Estive pensando em como minhas memórias estão ligadas ao afeto, esses dias. Não são situações que me lembro da imagem, assim do nada... é sentimental. Lembro do que vi e do que senti... da textura, do sabor ou cheiro, até do som passar, em microssegundos de momentos. A sensação de um lugar, por exemplo muito úmido de maresia, me faz inferir coisas. Não sei como esse livro me afetou depois, mas lembro de sentir tranquilidade. Tinha tempo que não engatava leituras, mas esta sim. Cheiro de livro velho e bilhete na contracapa escrito à mão: o livro foi dado de presente. Uma frase pró trabalhador no prefácio chamava atenção. A primeira coisa que me lembro é da sutileza com que o autor fala de uns temas caros, que parecem meio esquecidos. Lembro de me sentir mesmo com o pé na poeira brincando numa cidadezinha de Minas e sentir o cheiro da terra e do cocô de vaca mugindo pra dar à luz. A inocência dos primeiros amores, amigos de infância que nunca mais vi, a curiosidade e a palpitação na idade em que o mundo todo é descoberta. Depois, me lembro do meu avô que era pedreiro, canavieiro, soldado e que morreu e do Milton Nascimento mineiro e do Autran Dourado agora. São vozes que lembram de outro tempo e que colocaram algo de inesquecível no papel, no som, na construção, algo impossível de ser quebrado, apenas de ser traduzido e atualizado por nós.