Fortemente elogiada pela crítica nacional, Cláudia Andrade regressa ao conto, o seu género literário de eleição, confirmando o seu lugar único e singular nas letras portuguesas.
Na história que dá título a este tão aguardado livro de contos de Cláudia Andrade, o assombro e a alegria do milagre da ressurreição dão lugar ao desapontamento e ao incómodo de um ato de ilusionismo inoportuno, capaz de transformar uma ausência já consumada, quiçá desejada, na presença de um corpo limpo, ultraterreno, imune às marcas da vulgaridade humana.
Uma vez mais, a fragilidade do ser humano, as suas contradições e defeitos, a sujidade e as pulsões de vida, e o seu contraponto com uma ausência idealizada, «única forma de amor verdadeiro», continuam a ser o território de eleição desta extraordinária autora, que com ironia mordaz, numa prosa ágil e sem igual na literatura portuguesa, apresenta ao leitor um cortejo de personagens nas mais trágicas e absurdas peripécias da vida.
Os elogios da crítica:
«Há já muitos anos que na literatura portuguesa não aparecia uma voz literária tão forte.» José Riço Direitinho, Público
«É verdadeiramente (caso raro) uma nova voz num panorama ficcional cada vez mais monótono e inócuo.»
Com Mina, Elias aprendeu a aceitar que um relacionamento se planta no húmus das razões para ficar, mas só sobrevive enraizado fundo na ausência de motivos para partir.
Desconfio que Cláudia Andrade tenha uma mente perigosa, e o facto de eu o dizer como um elogio também faz de mim suspeita. É uma sensação de elação ler uma autora que está em total sintonia comigo a nível de humor negro e que é brilhante a subverter imagens seculares, sempre com um domínio estratosférico da escrita. Pelo conto que lhe dá título, “A Ressurreição de Maria” é uma leitura bastante temática para a época da Quaresma, quer se seja crente ou não, dada a reinterpretação que a autora faz da ressurreição de Lázaro vista pelos olhos da irmã Maria. É da sua perspectiva que vemos Jesus a ordenar ao morto que saia do sepulcro e todas as dificuldades que isso acarreta, como, por exemplo, libertar-se da mortalha que o envolve, e todo o aspecto prático de alguém que volta à vida e daqueles que se consideravam enlutados, primeiro de forma sarcástica…
Examinaram, com pena, à luz fraca da lucerna, os mantos puídos e desbotados que trajavam. Não possuíam outros agora, porque ao segundo dia da morte do irmão tinham depositado todas as belas vestes e óleos aromáticos no ponto de recolha a caminho dos leprosos, cujos vagarosos guizos já se faziam ouvir ao longe.
…depois, numa abordagem existencialista…
Pois se há uns dias o nosso irmão repousava na total segurança da morte, e agora estrebucha sem parar de gemer. Vou buscar Jesus a bem ou a mal. Se o fez viver, não pode permitir que sofra.
Se somos responsáveis por aqueles que cativamos, que dizer daqueles que ressuscitamos? A questão da responsabilidade está também presente noutro dos meus contos predilectos, “Quaresma”, em que o homem não arranja coragem para passar do estacionamento do hospital onde a namorada luta contra o cancro, mas não esquece a promessa de a manter longe da mãe, nem que seja depois de morta.
Elias analisou o coração sujeito ao torniquete da memória e encontrou-o quase incólume, o que considerava ignóbil. O melhor que conseguia era uma espécie de cólica um degrau abaixo, no estômago desguarnecido.
No universo ficcional de Cláudia Andrade, que acho muito coeso e distinto, apesar de só ter lido mais duas das suas obras, há também lugar para um Ulisses no papel de anti-herói, para dois casos de homens a roçar a psicopatia e para um misantropo com o lápis que o reconforta numa festa de cerimónia.
Ambos sabiam que ele gostava tão pouco de revoluções como de celebrações, e pelos mesmos motivos: fazem barulho, e incluem pessoas.
Eucaristia - 5* Equívoco - 4* A Ressurreição de Maria - 5* Cefaleia - 4* Escrever a Lápis - 4* Os honorários dos anjos - 4* O aniquilador - 4* Ter sorte - 4* Ermenegildo Olimpiano – 4*
4,5 Deve haver uma forma de aplaudir o talento, a originalidade, a complexa compreensão da mente que divaga e se distrai nas coisas incompreensíveis como a ressurreição, a violência sem tocar ou a não existência de um filho inventado. A minha humilde forma de o fazer é com estas estrelas.
Mesmo apreciando mais uns contos do que outros, em todos eles encontramos um inegável talento para a escrita que, mais uma vez, aqui se confirma. Não só no estilo, que não sendo acessível não é forçado nem se enreda em artificialismos pomposos, mas igualmente pela singular e cativante abordagem, evidenciando um certo humor negro, a um lado mais absurdo, cobarde e violento da vida humana.