Ponderei muito entre dar 3 ou 4 estrelas a este livro. Seria, portanto, um 3,5.
Gostei do livro, não me interpretem mal, mas talvez tivesse as expectativas altas?
Digamos que, gostei da história, mas não gostei tanto da escrita.
Tive muita curiosidade em ler este livro porque me interesso bastante pela história europeia, e também pela história das monarquias: as intrigas, as relações entre as casas reais, que eventualmente levaram a conflitos como por exemplo a guerra dos 100 anos, as guerras das rosas, etc.
Sendo que Filipa de Lencastre se insere neste capítulo da história e, melhor, da história de Portugal, e, ainda, sendo a matriarca da ínclita geração, fiquei muito entusiasmada.
Mas confesso que me desiludiu um pouco. O que torna o livro interessante é só o facto de sabermos que retrata personagens verídicas e momentos importantes da nossa história; mas isso não é devido à escritora, pois não foi ela quem "inventou" as personagens. A escritora já tinha uma história interessante à sua disposição que, a meu ver, não soube aproveitar tão bem como poderia.
É-nos contada a vida de Philippa e da sua família, mas quase como um relato. A escritora poderia ter dado mais interesse aos factos que nos conta. Há poucas intrigas, pouco suspense, pouco detalhe, pouco desenvolvimento das relações entre as personagens. Algumas histórias acabam repentinamente sem nos ter sido contado com emoção e com detalhe tudo o que se passou. Apenas nos é contado que esse facto aconteceu. Há uma introdução, e uma conclusão, mas o desenvolvimento é pouco.
Por exemplo:
"hoje o meu pai foi à caça". Certo, e como foi a caça? onde? com quem? o que caçaram?
"hoje soube que vou ter um filho". E como foi saber da gravidez? como soube? a quem contou? como foi a reação? como foram os preparativos para o parto? como é estar grávida na época?
"hoje passei o dia com os meus filhos a ensiná-los a escrever". O que ensinou aos filhos? como foi ensiná-los? Como se sentiu? e para eles, como foi?
Quando só há factos e não há detalhe é mais difícil afeiçoar-nos às personagens, porque não nos sentimos inseridos na narrativa. Em muita da acção, quando o suspense e/ou a intriga parece que vai começar, termina repentinamente.
O livro está dividido em duas partes, o que me agradou: a sua vida como princesa de Inglaterra e a sua vida como rainha de Portugal. A primeira parte é bem mais interessante que a segunda.
As personagens inglesas - John, Katherine, Chaucer, a própria Philippa e os seus irmãos - são personagens mais trabalhadas: as suas descrições, o seu caráter, os seus sentimentos. Apresentam-nos várias cenas das suas vidas durante décadas para percebermos ao pormenor como são. Contudo, assim que chegamos a Portugal, somos bombardeados com dezenas de personagens tão rapidamente, e com tão pouco detalhe, que não ficamos a conhecer, realmente, nenhum deles. Passa tudo tão depressa, que tão facilmente aparecem personagens como desaparecem, sem deixar marca ao leitor.
Também achei a escrita demasiado simplista e informal. São usadas expressões e formas de falar nada adequadas à época, muito corriqueiras. Os diálogos têm pouca essência, são demasiado simples e por vezes até perdemos o fio a quem está a falar no decorrer de diálogos com várias pessoas, porque faltam referências a quem está a falar. As próprias descrições da acção são banais, por vezes parecia-me um livro para adolescentes. (É de tal forma tão simples e "fácil de ler" que eu, que leio pouco: consegui ler 500 págs em 15 dias)
E ainda, outra coisa que me desiludiu, e talvez tenha sido por isso que acabei por classificar o livro com 3 estrelas (e não 4), foram os erros históricos. Gosto de história, mas não sou de todo uma expert, e mesmo assim reconheci vários erros que a escritora não deveria deixar passar… e não são “alterações propositadas para se ajustar ao que a escritora nos quer contar”, como às vezes os escritores fazem e deixamos passar pois servem para embelezar a narrativa. Estes são simplesmente erros de distração da escritora. Exemplos:
- A escritora chama (mais do que uma vez) “rainha-mãe” a Joan of Kent - Joan of Kent nunca foi rainha-mãe, porque para isso é preciso ter-se sido rainha consorte, e ela nunca o foi. Ela foi casada com o herdeiro, mas ele faleceu antes de subir ao trono. Logo Joan nunca foi rainha consorte. Sim, ela foi mãe do rei Richard, mas isso faria dela “mother of the king” e nunca “queen mother”.
- Mary de Bohun ressuscitou? - a escritora menciona que o irmão de Filipa - Henry - ficou viúvo, o que está correto porque a sua esposa Mary de Bohun faleceu jovem. Depois, passados alguns capítulos (e avançados 10 anos na história) a escritora menciona que a enteada de Filipa vai conhecer o seu irmão Henry e a cunhada Mary… Mary já estava morta há mais de dez anos.. e a escritora já o tinha mencionado. Mais, neste momento da visita, Henry já era rei. Mary faleceu antes disso, ela nunca chegou a ser rainha. Era impossível neste momento da história a esposa do rei ser Mary.
- A escritora menciona (mais do que uma vez) que John Holland - o 1º marido da irmã de Filipa - foi executado pelo "malvado" rei Richard. Ele foi executado, sim, mas pelo rei Henry IV. O erro não seria tão grave se a razão para a execução de John Holland não fosse exatamente a sua lealdade ao rei Richard (que era seu meio-irmão). Richard nunca o teria executado. John Holland tentou destronar o rei Henry IV e recolocar Richard no trono. Quando falhou, Henry mandou executá-lo. E mais, quando John Holland foi eventualmente executado, o próprio rei Richard também já estava morto, era complicado ter sido ele a mandá-lo matar.
- Datas – num dos capítulos estamos em 1414. Mais tarde, estamos em 1412. E não é por um “recuar no tempo”, não é um flashback. A história segue corrida, mas há o erro nas datas. Noutro momento, pela mesma altura de 1412/1414, a escritora menciona que o infante Fernando fica no quarto de brincar (e não no quarto de leitura) porque é apenas um bebé. Ele nasceu em 1402. Teria cerca de 10 anos nesta fase.. seria criança, sim, mas não um bebé.
São erros de distração, que, tendo em conta que o livro já tem vários anos, já deveria ter sido corrigido.
Conclusão, não adorei, mas gostei do livro porque é bastante interessante lermos sobre as três gerações: John of Gaunt; Filipa e João I; e a Ínclita Geração.
É sempre interessante ler como Filipa cresceu, como eram as suas vidas na época, como se deu o casamento que deu origem à mais longa aliança diplomática ainda em vigor, como foram criados os seus filhos que foram tão importantes para a história do país, etc.
Gosto bastante de aprender sobre isso. Apenas penso que poderia ter sido mais esmiuçado e trabalhado, porque ficamos com a ideia de que nos foi tudo contado muito “ao de leve”, sabe-nos a pouco.