Em abril de 1943, iniciou-se a demolição programada da Alta de Coimbra, a zona do original assentamento urbano bimilenário, com vista a erguer o ambicioso plano do Estado Novo para a nova Cidade Universitária. Até à década de 1960, o projeto obrigou à demolição do edificado e ao desalojamento dos residentes - os denominados salatinas. Este retrato narra a migração forçada de uma comunidade de cerca de três mil pessoas para bairros sociais construídos além dos limites de Coimbra. Recria a perda do sentido de pertença original, que levou os salatinas a forjar novas comunidades assentes na saudade e na memória, na revivificação de velhas tradições e na uma ferida ainda por cicatrizar.
“O sentido de pertença daquela comunidade foi definitivamente abalado, a vida que refizeram nos bairros foi um paliativo, e era sempre à Alta que recorriam na sua memória e nos seus sonhos.”
Este pequeno livro da Fundação Francisco Manuel dos Santos, escrito por Rafael Vieira, retrata a realidade dos salatinas, de Coimbra. A história que, a traço grosso, conhecia, resume-se em poucas palavras: a Alta de Coimbra foi praticamente arrasada entre os anos 40-70 para dar origem à cidade universitária projetada pelo Estado Novo, que hoje ocupa aquele espaço geográfico. As poucas palavras escondem, porém, as muitas camadas difíceis das consequências desta decisão: o fim dos bairros, das ruas, dos barbeiros e das canções, das tradições e da vida no dia-a-dia da Alta, entre estudantes e futricas; o fim das casas, de colégios, de escolas, de igrejas, do hospital, de comércio e das populares feiras, dos lázaros, ou das Fogueiras; a deslocação forçada de 3000 a 5000 pessoas (os salatinas), numa cidade que, à época, rondaria a meia centena de milhar.
O arraso da Alta permitiu concentrar e modernizar a Universidade no coração da cidade (por oposição a outras localizações estudadas, como Montes Claros ou o Calhabé, hoje zonas perfeitamente integradas no seu perímetro urbano) e terá contribuído para melhores condições de salubridade das novas casas. Todavia, afastou as pessoas do ponto de vista emocional, geográfico (à época, entre as novas casas e os locais de trabalho ou de estudo, as pessoas deslocar-se-iam a pé em autênticos caminhos de cabras, sem que existisse transporte público naquelas paragens) e social (pessoas com diferentes condições económicas ocuparam bairros distintos). É esta a origem de bairros como o de Celas ou o atual Norton de Matos. Por outro lado, é muito interessante compreender a relação de ruas em Celas com ruas desaparecidas da Alta, como por exemplo a dos Estudos ou o largo de São João Evangelista com a escultura que estava no demolido Colégio de São João a ocupar aquele centro.
O discurso que Rafael Vieira nos transmite é direto. É dada voz aos salatinas vivos à data da redação do livro, que nos permitem descobrir tradições e vidas que se perderam e refizeram, novos contextos urbanísticos e a superação que nem todos conseguiram promover. Com os seus relatos, entramos num diálogo constante entre aqueles anos e os atuais, descobrimos as extraordinárias vivências daquela cidade que não mais existe e do que se seguiu e, verdadeiramente, somos transportados para um espaço onde imaginamos, com especial franqueza, a conversa que, através da intermediação de Rafael Vieira, supomos ter com os salatinas.
Para quem, como eu, estudou, pensa conhecer e vive em Coimbra, é uma oportunidade imperdível de recuperar a memória, resgatar emoções e compreender circuitos urbanos e artísticos alterados.
Livro belíssimo, que li num sopro. Retrato interessantíssimo, a partir de memórias orais em desaparecimento, que urge registar e conservar, da reconfiguração da Alta de Coimbra, sem apelo nem agravo pelos seus habitantes. Tive ecos do que aconteceu aqui, na área de Sines, quando dezenas de pequenos proprietários foram expropriados e forçados a viver em bairros urbanos, sem as suas hortas, as suas árvores e os seus animais. Retratos de tempos ditatoriais que convém conhecer para não repetir. As cidades são palimpsestos, é verdade, mas também o que esteve escrito e foi raspado pode ser conhecido, com a técnica certa.
Excelente trabalho de pesquisa que traz luz a um dos acontecimentos mais tristes nesta cidade e que tantas dúvidas me deixou, porque não vivi naquele tempo. Esta é a minha cidade e mesmo não tendo raízes na alta senti desde sempre que me roubaram um bocado de terreno e de história, ao derrubarem o Bairro Alto.