“Ler um livro é um assunto sério. Um livro é tanto um pedaço de tempo perdido como uma trama infinita. De qualquer das formas, as pessoas nunca saem as mesmas depois de se atreverem a entrar naquela porta.”, escreve a Sara neste livro. E ainda bem que eu tive a oportunidade de ler este livro, porque tempo perdido é que não foi!
Já tinha ouvido falar e andava curiosa. O título, a capa, tudo aguçava a minha curiosidade. Estava na lista “para comprar”. Sem contar, deu-se a feliz coincidência de ter ido à FLPorto no dia em que a Sara estava lá numa sessão de autógrafos, e soube que tinha de o comprar. Mais ainda, soube que tinha de o ler depois de uma conversa tão animada com a simpática Sara! E, como “Ler um livro é um assunto sério”, este entrou para a lista dos meus preferidos, sem dúvida nenhuma! Foi lido de lápis na mão, pois claro, está muito sublinhado, porque quando leio um livro com uma escrita tão poética tenho sempre frases que tenho de sublinhar – e são muitas! É tão bom descobrir jovens autores com um talento e uma sensibilidade tão grandes!
A autora inspira-se no desastre que destruiu a capela original de S. Pedro da Afurada e a construção da nova capela, com toda a polémica dos santos do escultor Altino Maia. Esse é o ponto de partida, mas a protagonista, Maria Teresa, vive num local que podia ser qualquer vila ou cidade do país. Maria Teresa é uma personagem de sombra e de luz, uma mulher que representa, simultaneamente, a rebeldia e a resignação. Desde muito pequena desafiou as convenções ( e eu revi-me tanto nesta Maria Teresa, porque também eu perguntei uma vez a um Padre se ele era casado 😉). No entanto, como tantas mulheres, acaba por abdicar dos seus sonhos em nome de um casamento selado por interesses familiares, em nome da honra e da tradição. Já mais velha, Maria Teresa vive sozinha, numa casa escura, rodeada pelos seus Santos e pelas memórias. Na vila todos acham que é uma mulher estranha, e a sua indiferença aos olhares dos outros contribui para a crença generalizada das crianças de que Maria Teresa é uma bruxa, com exceção da pequena Joana, menina curiosa que a visita.
Gostei muito da forma peculiar como a autora estrutura a narrativa, através de pequenos capítulos que acabam por ser como fragmentos das memórias da protagonista, uma espécie de janela aberta para o mundo interior desta mulher tão humanamente rica. Esta estrutura, aliada a uma escrita tão bela e a uma construção de personagens tão cuidada permite uma experiência de leitura muito introspetiva.
A escrita é poética e muito delicada, sem dúvida. Mas há também lugar para uma crítica às normas sociais e religiosas, num ambiente denso, até repressivo e marcado por superstições, onde o quotidiano e o simbólico caminham a par.
O título fez-me muito mais sentido enquanto lia. A ligação entre o imaginário infantil (“Quem tem medo do lobo mau?”) com a expressão popular( “Santos da casa…”) e toda a história que inspirou a obra tem, afinal, mais camadas do que imaginava. Com muita subtiliza e ironia, a autora inverte a lógica: afinal os santos da casa é que são o símbolo de opressão, de moralismo, afinal o perigo vem de “dentro de casa”, da família, da comunidade, das tradições impostas e inquestionáveis. Por isso, Maria Teresa fecha-se em casa com os Santos que foram excluídos por serem diferentes, porque o medo não deve estar no que é desconhecido, mas sim no que conhecemos e é fonte de repressão e de limites à liberdade.
Um livro profundo, escrito com muita delicadeza e que narra uma história cativante. Uma experiência de leitura envolvente, reflexiva e profundamente humana. Um livro que me emocionou, em alguns momentos, porque também eu sei que “Há pessoas que nos fazem falta a vida toda.”
Terminei e comentei “Esta miúda escreve tão bem!” A Sara é uma escritora cheia de talento, e eu espero ansiosamente por mais livros dela.