No preâmbulo a uma entrevista feita a Daniel Jonas, publicada no suplemento Ípsilon do jornal Público a 8 de janeiro de 2014, escrevia António Guerreiro que «[…] a poesia de Daniel Jonas atravessa tempos diversos: o clássico, o romântico, o moderno, numa apoteose de rastos e linhagens que comparecem subtilmente. Nela encontramos, no mais alto grau, a ideia da linguagem poética como concentração e densidade. Ela é hábil nos jogos retóricos e de palavras, mas nunca deixa que isso se torne um exercício fútil e gratuito.» Tudo isto é confirmado por «Nó», um livro de sonetos e o primeiro que o autor publica na Assírio & Alvim.
Daniel Jonas nasceu no Porto, em 1973. É Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa com uma dissertação sobre o poeta inglês John Milton, de que resultou a tradução de Paraíso Perdido (Cotovia, 2006).
Além da escrita para teatro, em que se estreou com Nenhures (Cotovia, 2008), publicou seis livros de poemas, entre os quais Nó (Assírio & Alvim, 2014) - vencendo o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes (2015) - e, mais recentemente, Bisonte (Assírio & Alvim, 2016).
Dedica-se também à tradução, tendo vertido para português textos de Waugh, Huysmans, Pirandello, Auden, Shakespeare e Lowry, entre outros.
"Um dia vão saber quem foi que eu era. Se o fui já nem recordo, mas quem dera Que eu fosse antes de mim o meu preparo. Deliro. Efervesço. Durmo. Acordo. Esta febre ao que vem, de que me serve? Provar que eu sou calor, e se me ferve Provar-me assim que sou e me transbordo? Cabeça fria, vá! Pensar não mais! Eu que sinto coa pele do pensamento Já sinto não a pele antes o vento, E só de o pensar tremo como um cais. Eu suo...nem me sou...(...)"
"Dói-me o que não escrevi, e não tive em sorte, Como um condor que, abrindo as suas braças No mais profundo céu, chora as carcaças Do que não teve em vida nem em morte; Tudo o que não escrevi é passageiro, Estação que nestas folhas não detive; Do que escrevo sou escravo e o mantive Pra fardo alijado ao mar negreiro (Que os versos são só palha e porém fardo). Sofri, mas foi por pouco que o sofri. Melhor: murchei. Fui flor e nem flori. Melhor errei. Honrosa a flor que é cardo. Escrever é dor. Esquecer dor é. Que vício! É uma hérnia na alma este ofício ..."
Iniciado e terminado no mesmo dia dentro da biblioteca.
Poesia cristã, não sei se existe, mas com enormes traços de cristandade em cada poema. Não conhecia, foi um acaso o livro tombar-me na vista. Talvez leia os presentes na biblioteca.