"Um poema. No sentido da luz, na direcção do vento. Como os nomes que são o culto ritual do coração. Como um signo — que se deseja eterno e não é mais que tempo."
Um Poema
***
"esqueço-te com a terna complacência do silêncio habitual das horas no seu movimento e no entanto restou um perfume quase imperceptível do olhar por uma vez aceite em mim, um olhar que julguei fosse o meu amor, a ilusão de um gesto que olhamos como se nos pertencesse e no entanto nos é alheio. Eu havia contribuído integralmente. A terra foi por um instante pura através do teu corpo elástico e pausado."
Carta
***
Sabia que a tarefa de seleccionar um ou dois poemas deste livro seria trabalhosa, ingrata... e, para escrever sobre ele, teria de batalhar um pouco e de encontrar um bom ponto de partida: fui, então, para Espanha, por saber que lá encontro memórias que me permitem falar da relação que criei com este livro.
Há uns anos passei por Madrid e, dispondo apenas de algumas horas para explorar a cidade, decidi investir todo o meu tempo no Prado. Quando comecei a minha visita descobri que era estritamente proibido fotografar, o que causou um desconforto inicial — estamos (estou) habituados a registar alguns fragmentos da realidade, isto na expectativa (real ou imaginária) de poder regressar a essas imagens: partilhar, revisitar, avaliar; imagens que consolidam as informações que nem sempre a presença permite reter. Nada feito: o choque inicial deu lugar à aceitação e a experiência acabou por ser positiva — guardo hoje memórias bastante vivas desse dia; sei que me demorei diante dos quadros que mais me interessavam (e que fiz escolhas difíceis... de certo modo, foi quase como fotografar com uma câmara analógica, tive de tomar decisões, de saber onde investir e do que abdicar) e a noção de presença (da minha presença diante das obras, das obras em si — daqueles objectos físicos, materiais) saiu reforçada. E hoje tentei pensar se podia transportar algo dessa experiência para a leitura de um livro que não é meu, que em breve deixará de estar ao meu alcance, e descobri que talvez se passe precisamente o contrário: quando tenho comigo um livro emprestado (seja ele de um amigo/conhecido ou de uma biblioteca), se for um livro de que gosto realmente e que sei que não posso ter (ou por saber que está esgotado, ou por não ter liquidez que me permita adquiri-lo), sinto sempre um nervoso miudinho, uma espécie de ansiedade a agitar-me o corpo. Sinto que nunca o apreendo realmente, que estarei distante de o conhecer e de fazer com que ele faça parte de mim. Contrariamente à experiência do Prado, não vivo intensamente o momento, nem tão pouco me sinto presente — sinto que o objecto que tenho em mãos se está a esvair lentamente, que é já memória sensorial e que num piscar de olhos se extinguirá. Creio que essa sensação resume a minha relação com os meus livros favoritos (e não só): gosto de os ter na mesa de cabeceira durante meses, de os ver nas estantes; há algo de tranquilizador em saber que aqueles livros estão ali quando a noite se prolonga até às 5h da manhã, saber que basta erguer os braços e reencontrar um poema que me reconforte. As leituras que faço em silêncio, em solidão, na intimidade que só a noite pode propiciar, criam esta sensação de que consigo conhecer melhor os meus livros, e é um conhecimento que se faz ao longo de meses, anos, sem datas nem prazos... um conhecimento que dura enquanto eu durar.
Dentro de umas semanas sei que não vou poder acalentar as insónias com o "Paralelo W" e com o "Estrela Rutilante" e isso, não o escondo, provoca-me dor. Mas, a propósito de tudo isto, é nestes momentos que recordo a generosidade humana e a noção de partilha — este livro já terá passado por várias mãos e foi sempre devolvido, e também eu o devolverei quando a isso for obrigada... e sei que o faria sempre porque o mais importante é que ele seja lido.
"A vida é. O Tempo - agora. Tudo o que somos tem apenas esta hora este momento.
Seu corpo sombreado sobre o leito seu incerto leve pensamento seu estranho olhar acobreado seu corpo apenumbrado Misterioso Enigma Relevado Fantástico e Real Perfeito e Glorioso"
Refiro-me às coisas, ao silêncio das coisas, ao sagrado silêncio expressivo dos objectos. É sempre a minha morte em jogo, é sempre a palavra oculta na cor, na forma, no silêncio dos objectos.