A tradição perde-se no tempo, estando em vias de desaparecer para sempre. Em Castro Laboreiro, concelho de Melgaço, já não são precisos todos os dedos de uma mão para contar as famílias «nómadas» que ainda se mudam entre as brandas — pequenas povoações em terras elevadas e soalheiras —, e as inverneiras — aldeias em vales abrigados — para se protegerem dos rigores da montanha. A tradição castreja, que remonta a tempos imemoriais, e que tem registos a partir do século XVI, determina que as mudanças entre as brandas e as inverneiras se façam ao sabor do calendário religioso: desce-se à inverneira para passar o Natal, sobe-se à branda para viver a Páscoa. O nomadismo peculiar de Castro Laboreiro não se confunde com nada, nem com ninguém. Ao contrário da transumância, que ainda existe em algumas serras do país, que leva os pastores a subir à montanha para procurar pastos no verão, pernoitando nas chamadas cardenhas que ficavam nas brandas, em Castro Laboreiro as mudanças são feitas para as inverneiras e não envolvem apenas os pastores. Quando se muda, muda a família toda.
"Não se sabe quando começou, mas é fácil adivinhar que vai acabar."
Uma tradição descrita nesta reportagem no exacto momento em que se está a extinguir seria razão suficiente para eu pegar neste livro e apanhar as últimas migalhas de algo que eu desconhecia, mas por que razão sinto pena de algo que, antes de ler este livro, nunca tinha ouvido falar e agora, mais de um ano passado sobre o momento em que o trabalho foi escrito (2021, em plena pandemia), provavelmente esse algo já desapareceu por completo?
Talvez pela angustia que me causa (sem que consiga descortinar porquê) a desertificação do interior e o fim de um certo modo de estar na vida, ainda que o progresso (e uma vida mais facilitada) seja imparável.
A migração sazonal entre as brandas (aldeias cimeiras, mais frescas) habitadas entre a Páscoa e o Natal, e as inverneiras (abrigadas nos vales, mais quentes), para os meses de Inverno, na freguesia de Castro Laboreiro, concelho de Melgaço, subsiste por existirem seis (!) locais que ainda a praticam! É uma questão de (poucos) anos até desaparecer para podermos a ela aceder somente através de testemunhos como este, belissimamente retratado por Luísa Pinto, com sensibilidade, objectividade, respeito e até alguma ternura.
Um documento poderoso para quem quiser conhecer estes pequenos "nadas" que dizem tanto do nosso tempo, mas que dificilmente farão parte dos livros de história.
"No final do ano de 2021, já só seis pessoas (quatro mulheres e dois homens, acamados), continuam teimosamente a encher malas e sacos, para se mudarem de armas e bagagens da casa da primavera-verão-outono para a casa de inverno."
E pronto, quero ir a Castro Laboreiro… quero conhecer o casal dos artistas tripeiros, ajudar o senhor que está a reconstruir a sua aldeia e quiçá avistar um lobito ou dois.
Um livro que dá a conhecer um uma tradição ancestral da região de Castro Laboreiro, que infelizmente está a desaparecer. Com grande respeito pelas gentes, dá a conhecer a região, os seus costumes e história e fiquei ainda com mais vontade de explorar esta zona e as suas gentes.
Livro interessante que nos conta um pouco sobre as tradições seculares da região de Castro Laboreiro. Pena que tais tradições estejam condenadas pelo tempo a desaparecer. Livro muito bem escrito que nos cria sentimentos de curiosidade e vontade de visitar tal região para conhecer melhor os seus costumes e paisagens únicas.