Um romance-escavação sobre os segredos de uma família, os desaparecidos da ditadura militar e o futuro de um país.
"Um romance tocante sobre um momento sombrio." — Marcelo Rubens Paiva
Num momento de crise pessoal, em meio a um casamento que não vai bem e depois de anos vivendo na Inglaterra, a protagonista desta história retorna a São Paulo. Instalada na velha casa do avô, que sofre de uma grave doença degenerativa, o que era para ser uma breve temporada transforma-se numa jornada imprevisível quando encontra um caderno escrito por uma tia, Eva. Aqui, a trama vai se combinar à dos desaparecidos da ditadura militar brasileira e da vala clandestina de Perus, descoberta em 1990, lugar usado para esconder mais de mil mortos, entre eles presos políticos. Em Caderno de ossos, Julia Codo nos conduz por um drama íntimo e familiar carregado de sensibilidade e força, em que segredos vêm à tona, como antigos esqueletos adormecidos em armários cobertos de pó.
"Na viagem narrativa de Julia Codo, de Londres a São Paulo, de São Paulo às trevas da vala de Perus, pensamento e linguagem vão de mãos dadas com o leitor. Uma percepção literária refinada das sombras do Brasil recente, que se costura pelos olhos sensíveis de uma narradora sutil e original revendo a si mesma na história da família." — Cristovão Tezza
"Avô e Eva são duas palavras parecidas. Neste romance, são sinônimos enterrados sem velório — ou na vala comum de Perus. A protagonista se entrega ao resgate da memória familiar e histórica tal qual um arqueólogo que lava os ossos tentando que não esfarelem. Escrito sem medo, um romance de rara expressão e delicadeza." — Andréa del Fuego
Escrever com propósito, mas sem didatismo. Talvez seja isso que eu leia na Júlia. Sem a cafonice do excesso de lirismo do enredo parado. Tudo em movimento, tudo rico por dentro quando a possibilidade do externo é silêncio. Ela sabe aonde quer te conduzir — sem te convencer — e como quer chegar. Aula de desenvolvimento textual. Fez com que eu lembrasse do velho Machado, o nosso maior, que preconizava a importância de atar todos os fios soltos na narrativa. Tudo que é simbólico, latejante, vivo. O que desinquieta, desconcerta, desafina. Tanta dor que tentaram calar, e que grita. A nostalgia de entrelinhas. O ‘ainda estou aqui’. Que alegria ver uma mulher elevando o nome da nossa literatura. Que linda! Leiam. Aqui tem tudo que nos é tão natural e a futilidade de tentar esquecê-lo. Vive, em chamas necessárias pra iluminar, quem lembra.
O estilo de escrita é perfeito, sem floreios, e extremamente profundo ao mesmo tempo. Consegue tocar em pontos tão difíceis de forma sensível e honesta. Grifei várias passagens por sentir que a autora descreveu sentimentos de forma sensacional e única.
A personagem principal é tão fácil de se identificar. A história é envolvente e original, mesmo tratando de assuntos tratados em várias mídias. O buraco, Eva, a boneca Cassandra. A história de uma família, de pessoas individuais, de um país, de uma época sombria, de memórias, de lembrar. Incrível.
Leitura realmente emocionante e memorável. Superou todas as minhas expectativas, mesmo que eu estivesse esperando muito depois de ler o primeiro livro da autora.
O livro de Julia Codo, Caderno de Ossos, pode ser sobre a ditadura no Brasil, sobre a busca dos desaparecidos da ditadura, sobre o fim de um casamento, sobre crises de família, sobre envelhecimento, sobre luto, mas é muito sobre memória e lembrança.
O que sobra de alguém?
Seus ossos, seus registros num caderno, suas fotos, suas histórias contadas por outras pessoas.
O que vai sobrar de nós?
Nessa narrativa reflexiva, acompanhamos um presente muito recente e um passado muito doloroso, tudo muito realista - parece mas não é auto ficção - sem cair em clichês ou pieguice, sem ser muito violento ou cru, mas deixando aquele desconforto de temas difíceis.
As lacunas estão por toda parte neste livro da Julia Codo, os buracos na história do Brasil e na nossa memória coletiva, os buracos nas nossas vidas pessoais, os abismos nas relações, os buracos negros que são estrelas que morreram e que agora te atraem e te sugam até o ponto do não-retorno.
Me identifiquei com a protagonista desta história, talvez por ser da mesma geração: a dos brasileiros que não chegaram a ver “as duas grandes guerras, o Holocausto, nem a Guerra Fria. Não vi os tanques circulando nas ruas, os generais de óculos escuros”, uma geração que nasceu “do que sobrou do século e depois se distraiu por aí.” Uma geração que às vezes se afasta do país e o observa de longe, mas nem por isso sente que o entende melhor. Que sabe que “voltar a uma casa do passado é sempre apavorante” e que se pergunta o quão inevitável é que, ao esquecer certas coisas, a gente acabe se esquecendo de tudo. Que, às vezes, acha difícil distinguir os buracos que são realmente buracos daqueles que são só reflexos de buracos, e qual a sua parte de trauma num trauma transgeracional, num trauma que é de toda uma nação.
A protagonista vai juntando fragmentos, um braço de boneca, um olho postiço, uma história escrita pela metade, partes de figuras mitológicas (Eva, Antígona, Cassandra), umas conversas que nunca vão direto ao ponto e vai reconstituindo passado e criando presente e futuro do jeito que dá.
Um livro que me lembrou o quanto é bom ler livros do nosso lugar e do nosso tempo.
“Então era isso: eu tinha herdado uma busca fracassada e sem fim, um corpo decomposto, um punhado de ossos perdidos.”
“A abertura da vala comum de Perus foi um evento histórico, algo que se podia comemorar, dizia-se, a verdade vindo á tona, o passado apodrecido agora desenterrado e escancarado, livre da tranca subterrânea, mas é difícil comemorar a presença de um buraco cheio de morte.”
Adorei a leitura, mas vocês vão ler avaliações muito melhores que a minha. A verdade é que me senti cativada por essa protagonista que não sabe muito bem o que quer e vai descobrindo no percurso aquilo que não quer. E a maneira como ela fala de um período terrível mas com uma pincelada de leveza, nessa história que não tem fim, mas tem buraco, tem estrela e tem osso. Acho que essa protagonista que parece ter vinte abas abertas na mente faz conexões muito poderosas sobre o tempo e a memória. Uma das minhas melhores leituras do ano.
Marcelo Rubens Paiva, escritor, dramaturgo, roteirista e jornalista brasileiro, nascido em 1959, autor dos best sellers “Feliz ano velho” e “Ainda estou aqui”, declarou, de forma concisa e contundente, o seguinte acerca do romance “Caderno de Ossos”:
"Um romance tocante sobre um momento sombrio."
Ele foi muito feliz e preciso na sua apreciação dessa obra. “Caderno de ossos”, um ótimo livro, é o primeiro romance da paulista Julia Codo, nascida em 1983, formada em Letras pela USP, editora, escritora e tradutora. E, pelo menos na minha avaliação, que bela estreia. No romance “Caderno de ossos” acompanhamos a trajetória de uma protagonista nunca nomeada que vivendo em um angustiante momento de crise pessoal e querendo uma “distância segura” de um casamento que não vai nada bem, ela retorna da Inglaterra para São Paulo onde mora sua família. Passa a morar, então, com sua mãe com quem tem uma relação algo distante e com seu avô, de quem ela tem agradáveis memórias de infância e que sofre de um grave doença degenerativa. Subitamente ela percebe que o que era para ser uma breve pausa no seu casamento que não lhe dá mais paz de espírito, transforma-se numa temporada sem data para terminar. Perplexa em relação à “cornucópia de incertezas” em que a sua vida se transformou ela passa a vasculhar a vasta casa, palco de sua infância e essa busca a leva a encontrar um caderno escrito por uma tia, Eva de quem ela tem uma memória difusa e de quem a família fala muito pouco. Na verdade ela é uma das centenas de pessoas desaparecidas dentro da cruel trajetória da ditadura militar brasileira (1964/1985). A partir desse momento a trama vai se combinar à dos desaparecidos da ditadura militar brasileira e da notória vala clandestina de Perus no Estado de São Paulo, descoberta em 1990, pelo jornalista Caco Barcelos. No lugar foram descobertas 1049 ossadas, muitas delas provavelmente de vítimas da ditadura militar que as maltratou barbaramente e assassinou. Em “Caderno de ossos” a protagonista desconfia que uma dessas ossadas é de sua tia Eva e ela entra numa espécie de cruzada pessoal para comprovar isso sendo que essa cruzada é mesclada de forma inteligente e sensível aos dramas íntimos e familiares dela revelando segredos de família que vêm à tona na forma de antigos esqueletos, personificações de questões que a família preferia esquecer. Em entrevista à revista “451” (edição de abril/2025) Júlia Codo, a autora de “Caderno de ossos” declarou o seguinte acerca do processo criativo de gerou seu ótimo romance:
“Eu nasci em 1983, a ditadura militar estava terminando. Mas como cresci numa família de militantes políticos, tinha essa memória de um tempo que não vivi. Escutava as histórias que minha mãe, meu pai, meus tios contavam. Eles chegaram a ser presos, mas nada do que aconteceu com minha família foi tão trágico como o que conto no livro. Eles não sofreram tortura, não teve essa parte mais pesada que, quando eu era criança, escutava sem entender e, ao mesmo tempo, entendendo. Essas histórias voltaram para mim com tudo o que foi acontecendo no Brasil nos últimos anos, a escalada do autoritarismo e da violência, e o romance também tem a ver com uma angústia minha em relação ao presente. [...] Comecei a escrever em 2019 e terminei a primeira versão em 2023. Eu sabia mais ou menos a história das ossadas de Perus, e quando resolvi escrever fui conversar com uma amiga da minha mãe, a Amelinha Teles, que é da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Essa conversa foi muito importante para o nascimento do livro. E enquanto escrevia, aconteciam coisas, como o esvaziamento da comissão no governo Bolsonaro, e minha angústia ia aumentando. [...] Quis falar um pouco da minha geração, que não passou por esses anos da ditadura, mas sofreu seus efeitos. A escrita serve um pouco para elaborar, tentar chegar em um lugar que organize os pensamentos. Você fica lá apertando, espremendo, tentando esgotar ao máximo o assunto. Dá angústia, mas um alívio também”.
Não tem nada particularmente errado, problemático, confuso, ou fora de lugar nesse primeiro romance da Julia Codo, e talvez seja esse o seu problema. Uma das primeiras coisas que sua protagonista fala no início do livro é que não sabe muito bem como contar a história que vem a seguir, o que é um procedimento que me incomoda bastante, mas o que vemos em sequência é o oposto disso, uma sucessão muito perfeitamente cadenciada de memória coletiva e particular de uma mulher paulistana e sua família, que se tornam um vago relato sobre a ditadura e seus impactos na história pessoal e nacional, que se torna um livro sobre falta de conexão afetiva, fim do amor, amores que nunca existiram, que se torna um livro sobre a era Covid, e citações falsas num aplicativo, e que se torna um livro sobre buracos onde histórias sem explicação jazem eternamente. Tudo muito bem escrito, mas sem uma quebra, um desvio, um desatino, tudo absolutamente polido e meio apático. Talvez o procedimento seja justamente esse, observar com apatia e um choro muito discreto esse mundo e essas valas do mundo, e esse Brasil em ruínas (?) mas pra mim faltou um pouco de energia.
Caderno de ossos nos apresenta a uma protagonista vivendo uma crise pessoal e um casamento que está claramente na iminência de afundar. Após anos vivendo na Inglaterra, retorna ao Brasil para uma breve temporada que se transforma em uma eternidade. Convivendo com sua família, a protagonista encontra um caderno de anotações de sua tia Eva, que a conecta não apenas com segredos familiares, mas também à historia dos desaparecidos politicos da ditadura militar brasileira, bem como à Vala Clandestina de Perus, local que serviu para ocultar os corpos de mais de mil vítimas do violento regime. Julia entrelaça memorias pessoais e históricas primorosamente, movendo-se entre presente e um passado que jamais deve ser esquecido. As passagens que narram a identificação de restos mortais e as dificuldades enfrentadas por aqueles que lutam pelos que foram silenciados, são tensas e dolorosas, nos convidando à reflexão sobre a herança da ditatura no Brasil e a necessidade da luta diária para que esses tempos jamais retornem.
O livro conta a história de uma mulher que retorna ao Brasil e começa a investigar a história da sua tia, Eva, desaparecida durante a ditadura militar. A narrativa se desenrola por meio de fragmentos: cadernos, memórias, reflexões pessoais e documentos. Ao mesmo tempo em que a protagonista tenta entender a ausência da tia, ela também revisita o silêncio e as omissões da sua própria família, especialmente do avô, Nani.
Sinceramente, achei a leitura bastante arrastada. A narrativa fragmentada e repetitiva me cansou um pouco, e acabei não me conectando tanto quanto eu esperava.
Achei um livro morno pro que ele promete. A todo momento eu tava esperando uma história que fosse mais representativa do momento da ditadura ou com mais impacto, mas a protagonista a todo momento falava da sua vida cotidiana, dos problemas com o marido, fazia metáforas sobre buracos sem muito sentido e desconexas, o que me deu a sensação de no final do livro de chegar a lugar nenhum ( o que as vezes pode ser interessante se for feito de um jeito esperto, mas nesse caso só ficou raso).
Tem momentos bons mas em certas partes fica excessivamente didático. No último quarto o livro parece que perdeu o rumo e se embolou para terminar, aparentemente às pressas, de alguma forma. Mas apesar disso, vale a leitura pelo que nos agrega de memória histórica, essa colcha de retalhos que tecemos coletivamente sem nos darmos conta. Fica o mote de sempre: Ditadura Nunca Mais.
é a história de uma mulher cuja tia foi uma das vítimas da ditadura no brasil. seus familiares nunca tiveram respostas, os ossos dela foram jogados em uma vala junto de outras tantas vítimas. 30 anos após o descobrimento da vala, no governo bolsonaro, a história se passa, com a personagem ainda buscando justiça pela tia. (4.5)
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Um estilo narrativo muito envolvente, com o enredo sendo percorrido junto aos pensamentos, sonhos, emoções da narradora. A história é ainda mais interessante quando ao longo do livro percebe-se que a investigação da narradora vai além do mote principal, enfrentando e desvelando outros demônios particulares.
Uma narrativa diferenciada, com todas o seu peso histórico, mas não deixando de lado essas dúvidas que a vida nos traz. Um ótimo recorte na atualidade do que a história tentou silenciar. Bons personagens que enriquecem toda a trama
e o osso, que é o que sobra do corpo, que por sua vez é resto de estrela explodida, sendo enterrado com nome, deixando de ser resíduo para ser vestígio, rastro de passagem pelo mundo.
A história é boa, mas a personagem narradora é tão apática que passou isso para o leitor. Não me senti conectada a ela e nem a história e isso me incomodou durante toda a leitura.
A autora usa imagens de naturezas diferentes (mas próximas em algum ponto conceitual) para traçar relações entre a vida coletiva e a vida privada, entre o passado e o presente do Brasil. Mostra como a ditadura brasileira deixou feridas ainda abertas, nas famílias e na nossa história, e como isso reverbera nas gerações que não viveram essa época, mas convivem com seus fantasmas.