúvidas que H.G. Cancela foi dos melhores escritores portugueses que já li, ainda que um livro pareça pouco para o afirmar. Mas muito dificilmente será um acaso. A forma exímia como retrata a obsessão e a amoralidade, muitas vezes consubstanciadas na violência, cativam o leitor e fazem com que seja muito difícil parar de ler. Mas sinto a necessidade de chamar a atenção para o facto de não me parecer que este livro seja para qualquer leitor. Se depois de lerem o que escrevi acharem que é para vocês, gostaria muito de saber o que acharam da leitura.

É de livros como Impunidade que se faz o enriquecer de um leitor, quando as palavras mexem connosco e com os nossos medos e crenças mais viscerais. Foi isso que este livro fez comigo e por isso se tornou uma leitura tão marcante. Um enorme obrigado à Cris pelo empréstimo.

«O poder é sempre proporcional ao mal que produz»,
prosseguiu, por fim. Esse seria o único princípio. De todas as formas que o mal assumia, talvez o mais terrível fosse aquele que se afirma na consciente indiferença pela vítima. Que lhe identifica o nome, que lhe conhece o rosto, mas que prefere ignorá-lo como coisa acessória. Aquele para quem a vítima não é um meio nem um fim, apenas processo. Esse mal poderia ou não ter um rosto, mas teria sempre um nome. O nome da vítima.
Profile Image for Ana.
767 reviews180 followers
October 5, 2017
Uma semana se passou desde que terminei esta leitura e tenho plena consciência de que, mesmo tendo-se passado esse tempo, não sou ainda capaz de pôr em escrito o tamanho da estupefação, da incredulidade e da vontade de esmurrar algo, alguém (o autor, as personagens?...) que senti e ainda sinto.
Esta não é de maneira alguma uma opinião fácil de escrever. Como não o foi ler a primeira obra deste autor que caiu na minha estante. Não sei como colocar em palavras tudo o que li, tudo o que senti, o aturdimento que me acompanhou do início ao fim, as vezes que deparei comigo mesma encolhida, de punhos cerrados, a morder esses punhos cerrados, de respiração suspensa e com uma vontade desmedida de abanar a todos, de sacudi-los para que despertassem, de esmurrar violentamente aquele pai, aquela mãe, de gritar-lhes todo o tipo de insultos e de arrebatar-lhes as duas crianças e enroscá-las no meu colo até que elas pudessem sentir, pela primeira vez, o que é ser acarinhado, amado, o que é estar vivo.
Sabia que nunca sairia igual desta leitura, como nunca saio a mesma de qualquer leitura. Mas esta é incomportavelmente mais dura, mais crua, mais violenta do que qualquer outra. É claro que, sendo eu uma leitora obcecada pela Segunda Grande Guerra, estou familiarizada com a dor, a tortura, a violência no seu estado mais puro, porém confrontar-me com a indiferença, o alheamento e o desapego que aqueles pais demonstram face ao abandono a que votaram os seus próprios filhos foi excruciante. E se a isso se acrescentar a brutalidade que usam entre si, a relação física de pendor animalesco que os faz buscarem-se um ao outro, o dia trás dia de duas crianças que apenas contam consigo mesmas para sobreviver, então atinge-se um sofrimento insuportável. Inclusive para os leitores mais habituados à dor e à violência nua e crua.
Se fizermos uma pesquisa online, constatamos que esta obra de Cancela e já agora o próprio autor não atingem grandes níveis de popularidade. Na rede social Goodreads poucos foram os que partilharam as suas impressões sobre Impunidade. Todavia, aqueles que o fizeram estão de acordo comigo – esta é uma obra com contornos de perfeição, recheada de momentos no mínimo perturbadores, de passagens nas quais o narrador filosofa sobre a natureza humana, o que tem de mais primário, o quanto os nossos instintos mais básicos tingem as nossas ações e de personagens que odiamos com todas as nossas forças, que nos revoltam o estômago, mas que talvez apenas estejam a viver a vida tal como lhes ensinaram a viver.
Por ser chocante, por ser opressivo como o calor sufocante de Sevilha, por ser terrivelmente perturbador e agoniante não recomendo Impunidade a quem não aguenta os referidos graus de dureza e violência e muito menos a quem é progenitor e não consegue ser espetador de cenários de abandono voluntário, de desamor, de indiferença perante o que possa necessitar um ser que nasceu porque um homem e uma mulher fornicaram sem pensar nas consequências. Contudo, e antiteticamente, imploro a que conheçam H. G. Cancela, que leiam o que ele publicou até agora, pois um autor que escreve uma obra como Impunidade tem que ser conhecido, tem que ser lido, tem que ganhar o seu lugar muito merecido no panorama da literatura nacional.
Finalizo dizendo o que se depreende do que referi até agora – esta foi uma das leituras de 2017, uma das descobertas do ano. Como tal, atribuo-lhe a nota máxima, mesmo que isso me agonie e me revolva as entranhas…

NOTA – 10/10

http://osabordosmeuslivros.blogspot.p...
Profile Image for Rúben Santos.
211 reviews24 followers
February 22, 2023
4.5 ⭐️

Não consigo escrever muito sobre o que acabei de ler. Um permanente desconforto, angustia e revolta com estas personagens e com a forma como decidem e/ou foram obrigadas a viver as suas vidas. Nunca li nada tão estranho e ao mesmo tempo não quis parar de ler, porque a mestria do autor na escrita, construção de personagens e ambiente não nos deixa largar este livro, mesmo que a história em si contida tenha muito de grotesco, amoral e até animalesco. Não é um livro que nos traga bem estar ou conforto a ler, mas está magistralmente bem escrito.
Profile Image for Conceição Puga.
153 reviews26 followers
July 3, 2024
A literatura pode ser um desafio aos modelos que conhecemos.

Neste livro encontramos uma ausência total de moralidade que me chocou profundamente e para a qual ainda não tenho explicação.

O que é que pode levar a tamanha falta de humanidade, a um desapego e alheamento profundo de quem deveria ser o colo, aconchego e amor?

Podemos estar mais ou menos de acordo com o rumo da história, mas não deixo de questionar o final...

Preciso de tempo para digerir....


"A civilização é lei, culpa e punição. A impunidade gera sempre violência."

" Reduzidos à pele, exteriores àquilo que, de olhos nos olhos, nenhum de nós saberia aceitar, a agressão constituía uma espécie de resposta. De um para o outro, e de ambos para si mesmos.agente e vítima envolvidos numa conivência que se media pela intensidade da raiva e da dor, segundo uma violência onde seria difícil distinguir o desejo da repulsa, o agredido do agressor. No dia seguinte, outra vez o silêncio, ainda que mais amável, com um resto de confiança."

"Continuou calada. Era uma resposta. Nenhum de nós sabia se valeria a pena insistir. Na proposta ou na recusa. Nunca nenhum de nós soubera quais os termos em que aceitar ou recusar poderia constituir uma forma de escolha, espaço da vontade e do desejo, ou a resposta passiva a uma obrigação, medo ou ameaça."

"Pensar o mundo é sempre pensá-lo com uma linguagem."
Profile Image for Ana.
590 reviews11 followers
Read
January 29, 2016
A história é horrível e cruel. O livro está muito bem escrito. É um paradoxo gostar muito/odiar... não consigo classificar.
Profile Image for Denise João.
26 reviews
Read
September 7, 2025
É um livro muito, muito pesado. Até a metade da narrativa você quer bater em todos os adultos; dali em diante você quer matá-los.

Eu fiquei entre o êxtase com a escrita irretocável do autor e a revolta com tudo o que li.

Não sei como classificar essa experiência; tive ânsia de vômito, fiquei incrédula, mesmo sabendo que tudo que está ali é possível, que há um mundo que não conheço e do qual me isolo.

Todas as mulheres são objetificadas. Todas. As crianças maltratadas, desprezadas, ignoradas. Ninguém as acolhe. Ninguém as ama. Ninguém se importa.

Termino sem saber se queria ou não ter lido o que li. Fiquei sem chão. Não tenho nem como atribuir uma nota.

Não quero ter uma experiência assim de novo.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Helia Jorge.
41 reviews7 followers
January 19, 2018
Não sei como dou 5 a um livro que muitas vê es detestei e quis largar. Leio rápido e gosto de ler de seguida, mas este tive que parar várias vezes porque me faltava o ar. De uma enorme violência psicológica e física, que achei muitas vezes gratuita, envolve crianças que para mim é a pior das violências. Apeteceu-me várias vezes esmurrar os personagens e o autor.
O autor escreve e descreve magistralmente um tema tão difícil. Por isso e pelo enorme desconforto que me causou dou-lhe 5. mas nao tenho coragem de o recomendar a ninguém
Profile Image for Vera Violante.
3 reviews1 follower
February 15, 2024
Acabei de ler este livro e recomendo muito. Um livro pesado e cru. Pode chocar os que vivem em um mundo mais cor-de-rosa. Mas é um despertar de consciência para os mais sensíveis. Infelizmente, às vezes, a linha que separa a ficção da realidade é muito tênue. E sem dúvida que este livro é um despertar, um murro no estômago, que nos leva a reflectir em realidades difíceis, que podem estar mesmo ao nosso lado. O mundo não é cor-de-rosa.
Boas leituras 😁
Profile Image for Natacha.
17 reviews
February 13, 2019
Uma leitura gráfica, sem tabus, sem meias palavras, num estilo cru e quase mecânico. Não é seguramente um livro recomendável a leitores mais sensíveis e impressionáveis! Foi o meu primeiro livro do autor, não será certamente o último.
Profile Image for Nuno Menezes Gonçalves.
28 reviews
February 6, 2017
« Errático, um homem, pai, irmão, pecador, narrador, portador do mal... entra em cena em busca de duas crianças, totalmente vítimas de abandono, deixadas num sufocante apartamento na já quente Sevilha, aos parcos cuidados de uma inconstante empregada, com um filho, que reúnem em si flagelos sociais que entrarão em colisão com os flagelos destas estranhas relações familiares. Errática também, melancólica, destruída, uma mulher, mãe, irmã e objecto de desejo, é em si mesma a personificação do abandono, da dúvida, talvez da culpa, talvez da sumptuosidade. »

Este livro pode tornar-se revoltante em diversas ocasiões, em especial porque mexe de forma perversa com uma temática premente no tempo corrente: as crianças. Peguei nele por causa de uma crítica que li no blog "Roda dos Livros". É preciso ter um estômago forte para aguentar estas páginas, de uma escrita simples mas de uma violência terrível. Apesar de ser difícil avaliá-lo, constato que Cancela é um escritor português bastante bom, mesmo só tendo analisado uma das suas obras.

« Pensar o mundo é sempre pensá-lo com uma linguagem. Talvez ela a não tivesse. Não apenas palavras, mas alguma coisa capaz de organizar em mundo isso que em cada momento articula o antes com o depois, o permitido com o proibido, o eu com os outros. Privada de gramática, ela permanecia reduzida àquilo que sentia. A dor, a fome, o sono. O frio ou o calor. »

« Bastava-lhe poder fechar os olhos e saber que à sua volta continuava a haver mundo. Casa, cama, comida. Já nem sequer afecto. »

« Tudo quanto eu tinha cabia naquela cama. Um lugar estreito. »

« Por nascimento ou por conquista, o poder e a propriedade são sempre arbitrários. Encontrar causas não é reconhecer legitimidade, tal como conhecer a lei não é obedecer-lhe. »

« Prosseguiu, em seguida, com a lentidão da posse ou da impunidade. Séculos de interditos não eram suficientes para garantir, se não a obediência, pelo menos o medo. »

« Não me preocupava o ressentimento ou a culpa, mas a impossibilidade de a retirar dali. Nem a mais violenta convulsão da história se poderia repercutir sobre aquele corpo, mudo e inerte por toda a eternidade. »

« A morte não tem memória, repete-se sempre pela primeira vez. »

« Se é pensamento constatar os termos de uma rendição, responder à fome, ao medo ou à ameaça. Se é pensamento prosseguir aquilo que se impôs por si próprio, autónomo o suficiente para prescindir do desejo ou da consciência. »

« Era com alívio que ele ouvia alguém dizer-lhe o que deveria fazer ou não fazer, mas obedecia apenas por falta de fé. Não tinha mais nada em que acreditar. »

« "O poder é sempre proporcional ao mal que produz", prosseguiu, por fim. Esse seria o único princípio. De todas as formas que o mal assumia, talvez o mais terrível fosse aquele que se afirma na consciente indiferença pela vítima. Que lhe identifica o nome, que lhe conhece o rosto, mas que prefere ignorá-lo como coisa acessória. Aquele para quem a vítima não é um meio nem um fim, apenas processo. Esse mal poderia ou não ter um rosto, mas teria sempre um nome. O nome da vítima. »

« "A civilização é lei, culpa e punição. A impunidade gera sempre violência". Violência por violência, ele preferia a da lei. Não que fosse melhor, apenas mais previsível. Sabia-se sempre com o que contar. "É a impunidade da lei que gera a violência". »

« era esse o poder das crianças. Um poder assente não na ignorância da sua fraqueza, mas na consciência da sua impunidade. Era uma espécie de cálculo anteverbal. Temiam a punição, mas sabiam, sem o nomear, dilatar o tempo o suficiente para que tal lhes pudesse parecer improvável. E tempo é a única coisa que não lhes falta. Porque se o tempo é o espaço do possível, é também o do impossível, elas pressentiam-no. Não se tratava sequer, acentuou, de ausência de culpa, apenas da possibilidade de não serem punidas. Seria isso a culpa, a promessa da punição »
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