MEDITERRÂNEO, 3 DE OUTUBRO DE 2013: — O MAIS TRÁGICO NAUFRÁGIO NA ROTA DE IMIGRAÇÃO MAIS MORTAL DO MUNDO, NUM RELATO DA JORNALISTA ANA FRANÇA
Naquela noite sem lua, um barco com cerca de 500 pessoas zarpou da Líbia pelo Mediterrâneo rumo a um qualquer porto na Europa. Naquela noite sem lua, apareceram, ainda assim, outras luzes, de barcos de pesca e navios de resgate das autoridades italianas. Nenhuma se aproximou o suficiente para reparar que aquela traineira velha parada estava a afundar. A bordo, entre as tentativas de pedir ajuda, o pânico fez a traineira virar. Naquela noite que até parecia tranquila, ao largo de Lampedusa, um grupo de amigos despedia-se do verão numa pequena embarcação quando começou a ouvir um som agudo e lamurioso como gritos de gaivotas. Mas não eram gaivotas. Este livro conta a história da sucessão de eventos que levou ao naufrágio de 3 de Outubro de 2013 no Mediterrâneo, resultando em 366 mortes, o mais trágico na história da ilha siciliana que é o território europeu onde chegaram mais migrantes nos últimos 30 anos. Seguimos os passos de Solomon, um dos sobreviventes, e de Adal, que perdeu o irmão nesse dia, ao mesmo tempo que olhamos deste acidente para demasiados outros e deste recanto de Itália para toda a Europa. «Começam a acordar-se uns aos outros e estoira a felicidade a bordo. Voam camisas e sapatos no ar, voam bonés e garrafas de água, as pessoas abraçam-se e gritam e suspiram e limpam as lágrimas para verem melhor o contorno de luz que o farol, com a sua intermitência previsível, vai derramando sobre a salvação tão próxima. Aparece um barco que lança uma luz forte lá de longe. Depois desaparece. Aparece outro, dá a volta à traineira e também desaparece. Sem motor para poder fazer frente à corrente, o barco começa a afastar-se da costa. A montanha de terra que estava perfeitamente desenhada à sua frente, contornos discerníveis, limites precisos, começa a diminuir de tamanho no horizonte. Solomon não entra em pânico, alguém os viu, alguém virá. Mas um burburinho aflito levanta- se das vozes dos passageiros como o vento levanta as folhas secas antes de uma tempestade.»
LAMPEDUSA, IR E NÃO CHEGAR - Ana França . Este pequeno livro da jornalista Ana França, é um murro no estômago e um nó na garganta que não se desfaz quando terminamos a leitura. Através das histórias de Solomon, Adal e Abraão, o livro leva-nos a mergulhar num mar que não é tão azul como nos postais, mas sim, pesado, frio e destruidor. Aprendi muito com esta leitura: sobre as condições de vida na Eritreia, sobre os perigos inimagináveis na travessia do deserto e do mar, sobre os habitantes de Lampedusa, sobre a politiquice e o dinheiro envolvido neste negócio dos refugiados.
Ao fechar o livro, a ilha de Lampedusa deixou de ser apenas um ponto perdido no mapa, para se tornar uma ferida aberta na consciência colectiva. Ana França escreve com uma proximidade quase dolorosa, ao fazer-nos perceber que estas não são as “histórias dos outros”, mas também nossas, uma vez que dizem respeito à forma como escolhemos olhar (ou não) para quem arrisca tudo por uma vida melhor. A dureza das palavras não está só nas mortes e nas ausências, mas também naquilo que sobrevive: o trauma, o silêncio e o peso invisível. Ler este livro provoca desconforto e talvez seja esse desconforto que nos faz lembrar constantemente que, enquanto houver pessoas que arriscam a vida a atravessar fronteiras por esse mundo fora, não podemos virar o rosto. Terminei o livro na semana em que um grupo de migrantes marroquinos desembarcou na praia da Boca do Rio, reforçando a actualidade do tema. Um livro imprescindível!
Uma leitura cruel, que nos rasga e destrói em pedaços, mas necessária.
No dia 3 de outubro de 2013, 366 pessoas morreram naquele que é o naufrágio mais trágico na rota de imigração mais mortal no mundo - no Mediterrâneo Central. Vários pedidos de socorro foram feitos, sem resposta. Este foi um dos muitos momentos em que falhamos, enquanto União Europeia.
A poucos dias do 25 de abril cito um parágrafo de Necropolitics, citado pela autora no começo do seu livro “E então o que é a liberdade de uma pessoa não pode, realmente quebrar com este acidente que é ter nascido em algum lado (…) Como é que esse acidente, tão decisivamente, determina que direitos temos, mas também tudo o resto, a soma das provas, documentos e justificações que temos de fornecer se quisermos ter o direito ao que quer que seja, começando pelo direito a existir?
Como as eleições legislativas se aproximam, aproveito o momento para relembrar uma passagem que contém uma reflexão crucial.
A manipulação e distorção de notícias, particularmente no tema da imigração, é algo que dá jeito à direita radical. Esta é uma ideologia que se não cria um problema, se não fala de uma invasão, se não constrói um ‘outro’, se não monopoliza o medo — simplesmente não existe. As propostas vazias destes partidos necessitam desta manipulação humana, que vários meios de comunicação social lhes fazem serventia para sobreviver.
Termino a reflexão com um poema inscrito numa (das muitas) campas em Lampedusa:
“Que mundo existe além deste mar eu não sei mas cada mar tem uma outra margem E eu chegarei” Cesare Pavese, 1952
“Ninguém parece lembrar-se de que quase todos os países da Europa Ocidental invadiram vários países de África ao longo de séculos, e levavam armamento pesado para vergar os nativos à sua vontade. Nós somos só pessoas, não trazemos armas, não somos um exército. Isso, sim, é uma invasão. A Lampedusa ninguém chega armado.” — Adal
"E então o que é a liberdade se uma pessoa não pode, realmente, quebrar com este acidente que é ter nascido em algum lado - com a relação de carne e ossos, a lei dupla do sangue e do solo. Como é que pode ser possível que quem nós somos, como somos entendidos, como os outros nos recebem, tudo isto seja tão irrevogavelmente predestinado por este acidente? Como é que esse acidente, tão decisivamente, determina que direitos temos, mas também tudo o resto, a soma das provas, documentos e justificações que temos de fornecer se quisermos ter o direito ao que quer que seja, começando pelo direito de existir?"
Poucas são as vezes em que como cidadã europeia não sinto um orgulho e uma gratidão enorme por viver no lugar mais justo e privilegiado do mundo. No entanto, ao ler este livro, duríssimo e tão bem documentado, o que senti foi o quão hipócritas os europeus conseguem ser. Temos a sorte de ter construído a sociedade mais justa e igualitária de todas, e no entanto, achamos que esta deve ser negada a povos que a procuram e que vêm de locais onde esta é só uma miragem. Enchemos o peito para dizermos que somos o povo mais evoluído do mundo e no entanto negamos auxílio aos que nos procuram, quase sempre com elevado sacrifício pessoal, em busca da salvação e de uma vida melhor. Afinal, quando o tema é a empatia ainda temos tanto a melhorar.
Leitura muito dura… cruel, capaz de nos deixar em lágrimas enquanto se procuram mais perguntas do que respostas. Extraordinariamente bem escrito e necessário para se conhecer o que se passa no mundo, tão perto de nós, enquanto a UE “assobia para o lado” 🙁
"Lampedusa ir e não chegar" é um retrato das atrocidades vivenciadas por milhares de migrantes na procura de uma vida digna. Entregues a contrabandistas e traficantes humanos sofrem as consequências da hipocrisia das políticas da União Europeia e os efeitos nefastos da inacção na criação de passagens seguras e legais para a migração. Ninguém quer migrar de forma ilegal, a não ser que não tenha outra alternativa!
"A estrada mais perigosa do mundo é feita de água. Morre mais gente a atravessar o Mediterrâneo Central do que em qualquer outra rota de migração do mundo. No meio da tempestade retórica sobre quem tem e quem não tem o direito de entrar na Europa fica a pequena ilha de Lampedusa, que está mais perto da Líbia que de Roma, capital à qual responde."
Desolador. Extremamente bem escrito e documentado. Deixa um sentimento de impotência e é uma lembrança da sorte que é simplesmente não nascer em certos países.
Este livro é serviço público. Lê-se num ápice... Algumas passagens parecem ficção, mas infelizmente é a triste realidade. Somos uns privilegiados e não sabemos ✨