Suponho que muitas pessoas na minha posição dominam a regra de ouro para se viver na terra de origem, por estes dias: se não concordares com o que ouves, mete a língua entre os dentes e morde com força.
Harper Lee é uma personalidade frustrante para aqueles que acreditam no sonho da fama. Reservada e senhora de si, é uma autora cuja vida tem tanto de fascinante como de misterioso.
Com um único livro publicado em mais de 50 anos, é simultaneamente brilhante e comedida. Mas a sua história, como sabemos desde 2015, não acaba aí. O livro (Mataram a cotovia), que a afinal eram dois livros (Vai e põe uma sentinela), é, na realidade, toda uma produção literária trabalhada com consistência ao longo de vários anos. Na verdade, foram sete anos a escrever e rever estes contos e então, depois de com eles ter impressionado o agente, que a encorajou a experimentar algo mais longo, (...) outros três anos a transformar essas histórias em capítulos, e esses capítulos em romances. Harper Lee era assim aplicada e comprometida em igual medida com a arte de escrever, o que faz da sua obra uma longa continuidade de narrativas que se entrelaçam. Nesse conjunto, A terra da eternidade radiosa, uma coletânea de contos inéditos a que se adicionam vários outros textos dispersos, acaba por representar a génese de longos e esforçados anos do seu trabalho.
Habitados como são por heroínas perspicazes que remetem sempre para a autora, e por esboços de personagens tão familiares como Jean Louise ou Atticus Finch, estes rascunhos de contos, menos idealizados do que o resultado final, Mataram a cotovia, e mais próximos da aspereza de Vai e põe uma sentinela, contêm poderosas reflexões sobre a inocência, o medo, a repressão sexual das mulheres, o narcisismo, o racismo, o fundamentalismo ou a hipocrisia. No entanto, metade destes textos é ainda demasiado incipiente para ser chamado de literatura. Sobram cerca de 3 a 4 contos que são, efetivamente, boas amostras do talento inicial da autora.
Da mesma forma, a seleção de textos avulsos desta coletânea, publicados entre 1961 e 2016, revela algum esforço e um certo afastamento da parte de Harper Lee que neles se debruça, de forma muito genérica, sobre temas tão variados como o amor, o elogio (com dois textos sobre Gregory Peck e Truman Capote), a culinária (na realidade, um exercício humorístico por parte da autora), a saudade, a gratidão, a história do Alabama ou as festividades natalícias.
Enriquecida pela introdução de Casey Cep à vida e obra de Lee, A terra da eternidade radiosa não deixa de ser uma publicação para admiradores - como as edições póstumas normalmente são - uma publicação, ainda assim, a acusar os primeiros sinais de rebelião perante a censura, a contenção e a conformidade que afogavam a literatura feminina norte americana de meados do século passado.
No seu conjunto conjunto, no entanto, a avaliação da coletânea é mediana, na melhor das hipóteses. Há aqui (vários) textos sofríveis, (alguns) textos irrelevantes e (pouco) textos realmente interessantes - os únicos que mencionarei -, como seria, talvez, de esperar de uma coletânea póstuma que nunca se prestou a ver a luz do dia, e que se debruça sobre qualquer coisa como quarenta anos da vida de Harper Lee - para muitos, ainda, escritora de um só romance.
Para aqueles que não sejam admiradores, para aqueles que não conheçam mais nada da sua obra (o que é muito difícil), o conselho é o de manter a distância deste livro. Para os outros, apesar do risco, poderá ser interessante ter mais qualquer coisa de Harper Lee para ler... Só não digam que vão daqui!
Tendo em conta que a autora apenas publicou um livro em cerca de cinco décadas, há por aí alguém muito hábil a fazer render o peixe miúdo. A minha pergunta agora é: será desta que esgotaram o filão?
Esqueçam. É retórica.
Ficção
O RESERVATÓRIO DE ÁGUA
⭐️⭐️⭐️⭐️
OS BINÓCULOS
⭐️⭐️⭐️⭐️
A TESOURA ZIGZAG
⭐️⭐️⭐️⭐️
BOM A VALER
⭐️⭐️⭐️⭐️
Não ficção
O NATAL PARA MIM
⭐️⭐️⭐️⭐️