Luisa Geisler constrói em Luzes de emergência se acenderão automaticamente uma narrativa sutil, às vezes entremeada com um humor desconcertante, em outras com passagens cativantes. Ao compor esse mosaico, a autora desenvolve um romance surpreendente, emocional, sobre as incertezas do amadurecimento.
De certa forma, um relacionamento são duas pessoas que se recusam a desistir uma da outra. Duas pessoas igualmente ferradas, claro. É o que escreve Henrique, ou Ike, em cadernos que carrega consigo para todos os lugares. São cadernos em que fala de seu dia a dia, dos amigos, e de sonhos difusos que ele guarda para o futuro.
Henrique mora nos subúrbios de Porto Alegre com os pais, e é um garoto que se considera, em todos os aspectos, uma pessoa normal. Está na faculdade, trabalha num posto de gasolina em meio período, tem uma namorada. Fala pouco, é introspectivo, mas cultiva amizades sólidas. Tudo muda quando seu melhor amigo, Gabriel, bate a cabeça num acidente banal e, pouco tempo depois, é hospitalizado em coma. Após uma cirurgia de emergência, não há muito que fazer por ele, dizem os médicos. Apenas esperar. E Ike, os pais de Gabriel, o irmão mais velho e os amigos aguardam o menor sinal de melhora.
É então que, perto do Natal, Ike começa a escrever. São cartas em sequência ao amigo, como uma conversa, onde relata o que se passa na ausência do amigo. Para “quando tu acordar”, diz ele. “Queria saber quando tu ia acordar, como tu tá, o que tem acontecido, se tem algo que dê pra fazer”, escreve Henrique. As cartas são entremeadas por narrativas curtas, que dão a elas uma dimensão adicional: até que ponto Ike sabe realmente o que acontece à sua volta? O que pensam os outros?
às vezes é legal demais ler um livro quase sem querer.
história simples, mas com uma escrita cativante e original em alguns aspectos. foi meu primeiro contato com o trabalho da Luisa e com certeza não será o único :)
"tenho a sensação de que eu vou ficar o resto da minha vida procurando o que é que eu quero fazer e tal e nunca vou saber exatamente. Esse sentimento adolescente meio que permanece. Eu aos dezoito vou achar que aos vinte e dois vou saber, e daí aos vinte e dois vou achar que vou saber aos vinte e cinco, aos vinte e sete, aos trinta, aos trinta e cinco. Quando tu vê, tu não tem mais chances de fazer o que tu quer porque tu passou todo esse tempo procurando o que era isso."
O meu sensor de mimimi explodiu, pega a sua intriga e vai pra... (Rala, sua mandada!)
Motivos para o sensor de mimimi explodir: * ninguém curte tanto assim ~~literatura brasileira contemporânea~~ (ainda mais escrita por não barbudos) * sou amigo da escritora * tô nos agradecimentos
Motivos para NÃO dar 5 estrelinhas: * medo de vocês me julgando (apenas)
(Resenha, crítica mesmo, cê não vai encontrar aqui. Escreverei oportunamente, provavelmente pro Posfácio. Aqui é lugar de estrelinhas - que são minhas e eu enfio onde quiser - e de review com cabeça quente.)
Chorei? Não. (Fiquei pertinho algumas vezes... na real, talvez tenha chorado, sei lá.) Mas aqui vale uma das maiores justificativas pra nota que dei pra Quiçá, primeiro romance da escritora: eu li o livro logo depois daquele que talvez seja O MELHOR LIVRO QUE TEREI LIDO NO ANO (Quiçá veio depois de Cloud Atlas; Luzes veio depois de Suíte em quatro movimentos) e simplesmente NÃO EMPALIDECEU.
Porque ler qualquer coisa depois de um livro arrasador é praticamente pedir pra fingir que não gosta mais de ler, folhear livros aleatoriamente, focar na academia, ficar pensando besteira ou vendo o VMA - enfim, a gente precisa de um tempo, porque as expectativas tão altas demais e tudo vai parecer uma decepção.
Não foi o caso.
Tem tanto Ike por aí PRECISANDO ler esse livro que ó.
Bah, nem sei o que falar mais. Se alguém quiser falar sobre o livro, quiser que eu fale tuquissimamente porque você deveria ler esse livro, só mandar inbox, comentário, tweet, dm, whatever.
Ike carrega sempre um caderno com ele. Nele escreve uma espécie de diário em forma de cartas para o seu melhor amigo que está em coma. Há uma boa dose de melancolia no processo. Não só pelo coma, mas pela solidão que ele revela. Ike não quer que o amigo precise se atualizar numa tacada só quando acordar, é o que diz pra si. Mas o que ele busca, ou também busca, é certo entendimento sobre a vida e sobre si mesmo. Sobre uma vida que pode tirar alguém da gente assim, de repente, numa manobra boba do acaso. O início do livro, um pouco mais lento, firma essa relação de cumplicidade entre os dois. Provoca um aperto no peito constante. Mas a história logo se transforma, ganha um ritmo mais ágil e permite que o leitor dê uma respirada de vez em quando. Isso acontece quando Ike começa a narrar sua relação com outros amigos com quem sai para viajar. Mais e mais, as cartas vão se transformando num processo de autoanálise e compreensão do protagonista, tratando sobre drogas, bissexualidade, vínculos de amizade e perspectiva de futuro. Se o amigo em coma acordará, se Ike entregará a ele seus cadernos ou terminará jogando tudo fora, é apenas um detalhe, um suspense extra. A força do livro está no desenrolar, no meio do caminho, porque se pararmos pra pensar, nosso processo de autoconhecimento, assim como o de Ike, nunca chega a um ponto final.
A narrativa é genial, apesar de bem simples. O detalhe das datas é muito importante, mas você só repara isso depois. O final é impactante, apesar de ser totalmente nas entrelinhas.
Acompanhei o Henrique, o Gabriel e o Dante. A Manu também, de certa forma.
Sofri pelo Gabriel, mas mais pelo Henrique. Pela forma como tudo o afeta. Por ele não conseguir se enxergar. Por tudo.
Sofri por Dante, mas de uma forma mais pessoal.
O final me deixou muito triste. São cadernos e cadernos e cadernos. Só cadernos.
Esse livro tem uma ideia bem bacana de narrativa. É um romance epistolar (aprendi essa palavra outro dia, tava querendo usar logo) que é feito em cartas de um rapaz para seu amigo que está em coma. Mas aí, meio que ninguém lê, então fica sendo mais diário que carta. E tem muita coisa interessante na história. O livro se passa em mais de um ano, então tem aí um bom tempo para dar profundidade nos personagens e pras relações se desenvolverem. A gente acompanha as consequências do coma na vida de quem tá por perto, tem uma série de escolhas e mudanças pro protagonista se encaixar e tem um processo de autoconhecimento e descoberta bem complexo para ele. Meu único problema aqui foi que eu nunca consegui me aproximar com o protagonista. Ele tem atitudes e posturas que me fazem pensar que eu não gostaria nem de sentar ao lado dele no ônibus. Era irritante ler algumas das coisas que ele dizia como se fosse a maior bobagem do mundo, mas não era, era só normatividade debochada. (olha aí outra palavra difícil)
A perda, sua rejeição e a tristeza que vem desse processo são apresentados nesse livro com uma força única, com uma sinceridade e profundidade que eu acredito não ter encontrado em nenhum outro livro. Se eu fosse considerar apenas os primeiros capítulos, ou aqueles ao longo do resto do livro nos quais esse sentimento volta à tona (como o dedicado à Manuela), daria cinco estrelas sem a menor dúvida. Mas a autora vai além, talvez para mostrar um progresso do protagonista, ou para tornar o alheamento ainda mais intenso em seus desdobramentos, criando uma espécie de história de amor. Ajuda que esse rumo da história não seja idealizado, mas depois do soco no estômago que fora o início, é um contraste muito grande. O amor parece bobo diante da perda. Isso para não entrarmos na forma (problemática) em que a sexualidade do protagonista é retratada. Ainda assim, algumas passagens e, certamente, alguns sentimentos desse livro vão ficar comigo.
Eu tinha esse livro no Kindle há muito tempo e li agora por indicação de uma amiga. Devia ter lido muito antes!!
É maravilhoso encontrar histórias que se passam no Rio Grande do Sul, com os personagens usando "tu" no lugar de "você", sem conjugar o verbo. As cartas que o protagonista escreve ao melhor amigo (que está em coma) são honestas, (quase) sem filtros, e mostram a vida do jovem adulto gaúcho de um jeito que me deixou sorrindo várias vezes, aquele sorriso de reconhecimento e identificação.
Em segundo lugar, a escrita da Luisa é impecável e de uma inteligência que não se vê toda hora. Ela sabe muito bem o que mostrar e o que ocultar, de modo que a gente compreende o protagonista não apenas pelo que ele está dizendo, mas também pelo que ele está evitando falar ou sentir. Gosto de como as cartas mudam de formato no decorrer do livro, simplesmente porque o Henrique deixa de priorizar certas formalidades, às vezes porque esquece de assinar ou se despedir, e tudo isso é feito de um jeito natural e que também nos dá pistas sobre o estado emocional do protagonista.
Meu velho, agora eu quero ler tudo o que a Luisa já escreveu!!
Gostei muito da historia, os personagens são complexos e interessantes, mas não gostei da linguagem do livro. Entendo a capacidade da escritora de colocar uma voz específica para a narrativa, mas infelizmente essa voz não me agradou.
Li "Enfim, Capivaras" da Luísa e achei o estilo narrativo muito mais interessante e agradável. É uma questão de opinião, por isso reitero que a história deste livro é muito boa. Vale a leitura, até porque o que não me agradou pode ser justamente o que vai agradar outro leitor.
Uma linda obra que fala sobre gerações, juventude e descobertas. Como é esquisito ser alguém ou definir o que é ser alguém. A autora constrói personagens muito reais e suas reações são as mais normais possíveis, porque assim é o dia a dia. Ela também utiliza recursos, pontuações e diálogos que nos tornam próximos daquelas pessoas. Me emocionei em diversos momentos, especialmente quando o protagonista faz alguma reflexão super profunda logo depois de ter falado algo absolutamente trivial. É meu primeiro contato com a Luisa Geisler e fiquei apaixonado.
"Tenho a sensação de que eu vou ficar o resto da minha vida procurando o que é eu quero fazer e tal e nunca vou saber exatamente. Esse sentimento adolescente meio que permanece. Eu aos dezoito vou achar que aos vinte e dois vou saber, e daí aos vinte e dois vou achar que vou saber aos vinte e cinco, aos vinte e e sete, aos trinta e cinco. Quando tu vê, tu não tem mais chances de fazer o que tu quer porque tu passou todo esse tempo procurando o que era isso."
Li o e-book no Kobo. Mais uma mulher para o projecto Leia Mulheres. Luisa Geisler é uma escritora brasileira. Escreveu este romance com 22 anos. Já venceu vários prémios.
Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente tem como protagonista o Henrique. Ele tem o seu melhor amigo em coma devido a um acidente. Para actualizar o seu amigo de tudo o que passa, Henrique escreve cartas para ele. O livro é composto por essas cartas intercaladas com outros capítulos. Juntamente com as cartas ficamos a conhecer as motivações do protagonista, as suas vivências e frustrações. O clima do livro oscila entre humor e seriedade. São abordados vários problemas a partir dos desabafos do Henrique. O assunto que mais despertou o meu interesse foram as dúvidas a nível sexual que ele questiona ao longo de quase todo o livro. Também foram as partes mais engraçadas. São retratados vários episódios comuns da vida de um adolescente de uma forma leve e divertida. Não sabia muito bem o que achar deste livro quando terminei de lê-lo. Resolvi esperar para reflectir e encaixar melhor os meus pensamentos. Gostei do livro, mas infelizmente não adorei. Prendeu-me até ao fim, mas fiquei com a sensação que faltou algo na minha ligação com os personagens. No entanto, pretendo ler outras coisas da autora. 3.5*
Ali pela metade do livro da Luisa eu comecei a me aborrecer com a voz repetitiva do Ike. Já tinha entendido as questões dele, sua dificuldade em lidar com o coma do melhor amigo, a situação psicológica da namorada, a confusão de sua sexualidade, as cobranças familiares e da carreira próprias da idade, e portanto sua sucessão de cartas-diário começavam a parecer desnecessárias. E aí subitamente todas essas questões ganharam uma perspectiva: essa é uma pessoa tentando organizar seus pensamentos, e não um livro editado por alguém que vai ajustar coesões e coerências. Aí a Luisa me ganha. O Ike está triste mas não tanto, confuso mas não muito, apaixonado mas com questões, e ainda que seja fácil para uma escritora de 20 e poucos anos falar de si e dos seus, entrar com tanta força na mente do tudo mediano, do tudo à meia tensão, não é particularmente simples. A banalidade precisa ser abraçada sem reservas, e um livro que começa com uma epígrafe do Arctic Monkeys está no caminho certo. Agora eu preciso ler Quiçá e mandar um abraço pra Luisa.
Geralmente não sou de escrever review, mas senti que precisava escrever dessa vez para deixar claro que as três estrelas significam que eu recomendo muito a leitura! Não cheguei a dar quatro estrelas por causa da confusão de acontecimentos / diálogos / personagens que senti às vezes, mesmo ela sendo coerente com a cabeça confusa do Henrique, com a qual me identifiquei muito. Tendo feito esse disclamer, preciso elogiar a essência que a Luisa Geisler captura em seu livro. O Ike, personagem principal, é o jovem-trabalhador-brasileiro-estutante-gente-como-a-gente. A história extremamente relacionável, simples e complexa de um jovem adulto que é cercado por dúvidas de si, do que quer, dos relacionamentos que cultiva e do lugar em que se encontra é divertida de acompanhar. Além disso, a narrativa frequentemente te traz de volta para o mundo de 2011 e 2012, o que traz uma sensação de nostalgia e de inserção no universo do livro. Por fim, é revigorante ler literatura contemporânea nacional escrita por uma mulher. Parabéns, Luisa!
Existem poucos elogios que soam tão fortes pra mim quanto "este é um livro bonito". Este é um livro bonito. A construção dos personagens, a estrutura narrativa, a voz que a autora encontra pra contar a história de amadurecimento e descoberta da vida adulta por este protagonista tão cheio de paredes e muros parece tão simples - mas é tão cheia de nuances, tem complexidade, carne, sangue e osso. Me senti emocionado em tantos trechos - em outros tantos meu lábio se mexia num sorriso. Me vi devorando cada página porque queria saber o que ia acontecer, mas ao mesmo tempo essa curiosidade trazia junto uma tristeza (porque eu não queria que o livro terminasse). Aí que eu encontrei a beleza de tudo. Este é um livro bonito (e eu gostaria de tê-lo escrito).
“Sabe”, ela encostava muito no meu cotovelo, “eu nunca conheci a vida sem ele”. O que eu ia responder? Ela ficou me encarando. “Desculpa, eu não entendo a tua dor.” Pensei que essa seria uma boa maneira de espantar a mulher. Ela colocou a mão quebradiça em cima da minha. “Entende sim.”
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A história de Henrique, Gabriel, Manuela, Dante, Priscila e tantos outros e outras. A história de Ike, Gabi, Manu (Mumu?), Dane, Scila, de seus relacionamentos e desencontros. A história de um universitário comum trabalhador e devedor do FIES, de sua namorada e seus amigos. Uma história que poderia ser de qualquer um. Por meio do romance epistolar, em longas cartas escritas ao desacordado amigo Gabriel, descortina-se não só a vida do canoense Henrique, mas também a personalidade, os gostos e desgostos do amigo que se encontra em coma, da namorada depressiva, das mães em pânico, etc. É interessante perceber como a seleção dos temas demonstram a personalidade tanto de quem escreve, como de quem seria o possível leitor (Gabriel), e tudo de uma maneira muito interessante, ainda que o estilo sofra alguns percalços por causa da linguagem às vezes coloquial até demais. (E não é mimimi). Isso até que o livro, lá pela metade, dá um 180° e começa a abordar as relações de Henrique e Dante, Henrique e Manuela, e Henrique e Dante e Manuela. Especialmente quase pro fim, o estilo das cartas de Henrique muda bruscamente, sem explicação, e isso quebra um pouco da tão querida imersão. Além disso, começam a ser narradas algumas banalidades desnecessárias, apenas para aumentar o romance, quase como um "filler". É uma pena, pois era um livro que tinha muitas esperanças de ser excelente. Longe de ser péssimo, entretanto, ou mesmo ruim: apenas bom. Uma trama interessante, mas que deixa um pouco a desejar pelo estilo (do meio pro fim) e nas banalidades para aumentar caractere. O que já é suficiente, pois demonstra o imenso potencial de Luisa Geisler, uma escritora-gaúcha-quase-novata-que-espero-que-escreverá-muitos-outros-ótimos-livros. Ansioso para ler as próximas obras.
passei um tempo aqui debatendo comigo mesmo se a nota seria 3 ou 4. mas parei no 3, porque ainda que a forma desse livro seja muito inteligente e a escrita seja excelente, fiquei um pouco cansado da voz do henrique e com algumas repetições ao longo do texto. achei muito massa a forma como as relações do protagonista foram tratadas, mas senti que tava me esforçando muito pra me aproximar do dante (que é grande parte desse livro), e no fim não tive muito sucesso.
dito tudo isso, acho que esse livro tem uma das melhores representações do tema estou-perdido-não-sei-pra-onde-vou-muito-menos-sei-quem-sou. a escrita e a forma me deixaram com muita vontade de ler outra coisa da luisa.
Não gostei tanto dos outros livros da Luisa (gosto dos temas, das histórias, mas achava que ela não alcançava o potencial que tinha ali...), porém "Luzes de emergência..." achei muito bom. Sinto um amadurecimento na escrita dela. Só não dei 4 estrelinhas porque sou chata :p
O livro não é ruim mas o personagem principal é chato e irritante. O livro em si também é chato e sem sal. E TEM ADULTÉRIO E MACONHA (QUE EU ODEIO). Mas é interessante/criativa/triste a maneira que a autora escolheu pra protagonista contar a história.
é alguém que eu conheço, mas não sou tão próximo; sou eu, mas não é nada parecido. tem sentimentos meus que já descobri não serem unicamente meus graçasadeus e relembrar disso em alguns momentos meio que me acende automaticamente algumas luzes