Figuras da noite, salas de aeroporto, quartos de hospital, casas do subúrbio. A chegada da epidemia de AIDS no Brasil transformou tudo. Histórias e vidas que jamais se cruzariam enovelam-se em tramas cintilantes como um farol em meio às trevas.
Baseado em personagens e eventos reais, Sangue neon se passa entre os anos 70 e 90, período de profundas mudanças na sociedade, política e saúde do país. Tempo em que surgem urgentes novas vozes em favor da busca de dignidade, liberdade e o direito à vida. Figuras invisíveis que ajudaram a transformar a saúde pública brasileira. Pessoas como uma travesti nordestina que monta o primeiro centro de acolhimento a pacientes com HIV do país, um grupo de comissários de bordo que inicia um esquema de contrabando de medicamentos através dos aeroportos, e médicos com o sonho impossível de criar um novo sistema de saúde, o maior que o mundo já havia visto.
Tudo o que procuro em literatura: arrojo, vontade de experimentar o novo, domínio da língua, novas propostas de género, intercalando linguagem poética e um quase ensaio e crónica dos tempos. Tudo pontuado por uma extrema vitalidade, urgência, relevância e sem deixar de passar emoção, sem deixar de contar uma história. Bravo, é isto mesmo!
"Minha casa, muitos dizem, é uma casa de morte, destino para onde se vem a fim de esmorecer, atrofiar, mirrar até os ossos e depois sucumbir. Mas então respondo que não é uma casa; é, sim, um palácio. E, quando preciso, sou a mãe, a rainha, a cabeça que se ergue, a voz que ressoa. Minha casa é um lugar de vida. É o colo da família, o ombro dos amores, a fumaça dos prazeres, o destino dos exilados."
Esse livro me comoveu muito, me fez questionar conceitos e entendimentos. Um texto muito bem desenvolvido, às vezes hiperbólico e outros que parece uma reportagem. Os personagens são cativantes. Já imaginei uma série super bem produzida com uma estética entre o trash, o realismo e a fantasia. Não é diversão, é gilete na pele, gliter nos sonhos e sangue neon.
Sangue Neon é uma obra contundente que mergulha nas margens da sociedade brasileira com uma sensibilidade quase poética, sem jamais suavizar a violência e a crueza que permeiam sua narrativa. Marcelo Henrique Paiva constrói um retrato intenso de personagens que habitam a noite, o asfalto e as contradições urbanas, oferecendo ao leitor uma experiência densa e desafiadora. Não é um livro de conforto e sim de confronto.
A narrativa se concentra em um dos períodos mais marcantes e dolorosos da saúde pública e da vida social brasileira: a chegada da epidemia de AIDS entre as décadas de 1970 e 1990. Mais do que relatar a doença, o autor a utiliza como lente para examinar estruturas de poder, preconceito e resistência das minorias. O livro captura com precisão o clima de medo e desinformação da época, quando a AIDS era estigmatizada como “peste gay”. Ao mesmo tempo, insere essa história em um Brasil em transição política — do fim da ditadura à redemocratização — conectando a luta contra o vírus ao nascimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e ao movimento sanitarista.
É uma leitura intensa, que dá voz sobretudo aos grupos mais vulneráveis, com destaque para a comunidade travesti, revelando sua força e resiliência diante da exclusão e do estigma.
O livro narra eventos da epidemia da AIDS no Brasil e, primariamente, em São Paulo, pelos olhos de personagens fortemente inspirados por figuras da vida real que participaram desse capítulo da história da comunidade LGBT e de mulheres trans e travestis. O estilo da escrita é muito característico para cada narrador, ajudando a diferenciá-los e a demonstrar sua personalidade e valores e, apesar de muitos dos eventos serem horrendos, em nenhum momento essas personagens, marginalizadas, parecem se tornar uma atração num circo de sofrimento; sempre há alguma "silver lining", alguma revolta, alguma forma de se rebelar contra a injustiça sofrida e mesmo o luto específico de perder alguém que ainda é vivo mas não é mais o mesmo, um luto especialmente amargo no contexto inserido, não é tido como um fim derradeiro. O final do livro acaba soando um pouco mais documental, o que pode atrair menos comparado ao resto da narração, mas compreendo que tenha sido a melhor forma de amarrar as pontas soltas da trama.
- o que é travesti? ela contava as notas dentro da bolsa, enquanto alisava uma navalha com a outra mão. - e isso é pergunta, viado? sou um homem, um bicho, sou uma mulher. sou o novo, sou o antigo. sou o que não tem tempo, o que sempre esteve vivo. sou o certo, sou o errado. sou o que divide, o que não tem duas partes. sou o que não esquece o que me fazem; nos bares, na lama, nos lares, na cama. sou logum edé, filha de oxum, grande guerreiro da noite, aquele que não tem sexo, o mais bonito dos orixás. - e o que você faz para sobreviver nessa noite? - ora, mona, não vê? eu sou a noite
Atualmente sou médico residente em infectologia e posso dizer com sinceridade: esse livro atravessa épocas e acende no coração do leitor o mais profundo medo que o HIV gerou há 40 anos e o sofrimento avassalador que impediu milhares de vidas de florir e criarem histórias. Solucei em diversos trechos e sorri com as pequenas vitórias flagradas. Acima de tudo, senti que minha vida hoje é resultado do sangue neon de tantos que vieram antes de mim. E eles precisam ser lembrados.
Extremamente bem escrito, sem romantizar e sem ser sensacionalista, o autor cria um verdadeiro documento sobre o inicio da epidemia da Aids no Brasil e seus efeitos na sociedade, centrando a historia num grupo de personagens diversos e todos eles bem desenvolvidos. Uma verdadeira pérola.