A prosa de Elvira Vigna ocupa um lugar único na literatura brasileira. Na contramão de tudo que soa tradicional ou corrente, a autora vem, desde o fim dos anos 1980, trilhando um caminho próprio, na criação de um universo pessoal que parece se expandir a cada romance ou conto que publica. Com uma linguagem cortante e antissentimental, e uma visão de mundo cáustica e desiludida, os personagens de Elvira caminham trôpegos por cenários de devastação afetiva, emocional e pessoal.
Este Por escrito é uma história de separação. Mas engana-se quem espera encontrar aqui mulheres chorando pelos cantos da casa. As vidas de Molly, Izildinha, Valderez e das outras personagens do livro são tão inquietantes e inesperadas quanto a prosa da autora. Por escrito é também uma história de desencontros, em que as pessoas parecem não ver quem está à frente delas. E quem está presente na cena vai sumindo devagarinho sem ninguém notar. Ao nos virarmos para o lado, encontramos apenas quem não esperávamos que estivesse lá. Uma história de esperas, sem Ulisses que valham a pena.
Nascida no Rio de Janeiro em 1947, é diplomada em literatura pela Universidade de Nancy, França, e mestre em comunicação pela UFRJ. Escreve sobre arte contemporânea no site Aguarrás.
Estranho que "Nada a dizer" não seja citado na quarta capa desse livro.
Ok, "O que deu para fazer em matéria de história de amor" era o mais recente da autora e o jeito que o livro pede para que o leitor não abandoná-lo a fim de descobrir do que se trata a história é bem parecido em ambos os livros. Mas "Por escrito" é praticamente um "Nada a dizer" -- com sua história cativante e "inlargável" -- visto pelo outro lado, o da amante. Em suma, eu acho que "Por escrito" pegou o melhor desses dois livros: a atenção dada ao interior da personagem (cuja atenção volta-se, em especial, ao que costuma ser ignorado, às ausências, às relações de poder que fazem a máquina se mover) e uma história legal (acho que está mais para "várias histórias legais"), sobre a qual queremos saber mais detalhes (e que envolve algumas traições).
Só que, ao contrário de OQDPFEMDHDA (cuja história eu já esqueci quase totalmente), as divagações da narradora de PE foram quase todas grifadas por mim e pedem para ser relidas. Eu marquei as páginas do livro com um lápis, pra não perder a chance de anotar. É de uma clareza e de um poder descritivo e de uma atenção ao detalhe que explica bem a razão de eu gostar tanto de ler autores contemporâneos.
(Não sei se deu pra entender, mas isso aqui faz parte do meu conjunto de resenhas de cabeça quente pro Goodreads. Tá longe de ser algo acadêmico etc. e tal.)
Só fui conhecer Elvira pelo seu obituário. Uma pena. Amei o livro. Há algo de totalmente sutil mas perturbador no não dito da obra. É como se a descrição de eventos banais da protagonista (e agora observo que nem sabemos qual o nome dela) pudesse suprir a ânsia por uma vida plena, que de alguma maneira ela sabe ser impossível. A reserva consciente das relações pessoais revela um racionalismo e um medo da vulnerabilidade, um 'melhor me esconder' que acho que é mega identificável.
"Não vai ter um encontro. O bum. Nunca tivemos. Não vai haver a conjuminância cósmica, uma coincidência de estares. Nunca houve. Vamos compartilhar um espaço, um lugar nenhum, um lugar comum".