«O retrato de uma geração em busca de si própria, hedonista, desligada da realidade e indiferente ao futuro, que encontra a salvação na amizade e no amor à arte.
A vida de Luísa e Miguel sofre uma reviravolta quando os dois irmãos vencem o terceiro prémio do Euromilhões e decidem gozar um ano de férias em Santiago de Compostela, cidade que os atrai pelo seu misticismo. Ela acaba de concluir a licenciatura em Cinema e ambiciona aproveitar o hiato para escrever um romance; ele é baixista de uma banda grunge agora na senda do sucesso na Galiza multicultural.
Enquanto o projeto musical de Miguel vai florescendo e competindo com os tempos livres, Luísa procura emoções fortes. Vive uma relação cúmplice com Megan, empregada de uma pizzaria, explora os prazeres do sexo e viaja através do LSD com Lorena, uma universitária de beleza estonteante, e Alfonso, um advogado mulherengo, até que finalmente encontra a sua musa em Lana, uma bela jovem paraplégica. O círculo fecha-se no encantador Gael, um rapaz deprimido viciado em batatas fritas e na série norte-americana Crime, Disse Ela. Uma aventura recheada de surpresas que vão fazer de cada dia uma verdadeira descoberta.»
Para saber mais sobre 'Ponto Zero': http://on.fb.me/1AZ0yKz
Para saber mais sobre a escritora: http://on.fb.me/1AZ0ASK
Não é um livro que me tivesse entusiasmado muito este "Ponto Zero" de Rita Inzaghi. Talvez a culpa seja minha, já que tirando a originalidade da localização da história - Santiago de Compostela - o enredo, as personagens e a própria envolvência musical (demasiado forçada), pouco me dizem. Não é um livro mau, mas está longe de ser um bom livro.
Já li o livro, gostei principalmente da aura jovem, não é um romance literário no sentido mais intelectual (pseudo?) da palavra, mas não tem pretensão de ter e isso é fixe. Tem mais facilidade em ser adaptado para um filme, por exemplo, pelas sequências de ação e abundância de diálogos. Gostei da coerência temática (música, jovens, ambientes) e nota-se que a autora experimentou construir coisas como bem lhe apetece, e isso é fixe também. Escrever é um prazer (ou devia) e nota-se que ela andou ali a brincar sem se preocupar muito com o trabalho bem direitinho ou “normas”. Quando digo que andou a brincar não é com conotação negativa. Além disso está simples, mas está claro e bem escrito. É um bom livro para quem está farto de grandes obras todas filosóficas ou pesadonas, mas também não quer um livro vazio de conteúdo ou cor-de-rosa (apesar de a capa ter letras cor-de-rosa ). Coisas que eu acrescentaria/mudaria um bocado: aumentava algumas descrições para ajudar o leitor a entrar dentro da cabeça da autora e tinha mais cuidado com a apresentação das personagens (fiquei um bocado confuso no início sem saber quem era quem e como era quem, por exemplo Kimi é um nome muito andrógino). Mas gostei e para primeiro livro publicado está bem bom, principalmente pela – já o repeti – ausência de arrogância em querer ser mais do que é. O livro sabe bem o que é e está confortável com isso – e sente-se isso a ler. Eu gostei disso: da dignidade do formato.
Ponto Zero, da escritora Rita Inzaghi, viu a luz do dia na inauguração da editora digital Coolbooks. É uma homenagem a Santiago de Compostela e dá a conhecer a confusa protagonista Luísa, a tentar-se encontrar-se “numa geração em busca de si própria, hedonista, desligada da realidade e indiferente ao futuro”.
A Coolbooks, chancela da Porto Editora, é destinada a leitores digitais e a escritores em início de carreira, que procurem uma forma de ter as suas obras publicadas. Uns bons meses depois, pelos comentários colocados no Goodreads, os leitores portugueses começam a habituar-se ao novo formato mas ainda é necessário percorrer um bom caminho para a adesão de todos, sem enumerar os leitores fora das redes sociais e das opiniões de outras pessoas. Lançado em maio de 2014, a obra Ponto Zero foi uma das estreias da editora e, de acordo com as palavras da escritora, é uma homenagem a Santiago de Compostela e um hino à amizade e à arte.
Todo o livro é contado sob o ponto de vista de Luísa. É uma das protagonistas mais confusas que me apareceu nos últimos tempos, pela mistura de sentimentos ao longo de todo o enredo e pelas atitudes tomadas em relação a si e ao seu futuro. Uma confusão nascida na insegurança da personagem e, por esse motivo, tantas vezes me fez odiá-la. Luísa terminou a licenciatura em Cinema e Rui, o seu irmão, é baixista de uma banda grunge e reconhecida numa Galiza cada vez mais multicultural. A vida destes dois irmãos acaba por dar uma reviravolta quando vencem o terceiro prémio do Euromilhões – cinquenta mil euros – e decidem viajar até Santiago de Compostela. Com esta premissa, Rita Inzaghi podia abrir tantas portas no enredo: são tantas as possibilidades para Luísa e Rui encontrarem no ano de férias em Santiago mas a escritora acaba por não dar tanta importância a este acontecimento – o dinheiro, a determinada altura, acaba mesmo por desaparecer.
"Ponto Zero" é um romance que se destaca pela consistência estética e pela maturidade do seu olhar geracional.
Desde as primeiras páginas, percebe-se um cuidado evidente na construção do ambiente narrativo. A escrita é segura, visual e ritmada, sustentada por referências cinematográficas que não surgem como simples ornamentação cultural, mas como parte integrante da identidade da obra. As referências musicais reforçam essa dimensão sensorial. A matriz rock, com ecos de grunge e tonalidades mais densas, cria uma atmosfera que dialoga com a instabilidade emocional e a urgência existencial das personagens. Há uma energia crua que atravessa o texto e que contribui para a autenticidade do retrato. Sob uma superfície aparentemente descontraída, a narrativa revela uma densidade temática significativa. À medida que o leitor se aproxima do universo de Luísa, emergem questões complexas como identidade, sexualidade, saúde mental, experiências-limite e ansiedade. A obra aborda temas potencialmente delicados com contenção e inteligência, evitando simplificações. A pergunta implícita sobre se gostamos de géneros ou de pessoas é tratada com naturalidade e sensibilidade. Este retrato geracional concentra-se num meio académico, artístico e intelectualmente inquieto. Essa delimitação confere foco sociológico ao romance e reforça a sua coerência interna.
A cidade de Santiago de Compostela assume um papel estruturante. Longe de uma representação turística ou exclusivamente religiosa, surge como espaço simbólico de transição. Rita Inzaghi transforma-a num território de peregrinação interior, não como conclusão, mas como ponto de reinício.
Há uma frase da protagonista que sintetiza com particular clareza o espírito do romance: “A arte é uma urgência… E a ansiedade… um trabalho a tempo inteiro.”
Nesta tensão entre criação e inquietação reside o núcleo de Ponto Zero, um romance contemporâneo, sensível e intelectualmente consistente, que confirma a solidez da voz literária de Rita Inzaghi.
"Nesta obra as personagens são bastante reais e humanas, característica que me agrada nas obras que leio. É possível encontramos uma Lana, uma Megan ou um Miguel algures por aí..."
A partir de uma situação inesperada: um prémio de euromilhões, dois irmãos decidem partir para Santiago de Compostela para um Gap Year. A partir daqui é o que nos diz a sinopse: encontros e desencontros, muita música e droga à mistura. O que a sinopse não nos diz é a forma como a autora encontra para nos mostrar isso. E se o livro se assume como grunge, eu diria que se assemelha com a tendência americana de literatura punk. Pode parecer-nos que estamos perante um retrato de uma juventude inconsequente, mas, para mim, estamos perante um realismo que por vezes até dói, porque estas personagens não deixam de ser inocentes, esperançosas e apaixonadas. E digamos a verdade: a nossa realidade é a preto e branco ou é cinzenta (ponteada de muitas cores?).