Nesta obra de Mia Couto vivemos os dias 19 a 30 de Abril de 1974 em Moçambique. A linguagem de Mia Couto leva-nos a percorrer rapidamente as páginas deste texto, com inúmeros jogos de palavras e passagens que nos deixam a pensar no sentido real e no simbólico do que é dito. Muitas expressões ditas como o inverso (ex: "com quantos paus se desfaz uma canoa"), como que a demonstrar as relações existentes entre brancos e pretos que eram confusas e que no final parecem se inverter. É marcante a presença da cultura moçambicana neste texto, com a feiticeira e os seus rituais e o enraizar desta cultura em Irene, branca e tia do inspector da PIDE. O inspector da PIDE surge-nos no recato do seu lar como uma personagem infantil, marcada pelo medo ao sangue, em contraponto com o implacável inspector que é durante o dia. O 25 de Abril, anunciado como um golpe militar que derrubou o regime na metrópole, surge como algo inatingível, que aconteceu à distância de muitos quilómetros, mas na verdade vem alterar toda a ordem das coisas.
"O que dá estranheza na guerra é que ela não nos sai da memória, de tal modo que dela não recordamos exactamente nada. É como se a memória fosse, faz conta, um mapa dos sítios que não há.", cap 24 Abril, in "Vinte e Zinco", de Mia Couto"
"Quem não tem parentesco com a vida não chega nunca a morrer devidamente." cap 24 Abril, in "Vinte e Zinco", de Mia Couto"
" - Os portugueses estiveram tanto tempo fechados connosco que agora há os que querem ser iguais a eles.
(...) Seu medo era esse:que esses que sonhavam ser brancos segurassem os destinos do país. Proclamavam mundos novos, tudo em nome do povo, mas nada mudaria senão a cor da pele dos poderosos. A panela da miséria continuaria no mesmo lume. Só a tampa mudaria." cap 29 Abril, in "Vinte e Zinco", de Mia Couto"