O novo agora é a brilhante sequência de Feliz ano velho e Ainda estou aqui. Nele, Marcelo Rubens Paiva intercala memórias e acontecimentos familiares para construir uma narrativa envolvente e íntima sobre a paternidade. E recria, com sensibilidade, um momento desafiador da história recente do país.
Escritor, pai depois dos cinquenta anos, cadeirante e considerado inimigo pelo governo assim Marcelo Rubens Paiva se descreve, neste livro franco e emocional, sequência autobiográfica de Feliz ano velho e Ainda estou aqui — cujo filme, dirigido por Walter Salles e com Fernanda Torres no papel principal, foi vencedor do prêmio de melhor roteiro do Festival de Veneza e candidato ao Oscar de melhor filme. Nas obras anteriores, ele fala sobre o acidente que o deixou numa cadeira de rodas aos vinte anos, o desaparecimento do pai, Rubens, durante a ditadura militar, e a luta da mãe, Eunice, para cuidar sozinha dos cinco filhos, se tornar uma defensora dos direitos indígenas e, por fim, enfrentar o Alzheimer. Desta vez, em O novo agora, é o próprio Marcelo quem está no papel de pai. Às vezes bem-humorado, em outras melancólico, Marcelo mergulha nas agruras da paternidade, ao mesmo tempo em que recorda períodos especialmente duros do paí primeiro, a guinada política que atinge em cheio sua família e artistas. Depois, a pandemia. E, em meio a isso, a lenta fragmentação do casamento. A escrita avança e recua no tempo, retoma memórias de infância e relatos de seus pais e, aos poucos, constrói um retrato complexo de uma família atravessada por crises em diferentes níveis, incerta quanto ao futuro, mas que, aos poucos, aprende a sobreviver. E a sair do outro lado refeita.
Escritor, dramaturgo e jornalista, estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, freqüentou o mestrado de Teoria Literária da Unicamp e o King Fellow Program da Universidade de Stanford, na Califórnia.
Publicou cinco romances: Feliz ano velho (1982, Prêmio Jabuti), Blecaute (1986), Uabrari (1990), Bala na agulha (1992) e Não és tu, Brasil (1996). Publicou também o livro de crônicas As Fêmeas (1994). Foi traduzido para o inglês, espanhol, francês, italiano, alemão e tcheco. Como dramaturgo, escreveu: 525 linhas (1989); O predador entra na sala (1997); Da boca pra fora; e aí, comeu? (1999, Prêmo Shell); Mais-que-imperfeito (2000); Closet Show (2001); e No retrovisor (2002).
Não sei cinco estrelas porque tenho, desde Feliz Ano Velho, algum incômodo com a escrita dele que não sei precisar. Ainda assim, li Feliz Ano... na adolescência e me apaixonei irremediavelmente. Sei trechos inteiros de cor.
Este novo não tem a força poderosa de Ainda estou aqui mas tem uma delicadeza imensa na construção (permanente) da paternidade, do relacionamento com os filhos (alguém leu e não sentiu vontade de conhecer esses meninos?) e na recuperação das experiências do autor como filho - não de um cara qualquer, mas do pai dele, gigante.
Em 2004 eu me apaixonei pelo Marcelo lendo Feliz Ano Velho. Em 2015 eu me emocionei com o Marcelo reconstituindo o desaparecimento do pai pela ditadura e lidando com o desapercimenfo em vida da mãe pelo Alzheimer (no agora premiadíssimo Ainda estou aqui). E em 2025 eu ri e chorei com as descobertas dele na paternidade e revivendo esses últimos 10 anos de Brasil fraturado.
4.5 ⭐️MRP sabe contar histórias simples de maneira sensível e tocante. Um livro muito interessante para refletir sobre vários aspectos e como esse mundo passou por épocas em que poderíamos ter evoluído, mas ficamos ainda piores. É muito atual e trouxe à luz lembranças que foram doídas para muita gente de um passado muitíssimo recente.