Primeiro livro da coleção Entrecríticas, um espaço de reflexão sobre a literatura em conexão com outras práticas artísticas contemporâneas, Frutos estranhos é uma provocativa análise das imbricações entre literatura e linguagem artística, mostrando que há romances que são quase ‘textos-instalações’ e obras plásticas que ultrapassam seu suporte formal. Organizada pela escritora e acadêmica Paloma Vidal, com a participação de pensadores de renome latino-americanos, a coleção visa a atender estudantes universitários, acadêmicos, pesquisadores e interessados em geral numa análise crítica e comparativa das manifestações culturais atuais.
Bom livro. Bastante elucidativo sobre a questão da indeterminação ou inespecificidade da estética contemporânea. A argumentação da autora tem bastante sintonia com a desenvolvida pela Tamara Kamenzsain (Intimidade inofensiva e Livros Chiquitos) mas de uma forma um pouco mais ilustrativa que sua conterrânea o que ajuda o leitor brasileiro (sem um conhecimento profundo de poesia argentina conteporânea) a ter uma dimensão mais clara dos livros citados e da situação estética em geral.
Há contudo, uma falta de um recorte definido: essa inespecificidade não é endemica de toda literatura produzida na contemporaneidade ou na América Latina, mas de uma certa parcela de autores (em geral brancos) que tem mantido conexões com gêneros discursivos não-ficcionais para por em cheque a questão ficcional. Não me parece que é o mesmo, ou melhor, faltaria um adendo mais detalhado, do que está sendo produzido pela literatura afro-brasileira ou pela indígena nesse contexto.
O ponto fraco do livro, não obstante, é o último capítulo. Dar ar de vanguarda, 20 anos após a exposição dos trabalhos e Nuno Ramos, com um vocabulário de pompa não só é estranho como parece circular nuns chavões de crítica de arte que não vai tão bem com o tom ensaístico-reflexivo do restante dos capítulos.
Esse comentário não invalida a importância da escrita de Garramuño e do livro.
Importante para pensar nas escritas de hoje, marcadas pelo não pertencimento a nenhum gênero específico, atravessadas por diversas outras linguagens como cinema, artes visuais, séries de tv, diálogos, ficção e realidade, que desafiam o olhar do crítico que quer meter tudo em caixinhas e rotuladas por serem porosas, imbrincadas, movidas por fluxos intertextuais e que nos desafiam por escaparem a formas fixas e estanques.