É o século XV que nos entra nos sentidos. O drama do rei de quem tudo e nada se disse não aparece desgarrado. Insere-se em antecedentes remotos. Os príncipes de Avis do primeiro ao último e seus comparsas. A galeria dos Almadas e dos Senhores de Montemor-o-Velho, que nos impelem para lugares como Alfarrobeira e o panteon de S. Marcos. Os vultos isolados dos nomes mais sonantes da época em que os portugueses foram universais. A acção ultrapassa fronteiras além Pirinéus. A Inglaterra, a Flandres e a Borgonha, a França do pérfido Luís a contracenar com o temerário Carlos e o inocente Afonso de Portugal. O Sacro Império do imperador Segismundo, Roma, Veneza e outros tantos lugares sem esquecer as plagas africanas e as terras por desvendar. As personagens movem-se em cenários vivos, coloridos pela reconstituição de paisagens e costumes, pela etiqueta e pompa dos grandes cerimoniais. Um belíssimo e apaixonante romance histórico onde, tal como em A Casa do Pó, o autor narra acontecimentos importantíssimos e desconhecidos da grande maioria dos portugueses com o mesmo rigor de datas e locais.
FERNANDO DA SILVA CAMPOS nasceu em Águas Santas, Maia, a 23 de Abril de 1924. Licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra, vindo a trabalhar como professor do ensino secundário no Liceu Pedro Nunes. Para além de algumas obras didácticas e pequenas monografias de carácter etimológico, é autor do romance histórico A Casa do Pó (Prémio Literário Município de Lisboa, 1986), que o consagrou, inspirado na figura de Frei Pantaleão de Aveiro, na linha de uma tradição romanesca que vem do século XIX. Depois das novelas O Homem da Máquina de Escrever (1987) e Psiché (1987), publicou o ensaio etnográfico Portugal (1989) e os romances O Pesadelo de dEus (1990), de carácter fantástico, regressando à inspiração histórica com A Esmeralda Partida (1995, Prémio Eça de Queiroz), sobre a vida de D. João II, A Sala das Perguntas (1998), o livro de contos Viagens ao Ponto de Fuga (1998), A Ponte dos Suspiros (2000), … Que o Meu Pé Prende… (2001), O Prisioneiro da Torre Velha (2003), O Cavaleiro da Águia (2005), A Loja das Duas Esquinas (2009), A Rocha Branca (2011, finalista do Prémio do Pen Clube Português de Narrativa) e Ravengar (2012). Em 1997 foi eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Faleceu em Lisboa, a 1 de Abril de 2017.
Este não é um livro fácil de ler... A trama é prolixa e com tanta informação histórica que qualquer falta de atenção nos deixa irremediavelmente desorientados. Podemos chegar a um ponto em que não sabemos a que infante é que o narrador se está a referir, quem é o duque do quê já para não falar dos condes que também se juntam à festa, assim como camareiros-mor, rainhas e seus cunhados, que também não ficam de fora... Se este livro não for lido de seguida, corremos o ´serio risco de confundir tudo.
Além disso, estas 682 páginas estão divididas por capítulos muito longos que exigem um grande esforço para acompanharmos convenientemente toda a história. Julgo também que o livro em si não está escrito numa linguagem escorreita e acessível.
No entanto, há que ressaltar que toda esta percepção 'negativa' em nada afectou a minha opinião quando cheguei ao fim da leitura! Gostei bastante do que li. A narrativa (se bem que um pouco exaustiva) é bastante interessante e até mesmo cativante. É verdade que é preciso uma grande dose de paciência para ler quase todos os acontecimentos com relevância histórica do Portugal quatrocentista, mas a trama é realmente boa. Além disso, este livro serviu para eu aprofundar um pouco os meus conhecimentos da História de Portugal e, principalmente, sobre a vida da grande figura que foi o rei D.João II, um príncipe que pôs acima de tudo a razão de Estado em vez dos interesses individuais dos mais poderosos e corruptos (dispostos a fazer qualquer coisa para manter os seus privilégios), mas que no entanto tomava a justiça como valor principal.
A história de D João II é um pouco melancólica. Para além de tudo o que fez para melhorar o país e o retirar das garras dos nobres que o depauperavam, acabou por perder e ver os seus inimigos conquistarem o trono e restituirem os privilégios dessa classe que apenas se preocupava com o seu próprio enriquecimento. Um texto longo, por vezes muito detalhado mas com algumas cenas caricatas e muito bem descritas que nos permitem um passeio envolvente ao século XV. A ler com calma.