O romance “A voz que não se calou” nos traz a história de Maria, uma sofrida mulher negra e nordestina que toma, no ano de 1945, uma decisão motivada pelo desespero e pela necessidade. Ela decide deixar o seu estado natal – o Ceará – com dois filhos, uma recém-nascida, Inês e um garoto bem pequeno chamado Inácio, deixar os mais velhos já adolescentes e, ou adolescendo, fugir do marido abusivo e violento e procurar na capital federal, então o Rio de Janeiro, uma vida melhor. No caminho o seu garoto lhe é tomado e vendido para um fazendeiro que o coloca numa situação similar à escravidão. Atormentada, mas ao mesmo tempo impotente, Maria chega ao Rio de Janeiro e começa a trabalhar na casa de um rico empresário. Ao mesmo tempo em que percebe que está sendo explorada Maria acredita que passar por aquilo é necessário para que pelo menos a filha Inês tenha a possibilidade de conquistar uma vida melhor.
Inês, bancada pelo patrão que, inclusive não tinha só boas intenções em relação a ela, estuda em um bom colégio e desenvolve uma relação de amizade com Joana, a filha de seu patrão. Essa amizade, gradualmente, se aprofunda e se transforma numa paixão homoafetiva e as duas, uma vez ingressando na vida universitária na década de sessenta do século passado, se envolvem no ativismo político ligado aos movimentos de esquerda que lutavam contra o avanço das forças de extrema direita que tramavam, naquele contexto histórico conturbado, tomar o poder em prol única e simplesmente de seus interesses políticos, econômicos e ideológicos.
Ao mesmo tempo Inácio, rebatizado Paulo, consegue deixar a fazenda onde trabalhou muitos anos, primeiro como “peão”, depois como segurança, se desloca para Brasília, então ainda em construção e se envolve com as forças de repressão aos movimentos de trabalhadores e à “esquerda” onde consegue fazer carreira em função de sua “eficiência” na intimidação e na violência.
Esses dois arcos narrativos vão se aproximando e se imbricando e se desenvolvem graças às investigações da jornalista Vânia, filha de Inês, neta de Maria e sobrinha de Inácio/Paulo que após a morte da mãe, aparentemente por suicídio, quer entender as razões da melancolia e do sofrimento que a levaram a um ato tão extremo.
“A voz que ninguém escutou” é o ótimo romance de estreia do escritor, historiador, poeta, professor e roteirista carioca Renan Silva, nascido em 1986 e que ganhou, de forma merecida, a oitava edição do “Prêmio Kindle” de literatura no ano de 2024. O prosa do autor é escorreita, a trama, bem construída, que se alterna no tempo, no espaço e com diferentes pontos de vista, permite uma leitura fluida muito bem complementada com personagens principais sofridos mas, ao mesmo tempo, carismáticos.
Outro atrativo do romance é a construção de um amplo painel da história do Brasil no período 1945/2005 não fugindo de temas espinhosos como o “lado negro” do agronegócio, o machismo/patriarcalismo tóxicos, a insensibilidade social de parte significativa de nossas elites, as tramoias inescrupulosas do bloco civil/militar que tomou o poder em 1964 usando como bode expiatório o alegórico fantasma das “esquerdas” e do comunismo, a tortura e os “desaparecimentos” a cargo da ditadura civil/militar que governou o Brasil no período 1964/1985, a questão LGBTQIA+ tendo como elemento de ligação a história da sofrida Maria e a de sua família.
Eu como uma pessoa nascida em 1962 me identifiquei muito com o enredo que aborda a história recente do país de forma bem crítica e procura dar voz a setores tradicionalmente silenciados aqui em nosso contraditório Brasil – as mulheres, os trabalhadores, a comunidade LGBTQIA+, os relacionamentos “alternativos” que fogem ao padrão “normal” por exemplo.
Vale a pena reproduzir um comentário presente na quarta capa: “a saga de uma família que, ao afirmar a própria existência, inventa, também uma nova nação que responde pelo mesmo nome: Brasil” e uma afirmação do próprio autor em entrevista ao clube de leitura TAG: “Meus personagens são as vozes do povo brasileiro”.
Apenas uma ressalva: em alguns momentos o autor descreve relações sexuais entre personagens e nesses momentos avaliei essas descrições como excessivamente gráficas e eivadas de minúcias descritas, a meu ver, com certo exagero.
No entanto essa ressalva não desmerece o trabalho de Renan Silva que tem virtudes em quantidade mais do que suficiente para caracterizá-lo como altamente recomendável.