« Projeto: Poesia » – Uma vez mais uma insistência na pesquisa de um sentido « vário, múltiplo, contraditório? »: a escrita da poesia. Dizer isto é um modo reducionista de pôr a questão, mas com uma vantagem, a de colocar o leitor na perspetiva de um processo e não no interior de uma câmara fechada contendo as perguntas e as únicas respostas. Assim a ênfase fica colocada em INSISTÊNCIA, em pesquisa e em ESCRITA e não em « sentido » como é frequente acontecer. Por outro lado » Projeto: Poesia » teve como seu antecessor um outro livro « O Próprio Poético » e esta simples mudança de titulo revela já uma profunda alteração: de adjetival ( Poético ) para substantivo ( Poesia ): de auto-reflexivo ( Próprio ) para projetivo ( Projeto ) de um sintagma estático introduzido por um artigo definido, para um sintagma dinâmico formado por duas partes ligadas / separadas pelo sinal gráfico « dois pontos » que funciona como um tensionador recíproco entre os dois termos de sintagma. De fato o livro que se vai ler é substancialmente diferente e novo, em relação ao que foi editado pelas Edições Ourion ( S. Paulo ) em 1973, não constituído de forma alguma uma sua segunda edição, mas sim um renovado tempo da já aludida insistência. Alguns capítulos foram recuperados, outros foram re-escritos e outros são totalmente novos, de modo que a proposta se não é , no seu conjunto disruptiva em relação ao livro anterior, ela é uma réplica, dez anos depois, à « conclusão » de « O Próprio Poético ». Este livro não tem conclusão. Pensado e escrito numa estrutura aberta e não historicista, só cabe aos leitores fechá-lo se acharem que deve ser fechado, por não lhes ter interessado. Para quem no entanto encontrar nele matéria estimulante, o espaço é ilimitado. É que a Poesia Portuguesa está a estudar… Livros como este que agora dou ( temporariamente ) por concluido são apenas sinais para esse interminável estudo e (re)conhecimento.» Este é precisamente o ponto de partida para « Projeto:Poesia » , continuando também a ser uma válida anticonclusão para o presente volume. É no entanto justo que se refira que nos últimos dez anos se tem feito um já apreciável esforço no estudo crítico da Poesia Portuguesa em parâmetros e com metodologias diferentes das convencionais, mas se a própria escrita da Poesia é um Projeto em aberto, como o não será sempre o seu estudo crítico ? Por outro lado o posicionamento contextual quer do Autor quer dos leitores não pode ser o mesmo de há dez anos, e é nessa mesma mudança que estarão a razão e os sentidos do escrever e do ler: Poesia.
E. M. DE MELO E CASTRO, nascido a 19 de abril de 1932, na Covilhã, foi um dos iniciadores da poesia concreta em Portugal. A sua prática poética tem sido acompanhada por uma teorização sistemática sobre a linguagem e sobre as tecnologias da comunicação. Sua produção bibliográfica, que se estende por mais de cinquenta livros de poemas, prosa e ensaios, tematizou a tecnopoiesis, a cibercultura e a infopoesia e outras linguagens ainda pouco exploradas até então. Além disso, na sua obra cruzam-se múltiplas práticas, que vão da performance corporal e vocal ao poema tridimensional ou em novas mídias. A sua consciência da mediação técnica da era eletrônica refletiu-se num conjunto de obras pioneiras no uso do vídeo e do computador na produção literária.