O Evangelho conta que Jesus amaldiçoou uma figueira, que dias depois secou até a raiz. Por qual razão o homem tido como a personificação do amor teria feito isso? Que mecanismo utilizou? Você acredita em feitiçaria? – eis a pergunta comum. Mas será a pergunta certa? Pai João de Aruanda, pai-velho, ex-escravo e líder de terreiro, desvenda os mistérios da feitiçaria e da magia negra, do ponto de vista espírita. Fala das diferenças entre ambas, que são manifestações de um princípio encerrado nas palavras com que Jesus explica seu feito: “Se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: ‘Ergue-te e precipita-te no mar’, assim será feito” (Mt 21:21).
Autor consegue explicar diversos conceitos que auxiliam os praticantes de várias doutrinas e tradições religiosas. Contudo, a obra não é um pilar que diversos segmentos espirituais devam se apoiar veemente.
Todavia, a obra está vinculada com um racismo bastante visível (ex.: precisa-se combater a persistência da africanização dos cultos; candomblé pratica-se feitiçaria; são religiões primitivas; etc.), depreciando, e muito, segmentos religiosos de matriz africana, a saber: o candomblé. Isso fez com que minha leitura fosse bastante desgastante e, simultaneamente, questionadora quanto aos conceitos que foram ditos.
Percebe-se uma clara ausência de estudo acerca das práticas de candomblé, uma vez que a base bibliográfica é apenas livros espíritas (excetuando a Bíblia/o Evangelho). Desse modo, chega a ser preocupante um autor de tamanha influência nos adeptos da Umbanda realizar declarações sem nenhum tipo de estudo aprofundado, seja na vivência em terreiros, seja na leitura de textos acadêmicos.
Em outro momento, o Autor aponta que a própria experiência terrena vinculada a atos impostos a população negra (cortar cana, colheita, cozinhar para casa grande, entre outros) não seria apta a consagrar uma posição de conhecimento que determinado preto-velho possui. Isso destoa, e muito, do que Chico Xavier, na obra Nosso Lar, explicou: o conhecimento terreno é diferente do conhecimento espiritual. Somente lá que se aprende as diversas práticas e consegue-se auxiliar o mundo terreno. Ou seja, há contradição entre a obra e as próprias palavras de um grande médium que já esteve em encarnado, além de continuar negando a identidade do ser negro nesta obra de Pinheiro.
Assim, a obra continua a perpetuar um preconceito "velado" no território brasileiro, ao negar a própria cultura negra. A nota se dá, tão somente, pelo fato de conseguir explanar os conceitos espíritas de modo que qualquer leitor consiga ler.